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LIZETTE SÓ OUVIU QUEIXAS DOS SEUS PRIMOS DE MACAU

 

Lizette Viana, presidente da Casa de Macau na Austrália, observou “menos macaenses nas ruas de Macau” e diz que há maior tristeza entre os seus conterrâneos.

 

A viver na Austrália desde 1966, Lizette Viana  vem frequentemente a Macau mas, mesmo assim, de todas as vezes, ela encontra grandes diferenças na cidade onde nasceu. “Absolutamente. Penso que a comunidade macaense está a desaparecer em Macau. Caminhamos nas ruas e já não se veem mais famílias macaenses. Nem nas igrejas”, disse, em entrevista ao Plataforma Macau.

Lizette nasceu na zona de São Lázaro e, mais tarde, a família mudou-se para avenida Sidónio Pais. Depois, o pai foi colocado no consulado português de Sidney e todos partiram para o hemisfério sul. Muitos anos depois, casada com um egipcío e com uma filha, a presidente da Casa de Macau na Austrália lamenta a grande pressão urbana na sua terra e declara que os macaenses não parecem muito felizes.”Tudo o que eu ouço são queixas”, remata.

Mas nem tudo piorou. A casa de gelados da rua do Campo “continua igual ao que era “, e a servir os mesmos sabores, com as mesmas mesas e guardanapos. E “a cidade está linda, manteve-se a antiga cultura, as casas antigas, lojas tradicionais do nosso tempo”, diz Lizette.

“Não posso dizer que a Praia Grande esteja igual, mas mantiveram aquelas grandes árvores, o que foi bom. Eu gosto, mas se a minha mãe cá voltasse, teria um grande choque”, diz, rindo-se, a macaense.

 

CLUBE DESAFOGADO MAS COM FUTURO “INCERTO”

O cenário da mudança estende-se à Casa de Macau na Austrália um clube pujante, com uma sede paga e valorizada e uma situação financeira desafogada. Mas a sua presidente não acredita que a coletividade sobreviva muito mais tempo à passagem dos anos.

“Daqui a 20 anos não vai haver Casa de Macau na Austrália. É difícil estimular a nova geração, porque muitos deles têm casamentos mistos e resta apenas um mão cheia de famílias macaenses puras e mesmo essas, a única coisa que fazem é manterem a cozinha (macaense) viva”, prevê Lisette. “É uma perspetiva bastante triste”.

Até lá, a Casa de Macau na Austrália vai vivendo sem preocupações, e ao ritmo das três grandes festas anuais – Natal, 24 de Julho e Ano Novo Chinês. E todos os domingos é servido um almoço que junta pratos portugueses, como bacalhau e feijoada, a petiscos locais que, em Macau, quase já desapareceram das ementas: porco bafassá, pão recheado, porco balichão tamarindo, minchi, e outros.

Lizette é a primeira mulher natural de Macau a ocupar a presidência da Casa de Macau na Austrália, um clube com mais de 600 sócios. A coletividade de Sidney tem sido quase sempre dirigida por portugueses de Hong Kong, cuja história de emigração na Austrália é mais antiga do que a dos naturais de Macau.  Como se costuma dizer, os portugueses das duas margens do rio das Pérolas “são todos primos”, mas a rivalidade entre as duas comunidades mantém-se acesa.

“Nós, criados em Macau, éramos proibidos de falar patois, só falávamos o português, ao contrário dos de Hong Kong. E eu não percebo a língua que eles falam”, diz. O inverso também parece verdadeiro, como garante Nina Andrade, igualmente de Macau e a viver na Austrália, que assiste à conversa. “Quando queremos que os de Hong Kong não percebam o que estamos a dizer, falamos em português”.

 

‭ ‬Luís Andrade de Sá 

 

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