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20 mil milhões para reinventar economia

O Governo prevê criar ainda este ano um Fundo de Orientação Governamental com uma injeção inicial de 11 mil milhões de patacas, podendo atingir 20 mil milhões com capitais privados, para impulsionar a diversificação económica. Para o economista Henry Lei, a iniciativa “marca o início de uma nova abordagem proativa” que combina recursos públicos e mecanismos de mercado.

Fernando M. Ferreira

A iniciativa pretende orientar investimentos para indústrias emergentes, inovação científica e tecnológica, modernização industrial e projetos alinhados com a estratégia nacional e com o posicionamento de Macau como “Um Centro, Uma Plataforma e Uma Base”, além de apoiar a criação de emprego qualificado e a atração de talentos, ao mesmo tempo que reforça a integração regional com Hengqin e a Grande Baía.  

Para o economista Henry Lei, o fundo representa uma mudança na forma como o Governo procura estimular a diversificação económica: “O Fundo marca o início de uma nova abordagem proativa adoptada pelo Governo da RAEM, que recorre simultaneamente aos recursos fiscais e aos mecanismos de mercado para promover a diversificação económica”, diz ao PLATAFORMA.

Segundo o economista, o mecanismo difere do modelo tradicional de investimento público ao recorrer a gestores profissionais para selecionar projetos com potencial. “O Fundo difere do investimento público tradicional na medida em que convida empresas profissionais de gestão de ativos a selecionar projetos ou startups com forte potencial e risco controlável”.

Assim, espera-se que estas empresas realizam “investimentos conjuntos através de capital próprio, assumindo uma participação dominante (com o fundo-mãe do Fundo a deter cerca de 30% das ações). Isto ajuda, de certo modo, a assegurar que os projetos selecionados tenham potencial e uma probabilidade razoável de sucesso”, explica Lei.

Empurrão às PME locais

A chegada de empresas estrangeiras e da Grande Baía poderá transformar o ecossistema empresarial local, explica Henry Lei. “De momento, não é claro se o Fundo dará prioridade a empresas ou projetos locais, caso estes consigam cumprir os requisitos de contribuição para a diversificação económica”.

O Fundo [de Orientação Governamental] marca o início de uma nova abordagem proativa adoptada pelo Governo (…) para promover a diversificação económica – Henry Lei, economista

“O Fundo foi concebido para investir em Macau e, desde que consiga mobilizar capital privado para atrair empresas estrangeiras com forte potencial para estabelecer operações na região, poderá gerar contributos visíveis mesmo numa fase inicial – desde a procura de espaço de escritórios até à necessidade de mão-de-obra de apoio e outros serviços empresariais”, afirma o economista.

“Isto poderá criar efeitos de difusão que gerem novas oportunidades de negócio para as PME locais, formando um novo ambiente ou ecossistema empresarial que obrigue as PME a transformarem-se e a modernizarem-se para se adaptarem a esse novo contexto.”

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O fundo deverá financiar apenas parte do capital inicial dos projetos, normalmente entre 20% e 30%, o que pressupõe uma participação significativa de investidores privados. Apesar da estrutura económica local ser historicamente dependente do Turismo e do Jogo, Henry Lei acredita que o desenho do fundo permite atrair uma variedade mais ampla de investimentos.

“(…) O Fundo tem um âmbito bastante amplo, (…) abrangendo projetos ou empresas que [podem] reforçar o papel de Macau como ‘Centro-Plataforma-Base’ e a sua integração com a Grande Baía e Hengqin”.

“Talvez esta seja precisamente uma resposta ao histórico de dependência do Turismo, permitindo que projetos que não sejam exclusivamente tecnológicos também sejam considerados, garantindo assim que Macau mantenha uma atratividade suficiente para captar investimento”, explica Lei ao PLATAFORMA.

Quanto aos setores com maior potencial de crescimento, o economista aponta para uma combinação de inovação tecnológica e serviços associados à economia regional: “Tendo em conta o âmbito relativamente amplo do Fundo, especulo que possa atrair empresas e projetos nas áreas do turismo não relacionado com o Jogo, fintech, alta tecnologia e iniciativas com destaque na integração regional”.

Aproveitar as reservas financeiras

O lançamento do fundo surge num momento em que as reservas financeiras atingiram níveis recorde, reforçando a capacidade fiscal da cidade para investir em novas iniciativas económicas. Henry Lei sublinha a importância desse ‘colchão financeiro’ para enfrentar períodos de crise.

“Em linha com a recuperação contínua do setor do Jogo e o aumento das receitas brutas, juntamente com retornos de investimento altamente satisfatórios, a reserva financeira conseguiu ultrapassar o nível registado antes da COVID-19.”

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Para Henry Lei, a expansão dessas reservas reforça a capacidade de Macau para enfrentar riscos externos. “O aumento das reservas pode reforçar significativamente a resiliência fiscal, algo crucial para uma pequena economia aberta fortemente dependente do Turismo e do Jogo, num contexto de grande incerteza no atual ambiente geopolítico global”.

(…) Sou optimista quanto aos resultados do Fundo e acredito que Macau poderá reduzir significativamente a sua dependência das receitas do Jogo – Henry Lei, economista

O economista defende ainda que parte desses recursos poderia apoiar instrumentos de investimento de longo prazo semelhantes aos adoptados por outras economias. “Há sugestões que recomendam ao Governo da RAEM a criação de um fundo soberano para realizar investimentos de longo prazo e mais diversificados em todo o mundo.”

Na sua visão, uma estratégia desse tipo poderia contribuir para reduzir a dependência de Macau do sector do Jogo nas próximas décadas. “Face a esta questão, sou optimista quanto aos resultados do Fundo e acredito que Macau poderá reduzir significativamente a sua dependência das receitas do Jogo (ainda que o Turismo continue a ser um pilar da economia)”.

Se for dado tempo suficiente para que novas indústrias se consolidem, estas poderão tornar-se motores de crescimento alternativos. “Com o apoio das políticas do Governo Central, a injeção de recursos fiscais por parte da RAEM e esta nova abordagem para atrair projetos, empresas e startups com verdadeiro potencial, e dando tempo suficiente para que as indústrias emergentes se desenvolvam, estas poderão transformar-se em novos motores da economia e contribuir de forma relevante para a diversificação económica”.

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