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EXORCIZAR FANTASMAS

José Mário Vaz, antigo ministro das Finanças do deposto primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, foi eleito Presidente da República da Guiné-Bissau, com 61,9 por cento dos votos, na segunda volta das eleições realizada a 18 de maio. O candidato derrotado contesta os resultados, mas um dos seus maiores apoiantes, o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas saudou a vitória do candidato apoiado pelo PAIGC.

 

Bissau voltou a viver esta semana momentos de alguma tensão. Habituados a ir às urnas, tal é a sucessão dos atos eleitorais – consequência directa dos frequentes golpes de Estado -, os guineenses agitam-se nos dias a seguir ao escrutínio. Há pouco mais de dois anos, o golpe de Estado prepetrado pelo Chefe de Estado das Forças Armadas, António Indjai, ocorreu na sequência da primeira volta das eleições presidenciais, marcadas para eleger o sucessor de MalamBacaiSanhá. Após Carlos Gomes Júnior ter ficado perto dos 50 por cento dos votos na primeira ronda eleitoral, o golpe de Estado afastou-o da possibilidade de transitar do cargo de primeiro-ministro para a chefia do Estado e inviabilizou a segunda volta. A proximidade de Gomes Júnior à Comunidade de Países de Língua Portuguesa, em geral, e a Angola, em particular, associada a um certo alheamento em relação à sub-região terão sido as causas próximas para o golpe de Estado.

Com tudo isso ainda bem presente, os eleitores preocuparam-se, naturalmente, enquanto aguardavam pelos resultados provisórios das eleições realizadas no dia 18 de maio. Havia uma espécie de fantasma a pairar sobre o pleito eleitoral. KumbaYalá morrera no arranque da campanha eleitoral da primeira volta das eleições presidenciais e das legislativas de 13 de abril, mas havia conseguido deixar um desejo em tom de profecia no leito da morte, anunciado à cidade e ao mundo após o seu falecimento, pelo sobrinho-médico, que o acompanhou nas últimas horas após um ataque cardíaco. Kumba, político populista que com mestria manipulou o grupo étnico a que pertencia, quereria ser enterrado apenas após a vitória nas eleições presidenciais do seu candidato, Nuno Nabian.

Kumba acabou por ser enterrado muito antes disso. E Nabian, segundo os resultados provisórios revelados pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), no dia 20, não ganhou. O candidato apoiado pelo histórico Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo-Verde (PAICV), José Mário Vaz, antigo ministro das Finanças no governo deposto em 2012 chefiado por Carlos Gomes Júnior, obteve 61,9 por cento dos votos. Nabian, candidato independente que tinha como maior trunfo o apoio declarado de Kumba – um dos homens mais próximos do Chefe de Estado Maior das Forças Armadas -, conseguiu 38,9 por cento dos votos.

Tendo alcançado cerca de 40 por cento dos votos na primeira volta, a eleição de José Mário Vaz, conhecido no seu país pelo diminutivo Jomav, não constituiu uma surpresa. Ainda assim, o candidato derrotado, logo após o anúncio dos resultados na terça-feira, revelou que iria impugnar a eleição, por não se conformar com os resultados apurados nalguns círculos eleitorais pela CNE. Contudo, logo na segunda-feira, várias missões de observação eleitoral incluindo as da União Europeia (UE), União Africana (UA) e Comunidade de Estados da África Ocidental (CEDEAO) haviam declarado que as eleições tinham decorrido com normalidade.

Foi por isso extremamente positivo, para diminuir uma tensão que alguns observadores sentiam a crescer, que apenas algumas horas depois do anúncio da candidatura de Nabian, António Indjai tivesse surgido em público ao lado de Jomav e do futuro primeiro-ministro, Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, anunciando que os militares iriam respeitar o veredito saído das urnas, por ser “a vontade expressa do povo”. O dia acabou em festa, com milhares a comemorar nas ruas a vitória do candidato do PAIGC, na esperança de que os fantasmas tenham sido todos exorcizados. 

 

Rui Flores

 

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