Quando foi destacado para a ilha filipina de Lubang, em 1944, o subtenente Hiroo Onoda não estava sozinho: integrava uma pequena unidade do Exército Imperial Japonês, ao lado de soldados como Yuichi Akatsu, Kinshichi Kozuka e Shoichi Shimada.
A missão era clara: não se render, não morrer inutilmente e continuar a missão até receber instruções diretas. Décadas mais tarde, essa ordem revelar-se-ia mais duradoura do que a própria guerra.
A guerra que não terminou na selva
Quando as forças americanas ocuparam Lubang em 1945, a resistência japonesa colapsou rapidamente. Onoda e os seus homens retiraram-se para o interior montanhoso da ilha, onde reorganizaram a sua missão como uma operação de guerrilha. Convencidos de que a guerra continuava, passaram a viver da selva e do que conseguiam obter através de incursões.
Nos primeiros anos, mantiveram uma disciplina quase intacta. Construíram abrigos improvisados, deslocavam-se constantemente para evitar a captura e preservavam as armas. A sobrevivência dependia de frutos selvagens, mas também de ações deliberadas: roubo de arroz, abate de gado e vigilância constante de aldeias próximas.
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Ao contrário da imagem de isolamento total, Onoda manteve uma atividade contínua. O subtenente e os seus companheiros realizaram emboscadas, trocaram tiros com patrulhas filipinas e conduziram ações de sabotagem, incluindo a destruição de colheitas. Para eles, tratava-se de guerra. Para os habitantes de Lubang, era uma violência persistente num tempo que já era de paz.
Trinta anos na selva: Entre sobrevivência e violência
Com o passar dos anos, o grupo começou a desintegrar-se. Em 1949, Yuichi Akatsu abandonou os companheiros e acabou por se render, um episódio que reforçou a desconfiança de Onoda em relação ao exterior. Em 1954, Shoichi Shimada morreu num confronto com forças filipinas. Durante quase duas décadas, Onoda e Kinshichi Kozuka continuaram juntos, mantendo a rotina de guerrilha, até que, em 1972, Kozuka foi morto durante uma operação de sabotagem agrícola.
A partir desse momento, Onoda ficou sozinho na selva, mas não abandonou a missão. Ao longo desses anos, a violência era constante.
Estima-se que cerca de 30 civis filipinos tenham sido mortos em ataques ou confrontos relacionados com as suas ações. Na sua autobiografia, “Sem Rendição” (No Surrender: My Thirty-Year War), Onoda apresenta esses episódios como operações militares legítimas; já relatos locais e investigações posteriores descrevem ataques a agricultores e habitantes desarmados, revelando um contraste profundo entre memória individual e experiência coletiva.

Hiroo Onoda, interpretado por Kanji Tsuda, no meio da selva filipina na ilha de Lubang, tal como reimaginado no filme “Onoda: 10.000 Noites na Selva” (Fotografia: Bathysphere Productions).
Um dos aspetos mais notáveis da sua história é o facto de nunca ter estado completamente isolado da realidade exterior. Desde 1945, foram repetidamente lançados panfletos que anunciavam o fim da guerra. Seguiram-se ordens oficiais, jornais, fotografias e até cartas enviadas pela sua própria família. Em 1952, essas mensagens tornaram-se diretas e pessoais, apelando à sua rendição. Ainda assim, Onoda rejeitou todas essas evidências.
Cada documento era analisado e descartado como propaganda inimiga. A sua formação como oficial de inteligência levava-o a desconfiar de qualquer informação que não pudesse ser confirmada por via militar direta. Mesmo quando ouviu transmissões de rádio que mostravam um Japão reconstruído e em paz, manteve a convicção de que se tratava de desinformação.
Assim, ao longo de quase três décadas, viveu numa realidade paralela: uma guerra que persistia não por ausência de provas do seu fim, mas porque nenhuma dessas provas correspondia ao único critério que reconhecia como legítimo – uma ordem direta do seu comandante.
O encontro que pôs fim à guerra
O fim da guerra de Onoda não chegou através de governos, exércitos ou transmissões oficiais; foi por acaso. Em 1974, um jovem japonês, Norio Suzuki, partiu para as Filipinas à procura de três coisas: “o tenente Onoda, um panda e o Abominável Homem das Neves”. Encontrou Onoda na selva de Lubang.

Hiroo Onoda (2.º à esquerda), em 11 de março de 1974, a sair da selva onde se tinha escondido desde a Segunda Guerra Mundial, na ilha de Lubang, nas Filipinas (Fotografia: JIJI PRESS / AFP).
Onoda manteve-se firme: só obedeceria a ordens diretas do seu comandante. O Japão localizou então Yoshimi Taniguchi, já civil e dono duma livraria, e levou-o à ilha. A 9 de março de 1974, Taniguchi deu finalmente a ordem formal de cessar combate.
No dia seguinte, Hiroo Onoda rendeu-se. Vestindo ainda o uniforme militar que preservara durante décadas, entregou a sua espada e a sua espingarda às autoridades filipinas, em 11 de março, numa cerimónia oficial em Manila, perante o então Presidente filipino, Ferdinand Marcos.
Apesar de ser suspeito de ter participado na morte de cerca de 30 civis durante os anos em que permaneceu escondido, Onoda foi imediatamente perdoado. O motivo desse perdão tornou-se central para a interpretação da sua história.
Ferdinand Marcos justificou a decisão com base num argumento essencial: Onoda acreditava genuinamente que a guerra ainda não tinha terminado, segundo relatos contemporâneos e análises posteriores.

Hiroo Onoda (à direita) entrega a sua espada militar ao antigo Presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos (à esquerda), em 11 de março de 1974, para manifestar a sua rendição no Palácio de Malacanan, em Manila (Fotografia: JIJI PRESS / AFP).
Nesse enquadramento, as ações do soldado foram tratadas não como crimes comuns, mas como atos cometidos sob a convicção de que continuava em serviço militar.
Outras leituras acrescentam uma dimensão política. Alguns observadores sugerem que o perdão também funcionou como um gesto diplomático, uma forma de reforçar as relações entre as Filipinas e o Japão no pós-guerra, num momento em que ambos os países procuravam consolidar laços económicos e estratégicos.
A decisão, no entanto, não foi consensual. Em Lubang, muitas famílias das vítimas reagiram com indignação, considerando que a justiça havia sido sacrificada em nome de razões políticas e simbólicas.
Depois da guerra: um homem deslocado no tempo
Quando Hiroo Onoda regressou ao Japão, encontrou um país profundamente transformado. A sociedade que o recebeu já não era a do tempo de guerra, mas sim uma nação moderna, urbana e economicamente dinâmica.

Hiroo Onoda (ao centro) acenando ao regressar a casa, em 12 de março de 1974, no Aeroporto Internacional de Tóquio (Fotografia: JIJI PRESS / AFP).
Nos primeiros tempos, tornou-se uma figura mediática. Publicou a sua autobiografia, concedeu entrevistas e participou em eventos públicos. No entanto, rapidamente se tornou evidente que a adaptação não seria simples. Em várias ocasiões, manifestou desconforto com o que via como uma sociedade materialista, distante dos valores de disciplina e dever que tinham orientado a sua vida.
Em 1975, decidiu afastar-se e mudou-se para o Brasil, onde se estabeleceu como agricultor numa comunidade japonesa no estado de São Paulo. Ali encontrou uma forma de vida mais próxima da sua experiência anterior: trabalho físico, contacto direto com a natureza e um quotidiano relativamente isolado. Casou-se pouco depois e construiu uma nova vida longe da exposição mediática.
Com o tempo, no entanto, voltou a aproximar-se do Japão. Em 1984, regressou com um novo objetivo e fundou a Onoda Shizen Juku (Escola de Natureza Onoda) em Fukushima, dedicada a ensinar jovens competências de sobrevivência e valores como disciplina, autonomia e resiliência.
Em 1996, regressou a Lubang, num gesto simbólico que incluiu uma doação a uma escola local. A visita foi recebida com sentimentos mistos: para alguns, representava reconciliação; para outros, reabria memórias de um período de violência prolongada.
Até ao fim da vida, Onoda manteve uma posição inalterada sobre o seu passado. Nunca considerou os anos passados na selva como um erro. Pelo contrário, descreveu-os como o cumprimento de uma missão; uma extensão lógica das ordens que recebera.
Hiroo Onoda morreu a 16 de janeiro de 2014, em Tóquio, aos 91 anos. A sua morte foi assinalada tanto no Japão como nas Filipinas, refletindo a complexidade do seu legado e as diferentes formas como a sua história continua a ser interpretada.