Luís Andrade de Sá - CARIMBOS NO PASSAPORTE - Plataforma Media

Luís Andrade de Sá – CARIMBOS NO PASSAPORTE

 

Vale sempre a pena evocar Robin Williams, como Adrian Cronauer, o jornalista/animador/cómico de rádio a fugir à censura no filme Good Morning Vietname, que Barry Lewinson realizou em 1987. “Hoje, em Saigão, de acordo com fontes oficiais, nada aconteceu. Uma coisa que não aconteceu foi uma bomba que oficialmente não explodiu às 14:30 horas, e que não oficialmente destruiu o café do Jimmy Wah”.

Em Full Metal Jacket, um outro filme de referência sobre o Vietname (e sobre o jornalismo militar), realizado no mesmo ano por Stanley Kubrick, na reunião diária da redação do jornal The Sea Tiger, dos “Marines”, o editor encontra um momento para a pedagogia: “Quando nós transferimos os vietnamitas, eles são evacuados; se eles vêm até nós, são refugiados”.

A vida é assim. Mesmo sem nos mexermos, a nossa posição perante as coisas vai mudando. Do dia para noite, Macau deixou de ser o “território” para passar a “região”. No mesmo espaço de tempo, Portugal, que já fora a “metrópole” e, depois, a “república”, voltou a ser “Portugal”. E, não oficialmente, a colónia não acabou nessa noite porque neste caso o conceito de colonialismo era insuportável para as duas partes.

Mas tudo isso é passado, como o Vietname. O presente é este: como explicar a alguém que viajou de África para Hong Kong, dali para Macau, daqui para a China (“continente”) e, depois, tudo de volta até à savana austral, a razão de não ter nenhum carimbo no passaporte? As provas físicas da sua passagem são papelinhos descartáveis. Até o visto para a China (“então, mas isto tudo não é a China?”) chegou numa folha A4, difícil de compaginar com o passaporte. Razões de soberania (mais uma palavra que esteve no index), que não ajudam. Portanto, uma coisa que não aconteceu foi o atravessar de três fronteiras.

Adiante, que isto até traz vantagens, pois os carimbos gastam rapidamente os passaportes e a bicha para a sua renovação vai até ao Ano Novo Chinês. Ou como diria o editor do The Sea Tiger, é tudo uma questão de “reescrever e dar um final feliz”.

 

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