Início » Hiroo Onoda: O soldado japonês que continuou a Segunda Guerra Mundial durante 30 anos

Hiroo Onoda: O soldado japonês que continuou a Segunda Guerra Mundial durante 30 anos

Durante quase três décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, Hiroo Onoda permaneceu escondido na ilha filipina de Lubang, convencido de que o conflito ainda não tinha terminado. Treinado para nunca se render e só obedecer a ordens diretas, o oficial japonês ignorou provas da rendição do Japão e manteve operações na selva até 1974, tornando-se um dos casos mais extraordinários - e controversos - da história militar do século XX

Plataforma

Quando foi destacado para a ilha filipina de Lubang, em 1944, o subtenente Hiroo Onoda não estava sozinho: integrava uma pequena unidade do Exército Imperial Japonês, ao lado de soldados como Yuichi Akatsu, Kinshichi Kozuka e Shoichi Shimada.

A missão era clara: não se render, não morrer inutilmente e continuar a missão até receber instruções diretas. Décadas mais tarde, essa ordem revelar-se-ia mais duradoura do que a própria guerra.

A guerra que não terminou na selva

Quando as forças americanas ocuparam Lubang em 1945, a resistência japonesa colapsou rapidamente. Onoda e os seus homens retiraram-se para o interior montanhoso da ilha, onde reorganizaram a sua missão como uma operação de guerrilha. Convencidos de que a guerra continuava, passaram a viver da selva e do que conseguiam obter através de incursões.

Nos primeiros anos, mantiveram uma disciplina quase intacta. Construíram abrigos improvisados, deslocavam-se constantemente para evitar a captura e preservavam as armas. A sobrevivência dependia de frutos selvagens, mas também de ações deliberadas: roubo de arroz, abate de gado e vigilância constante de aldeias próximas.

Leia também: Contribuição da China foi uma parte importante na Segunda Guerra Mundial

Ao contrário da imagem de isolamento total, Onoda manteve uma atividade contínua. O subtenente e os seus companheiros realizaram emboscadas, trocaram tiros com patrulhas filipinas e conduziram ações de sabotagem, incluindo a destruição de colheitas. Para eles, tratava-se de guerra. Para os habitantes de Lubang, era uma violência persistente num tempo que já era de paz.

Trinta anos na selva: Entre sobrevivência e violência

Com o passar dos anos, o grupo começou a desintegrar-se. Em 1949, Yuichi Akatsu abandonou os companheiros e acabou por se render, um episódio que reforçou a desconfiança de Onoda em relação ao exterior. Em 1954, Shoichi Shimada morreu num confronto com forças filipinas. Durante quase duas décadas, Onoda e Kinshichi Kozuka continuaram juntos, mantendo a rotina de guerrilha, até que, em 1972, Kozuka foi morto durante uma operação de sabotagem agrícola.

A partir desse momento, Onoda ficou sozinho na selva, mas não abandonou a missão. Ao longo desses anos, a violência era constante.

Estima-se que cerca de 30 civis filipinos tenham sido mortos em ataques ou confrontos relacionados com as suas ações. Na sua autobiografia, “Sem Rendição” (No Surrender: My Thirty-Year War), Onoda apresenta esses episódios como operações militares legítimas; já relatos locais e investigações posteriores descrevem ataques a agricultores e habitantes desarmados, revelando um contraste profundo entre memória individual e experiência coletiva.

Hiroo Onoda, interpretado por Kanji Tsuda, no meio da selva filipina na ilha de Lubang, tal como reimaginado no filme “Onoda: 10.000 Noites na Selva” (Fotografia: Bathysphere Productions).

Um dos aspetos mais notáveis da sua história é o facto de nunca ter estado completamente isolado da realidade exterior. Desde 1945, foram repetidamente lançados panfletos que anunciavam o fim da guerra. Seguiram-se ordens oficiais, jornais, fotografias e até cartas enviadas pela sua própria família. Em 1952, essas mensagens tornaram-se diretas e pessoais, apelando à sua rendição. Ainda assim, Onoda rejeitou todas essas evidências.

Cada documento era analisado e descartado como propaganda inimiga. A sua formação como oficial de inteligência levava-o a desconfiar de qualquer informação que não pudesse ser confirmada por via militar direta. Mesmo quando ouviu transmissões de rádio que mostravam um Japão reconstruído e em paz, manteve a convicção de que se tratava de desinformação.

Assim, ao longo de quase três décadas, viveu numa realidade paralela: uma guerra que persistia não por ausência de provas do seu fim, mas porque nenhuma dessas provas correspondia ao único critério que reconhecia como legítimo – uma ordem direta do seu comandante.

O encontro que pôs fim à guerra

O fim da guerra de Onoda não chegou através de governos, exércitos ou transmissões oficiais; foi por acaso. Em 1974, um jovem japonês, Norio Suzuki, partiu para as Filipinas à procura de três coisas: “o tenente Onoda, um panda e o Abominável Homem das Neves”. Encontrou Onoda na selva de Lubang.

Hiroo Onoda (2.º à esquerda), em 11 de março de 1974, a sair da selva onde se tinha escondido desde a Segunda Guerra Mundial, na ilha de Lubang, nas Filipinas (Fotografia: JIJI PRESS / AFP).

Onoda manteve-se firme: só obedeceria a ordens diretas do seu comandante. O Japão localizou então Yoshimi Taniguchi, já civil e dono duma livraria, e levou-o à ilha. A 9 de março de 1974, Taniguchi deu finalmente a ordem formal de cessar combate.

No dia seguinte, Hiroo Onoda rendeu-se. Vestindo ainda o uniforme militar que preservara durante décadas, entregou a sua espada e a sua espingarda às autoridades filipinas, em 11 de março, numa cerimónia oficial em Manila, perante o então Presidente filipino, Ferdinand Marcos.

Apesar de ser suspeito de ter participado na morte de cerca de 30 civis durante os anos em que permaneceu escondido, Onoda foi imediatamente perdoado. O motivo desse perdão tornou-se central para a interpretação da sua história.

Ferdinand Marcos justificou a decisão com base num argumento essencial: Onoda acreditava genuinamente que a guerra ainda não tinha terminado, segundo relatos contemporâneos e análises posteriores.

Hiroo Onoda (à direita) entrega a sua espada militar ao antigo Presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos (à esquerda), em 11 de março de 1974, para manifestar a sua rendição no Palácio de Malacanan, em Manila (Fotografia: JIJI PRESS / AFP).

Nesse enquadramento, as ações do soldado foram tratadas não como crimes comuns, mas como atos cometidos sob a convicção de que continuava em serviço militar.

Outras leituras acrescentam uma dimensão política. Alguns observadores sugerem que o perdão também funcionou como um gesto diplomático, uma forma de reforçar as relações entre as Filipinas e o Japão no pós-guerra, num momento em que ambos os países procuravam consolidar laços económicos e estratégicos.

A decisão, no entanto, não foi consensual. Em Lubang, muitas famílias das vítimas reagiram com indignação, considerando que a justiça havia sido sacrificada em nome de razões políticas e simbólicas.

Depois da guerra: um homem deslocado no tempo

Quando Hiroo Onoda regressou ao Japão, encontrou um país profundamente transformado. A sociedade que o recebeu já não era a do tempo de guerra, mas sim uma nação moderna, urbana e economicamente dinâmica.

Hiroo Onoda (ao centro) acenando ao regressar a casa, em 12 de março de 1974, no Aeroporto Internacional de Tóquio (Fotografia: JIJI PRESS / AFP).

Nos primeiros tempos, tornou-se uma figura mediática. Publicou a sua autobiografia, concedeu entrevistas e participou em eventos públicos. No entanto, rapidamente se tornou evidente que a adaptação não seria simples. Em várias ocasiões, manifestou desconforto com o que via como uma sociedade materialista, distante dos valores de disciplina e dever que tinham orientado a sua vida.

Em 1975, decidiu afastar-se e mudou-se para o Brasil, onde se estabeleceu como agricultor numa comunidade japonesa no estado de São Paulo. Ali encontrou uma forma de vida mais próxima da sua experiência anterior: trabalho físico, contacto direto com a natureza e um quotidiano relativamente isolado. Casou-se pouco depois e construiu uma nova vida longe da exposição mediática.

Com o tempo, no entanto, voltou a aproximar-se do Japão. Em 1984, regressou com um novo objetivo e fundou a Onoda Shizen Juku (Escola de Natureza Onoda) em Fukushima, dedicada a ensinar jovens competências de sobrevivência e valores como disciplina, autonomia e resiliência.

Em 1996, regressou a Lubang, num gesto simbólico que incluiu uma doação a uma escola local. A visita foi recebida com sentimentos mistos: para alguns, representava reconciliação; para outros, reabria memórias de um período de violência prolongada.

Até ao fim da vida, Onoda manteve uma posição inalterada sobre o seu passado. Nunca considerou os anos passados na selva como um erro. Pelo contrário, descreveu-os como o cumprimento de uma missão; uma extensão lógica das ordens que recebera.

Hiroo Onoda morreu a 16 de janeiro de 2014, em Tóquio, aos 91 anos. A sua morte foi assinalada tanto no Japão como nas Filipinas, refletindo a complexidade do seu legado e as diferentes formas como a sua história continua a ser interpretada.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website