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INTERIOR A ALTA VELOCIDADE

Há quase duas décadas se ouvia dizer em Henan que as reformas económicas chegariam um dia ao interior país. Estão a chegar. No centro do país, a província ostenta hoje o quinto maior Produto Interno Bruto nacional e apresenta-se como alternativa ao sul industrial e às regióes do litoral, apostando num hub de transportes terrestres e aéreos que serve parques industriais reservados às indústrias “verdes”, com base em tecnologia de ponta com alto valor acrescentado.

 

Uma viagem de carro entre Zhengzhou a Xinyang, rezam crónicas escritas há dez anos, durava cerca de um dia. A mesma distância é hoje cumprida em cerca de três horas, por autoestrada, mas a melhor opção será mesmo a do comboio de alta velocidade – confortável e silencioso – que leva apenas 70 minutos. Com cerca de 5.000 quilómetros de autoestradas e 4.000 de via férrea, a província de Henan segue nesta altura uma estratégia de investimentos desenhada para afirmar o “berço da China” como a plataforma logística e de transportes que liga todo o país, por terra, com linhas férreas traçadas em forma de cruz, para além de quase 150 ligações aéreas, 127 das quais com destino ao estrangeiro.

A última pérola deste plano é o comboio de cargas que, desde finais do ano passado, liga o eixo Kaifeng (polo cultural) – Zhengzhou (capital da província, com zona de parques industriais e plataforma logística) – a Munique, na Alemanha. Um investimento na ordem dos 135,5 mil milhões de yuans (22 mil milhões de dólares) está nesta altura em curso no centro nevrálgico deste hub, em torno de um aeroporto internacional para o qual convergem o metro, autoestradas e comboios. Prevê-se que a primeira das quatro fases projetadas de desenvolvimento esteja terminada em finais de 2015. As outras três estão calendarizadas até 2026.

A Zona Económica Experimental de Zhengzhou, primeira do género na China, cobre uma área total de 415 quilómetros quadrados e faz fronteira com os municípios de Zhongmu, Xinzheng e Weishi. Para além da plataforma de transportes aéreos e terrestres inclui oito parques industriais, enquadrados pelo regime de zona franca, bem como dois grandes novos polos urbanos. O projeto desenvolve-se ao longo de três áreas e dois corredores: o aeroporto, a área dos serviço integrados, no lado norte, o cluster industrial, no lado sul. Depois há um corredor de proteção ecológica ao longo de dois canais de água; um no sentido sul-norte e outro ao longo da estrada nacional 107. Estes corredores verdes, com 100 metros de largura – 50 para cada lado da estrada – estão nesta altura a serem arborizados.

 

CRESCIMENTO EXPONENCIAL

 

Os 59 projetos industriais que se instalaram na Zona Económica Experimental, em 2013, geraram vestimentos ma ordem dos 174 mil de yuans (28 mil milhões de dólares) em investimento, resultado que representa um aumento de 42,6% quando comparado com o do ano anterior. Segundo dados fornecidos pelas autoridades provinciais, cerca de 70% desta massa financeira foi direta ou indiretamente injetada por indústrias tecnológicas de ponta, a grande aposta de Henan para um plano de crescimento económico com base em produtos “verdes”, de alto valor acrescentado e exportáveis por via aérea. A Foxcom, por exemplo, o maior produtor de telemóveis para a norte-americana Apple, já transferiu a sua principal fábrica – 15 milhões de unidades por ano – de Shenzen para este novo polo industrial. O gabinete de imprensa da Zona Económica Experimental refere um crescimento exponencial do transporte de cargas e de passageiros em Zhengzhou: 60%, entre 2012 e 2013; tendo já atingido 100% nos primeiros cinco meses deste ano, quando comparado com igual período do ano anterior.

 

TECNOLOGIA VERDE

 

As autoridades provinciais estabeleceram regras destinadas a atrair para os oito parques industriais novos setores emergentes, em áreas específicas como a eletrónica e a produção de aparelhos de alta precisão, o fabrico e manutenção de aeronaves, empresas de logística e de transportes, biomedicina ou comércio eletrónico. Para além do potencial gerador de receitas por parte destas setores de alto valor acrescentado, a fuga às indústrias tradicionais está também relacionada com preocupações ambientais. Em Henan, província com larga experiência, por exemplo, na indústria militar de ponta, a tese é a de no interior do país é agora possível partir para um tipo crescimento diferente, que evite o alto consumo de energia e combata a poluição gerada durante a primeira fase das reformas, concentradas na produção massiva e de mão-de-obra intensiva, nas regiões do litoral e no sul do país.

A pouco mais de duas horas de meia de Pequim, num comboio que circula ligeiramente acima dos 300 quilómetros por hora, Zhengzhou não é o propriamente o centro geométrico da China, mas é o seu centro populacional, considerada a concentração de pessoas na costa oeste. Velho sonho da chamada “segunda fase das reformas”, talhada para diversificar geograficamente os investimentos, a aposta em Henan como plataforma logística e de transportes deu os primeiros passos em 1994, mas foi em 2003 que o o Governo central libertou investimentos de monta para a requalicação da Zona Económica Experimental. Um ano antes, em 2002, haviam já sido criadas condições regulatórias para que o Governo provincial angariasse 25 mil milhões de dólares destinados à modernização das redes viárias e ferroviárias, estratégia na qual foi incluída a autorização para a criação de joint ventures com fundos privados. O Governo provincial de Henan prevê rentabilizar esse investimento nos próximos 20 anos.

 

Paulo Rego

 

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