O principal negociador do Irão advertiu no domingo (31) que os Estados Unidos não são dignos de confiança, afirmando que Teerão não aceitará qualquer acordo com Washington enquanto os direitos iranianos não estiverem plenamente garantidos.
As declarações de Mohammad Bagher Ghalibaf surgem numa altura em que notícias indicam que o Presidente norte-americano, Donald Trump, enviou ao Irão uma proposta de paz mais exigente, sublinhando as divergências que as partes ainda precisam de ultrapassar.
Quaisquer alterações ao projecto poderão atrasar ainda mais um acordo destinado a pôr formalmente fim à guerra no Médio Oriente e a reabrir o Estreito de Ormuz, após semanas de negociações tensas marcadas por uma retórica agressiva e episódios ocasionais de violência.
O Irão já estava em negociações com os Estados Unidos sobre o futuro do seu programa nuclear em fevereiro, quando os EUA e Israel lançaram ataques aéreos e com mísseis que eliminaram grande parte da liderança de topo da República Islâmica.
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Embora Teerão insista há muito que o seu programa nuclear tem fins exclusivamente civis, os Estados Unidos e os seus aliados ocidentais suspeitam que o objetivo seja desenvolver uma arma nuclear. O New York Times e o Axios noticiaram no sábado que Trump enviou uma nova proposta “mais dura” para ser analisada pelo Irão, embora os detalhes permaneçam pouco claros.
Trump afirmou que as suas prioridades incluem impedir o Irão de desenvolver qualquer arma nuclear e reabrir a rota marítima do Estreito de Ormuz, que o Irão bloqueou desde o início da guerra. “A única garantia que preciso de ter é que não haverá armas nucleares. Eles concordaram com isso, e foi muito interessante”, declarou numa entrevista à sua nora, Lara Trump, no programa que esta apresenta na Fox News.
Teerão, contudo, já manifestou dúvidas sobre as afirmações de Trump e as partes continuam distantes em questões fundamentais. “Não aprovaremos qualquer acordo até termos a certeza de que os direitos do povo iraniano foram respeitados”, afirmou Ghalibaf num vídeo transmitido pela televisão estatal.
As trocas de propostas sobre o texto “continuam, com ambas as partes a apresentar regularmente alterações”, segundo a agência noticiosa Tasnim. Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que “até que se chegue a uma conclusão clara… tudo o que está a ser dito neste momento é especulação”, segundo a televisão estatal.

Fumo sobe após um bombardeamento israelita no sul do Líbano, visto de um ponto do outro lado da fronteira, na Alta Galileia, no norte de Israel, a 31 de maio de 2026. (Foto: Jalaa Marey / AFP)
O Irão afirmou que necessita da libertação de 12 mil milhões de dólares (cerca de 10,3 mil milhões de euros) em ativos congelados antes de iniciar negociações substanciais sobre o seu programa nuclear, classificando como “infundadas” anteriores declarações de Trump segundo as quais o stock iraniano de urânio enriquecido seria destruído, segundo os meios de comunicação iranianos.
Um dos objetivos declarados de Washington na guerra era a destruição do programa iraniano de mísseis balísticos, tendo o general Dan Caine, o mais alto responsável militar norte-americano, estimado em abril que mais de 80% das instalações de mísseis tinham sido atingidas.
No entanto, a CNN noticiou no domingo que uma análise de imagens de satélite revelou que Teerão conseguiu entretanto desobstruir 50 das 69 entradas de túneis atingidas pelos ataques norte-americanos em 18 instalações subterrâneas de mísseis. Embora os ataques diários em território iraniano e na região do Golfo tenham cessado após Teerão e Washington terem acordado um cessar-fogo temporário em abril, continuam a ocorrer ataques esporádicos.
A Guarda Revolucionária iraniana abateu um drone militar norte-americano que estaria “prestes a entrar nas águas territoriais iranianas”, informou a emissora estatal IRIB, embora Washington não tenha confirmado o incidente.
Trump enfrenta pressão para alcançar um acordo que permita levantar os bloqueios concorrentes dos Estados Unidos e do Irão em torno do Estreito de Ormuz, que têm afetado uma rota vital para o abastecimento mundial de petróleo. Depois de Trump ter afirmado que o Irão não cobraria “quaisquer taxas” aos navios que atravessassem o estreito ao abrigo de um eventual acordo, a agência iraniana Fars citou fontes segundo as quais “não existe qualquer cláusula desse tipo”.
A agência ISNA citou no sábado o deputado Alireza Salimi, que afirmou que um plano para a “gestão e soberania” iraniana sobre o estreito – incluindo a imposição de “taxas administrativas” – será em breve submetido ao parlamento.
Teerão tem insistido que qualquer acordo de paz deve incluir o Líbano, onde continuam os combates intensos, com Beirute a acusar Israel de seguir uma “política de terra queimada” à medida que expande as operações contra o Hezbollah, apoiado pelo Irão.
Uma trégua entre Israel e o Hezbollah entrou formalmente em vigor a 17 de abril, mas nunca foi efetivamente respeitada, com ambas as partes a acusarem-se mutuamente de violações. Um ataque israelita a Deir Zahrani, no sul do Líbano, matou oito pessoas no domingo, incluindo três mulheres, segundo o Ministério da Saúde libanês.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas realizará uma reunião de emergência na segunda-feira sobre a ofensiva israelita em expansão, após a captura do estratégico castelo medieval de Beaufort, disseram fontes diplomáticas à AFP.
No domingo, era visível fumo a elevar-se da área circundante, enquanto uma bandeira israelita podia ser observada pela AFP sobre o castelo, que Israel utilizou como base durante a sua anterior ocupação de duas décadas da região. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, classificou a retoma de Beaufort como “uma mudança dramática”.