A criatura branca e fantasmagórica enrolada numa balança é quase irreconhecível na publicação do Facebook que a coloca à venda. Só uma observação mais atenta revela que se trata de um pangolim morto. O animal, um dos mamíferos mais ameaçados e traficados do mundo, foi despido das suas escamas e está a ser anunciado por uma conta tailandesa que vende “iguarias sazonais de vida selvagem”.
A publicação é uma de dezenas analisadas pela AFP que ilustram o que os conservacionistas descrevem como um tráfico ilegal desenfreado de animais selvagens nas plataformas de redes sociais, em particular nas pertencentes à Meta, empresa-mãe do Facebook.
Um relatório de várias organizações não governamentais divulgado na segunda-feira (29) acusa a Meta de alojar o “maior mercado individual conhecido de comércio ilegal de vida selvagem” do mundo e de, na prática, incentivar o tráfico ao partilhar receitas publicitárias com utilizadores e permitir modelos de subscrição.
O relatório surge na sequência de uma investigação recente da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), que alertou para o facto de o Facebook ser agora “a infraestrutura pública central através da qual o tráfico ilegal de vida selvagem online está a ser concentrado, descoberto e ampliado”.
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A Meta recusou-se a responder às perguntas da AFP e remeteu para as políticas que restringem a venda de espécies ameaçadas nas suas plataformas. Mas os conservacionistas dizem que essas políticas pouco fizeram para impedir que as plataformas da Meta sejam usadas para o comércio ilegal de vida selvagem.
A investigação do GI-TOC concluiu que, entre abril de 2024 e março de 2026, foram publicados mais de 20 mil anúncios relativos a mais de 260 mil produtos de vida selvagem nas plataformas de redes sociais.
Quase três quartos estavam no Facebook e muitos continuavam online mesmo depois de terem sido denunciados, disse Russell Gray, cientista de dados e ecologista que co-assinou o relatório de abril do GI-TOC. “Até as contas e grupos sem qualquer ocultação que denunciámos publicamente no relatório continuam ativos e a funcionar”, disse à AFP.
‘Inacreditável’
Conservacionistas e especialistas em vida selvagem disseram que isso é comum. “Não recebi uma única resposta nem vi qualquer ação tomada”, afirmou Tom Taylor, diretor de operações da Wildlife Friends Foundation Thailand. “As contas que violam abertamente a lei deviam ser encerradas, e deviam ser abertas investigações sobre as atividades criminosas por trás delas.”
Os conservacionistas argumentam que a Meta não está apenas a falhar na remoção de conteúdos que violam as suas políticas, mas pode, na prática, estar a incentivá-los ao permitir que contas populares rentabilizem conteúdos através de receitas publicitárias e modelos de subscrição.
“Esta monetização de conteúdos que o Facebook e o Instagram promovem está, na realidade, a incentivar as pessoas a cometer atos ilegais”, disse Daniel Stiles, investigador independente de tráfico de vida selvagem.
“Quanto mais interação e envolvimento tiverem na conta, mais dinheiro podem ganhar”, acrescentou Stiles, coautor do relatório divulgado na segunda-feira por organizações não-governamentais como a Freeland, a Education for Nature Vietnam e a International Wildlife Trust.
A Meta não divulga publicamente quais as contas incluídas nos seus programas de monetização de conteúdos. Mas as que estão inscritas no seu programa de subscrição são publicamente identificáveis e incluem uma conta aparentemente no Laos que afirma mostrar caça furtiva de animais selvagens, incluindo pangolins. “É inacreditável que a Meta permita isso”, disse Stiles.
‘Serviço de fachada’
Animais e produtos de vida selvagem são colocados à venda nas plataformas da Meta, incluindo Facebook, Instagram e WhatsApp, segundo a investigação. Mas outras plataformas, incluindo o TikTok e o Snapchat – popular pela sua configuração de publicações que desaparecem – também são cada vez mais usadas por traficantes.
A AFP analisou exemplos que iam desde chimpanzés destinados a animais de estimação até cornos de rinoceronte para medicina tradicional e pangolins para consumo. Parte do conteúdo é ambígua – os vendedores publicam frequentemente imagens de animais ou de partes de animais à venda sem qualquer preço ou explicação. Os interessados são convidados a contactá-los diretamente por mensagem.
Mas muito do conteúdo é claro, incluindo uma conta pública do Facebook que oferece pangolins mortos, lagartos-monitor e outros animais selvagens protegidos para consumo na Tailândia.
A natureza algorítmica das plataformas de redes sociais faz com que os utilizadores que interagem com contas de tráfico de vida selvagem recebam ainda mais conteúdo do género. Após analisar apenas algumas contas públicas que anunciavam comércio ilegal de vida selvagem, o feed de Facebook de um jornalista da AFP passou a mostrar regularmente publicações a vender animais selvagens e partes de espécies ameaçadas.
A Meta esteve entre 11 empresas tecnológicas que anunciaram este mês que irão trabalhar para eliminar o tráfico de vida selvagem nos seus sites.
Mas a empresa faz parte da Coalition to End Wildlife Trafficking Online desde 2018, e o problema continuou a crescer, disse Steve Galster, fundador da Freeland. O responsável alertou para o risco de o mais recente anúncio ser “mais um serviço de fachada”.
“Até que a Meta seja obrigada a limpar as suas plataformas do comércio ilegal de vida selvagem e a provar que não está a lucrar com isso, o comércio ilegal de vida selvagem online só vai piorar.”