“As pessoas aderem muito sempre que há performances”, explica Ricardo Pinto, fundador e diretor do Festival: “A ideia é ser essencialmente um festival literário, mas ter outras formas de levar a literatura a públicos mais vastos, nomeadamente através da música, cinema e teatro”.
Num mundo em ebulição, em Macau ou qualquer parte do mundo, é hoje especialmente relevante juntar artistas e autores de tantos países e culturas diferentes. “Ilustra a ideia de que não tem de ser assim; as pessoas não têm que estar em permanente conflito; há muitas coisas que nos aproximam e muito mais valiosas do que aquilo que está em causa em grande parte destes conflitos”, comenta Ricardo Pinto
– O programa deste ano é muito ambicioso, incluindo estrelas portuguesas da música e do teatro. A que se deve esta aposta?
Ricardo Pinto – De facto, é ambicioso trazer numa mesma edição espetáculos com a dimensão do concerto do Rodrigo Leão e da peça de teatro que proporciona o regresso a Macau de Margarida Vila-Nova. É inédito no Festival; e, do ponto de vista da produção, um bocadinho mais exigente. Mas estes 15 anos de Festival têm-me dito que as pessoas aderem muito sempre que há performances; sejam elas de música ou teatro. Também por isso decidimos este ano ter no Centro Cultural de Macau estes dois momentos muito importantes no contexto do evento: Rodrigo Leão, dia 11; e a peça “À Primeira Vista”, dias 14 e 15.
– O lado performativo foi desde o início uma insistência, mesmo quando havia dúvidas sobre o seu peso financeiro. Agora que a experiência confirma haver público para isso, o Rota das Letras assume-se como um festival muito mais do que literário?
R.P. – Será sempre um festival literário; e, obviamente, todas as performances que trazemos têm sempre forte ligação à literatura. Ou porque se trata de autores e poetas portugueses; ou porque os temas originais têm compositores marcantes. Esta peça de teatro, por exemplo, é um excelente texto da dramaturga australiana Suzy Miller, que tem andado a ser representado um pouco por todo o mundo. Já vai em mais de 30 línguas; chegou a Portugal… e agora também a Macau. Será muito difícil um dia haver um concerto de música pop no âmbito do Festival.

Margarida Vila-Nova volta a Macau com a peça “À Primeira Vista”
– É essa também a lógica para a escolha cinematográfica?
R.P. – Trazemos este ano uma autora suíça, de origem coreana – Elisa Choa Dusapin – que escreveu “Inverno em Seokchon”, que é uma estância balnearia coreana. O romance foi adaptado ao cinema por um realizador coreano; por isso vamos ter cá a autora e mostrar o filme. A ideia é um pouco essa; ser essencialmente um festival literário, mas ter muitas outras formas de levar a literatura a públicos mais vastos, nomeadamente através da música, cinema e teatro.
– Na literatura pura e dura… homenagem a Camilo Pessanha; escolha mais ou menos óbvia, dado o centenário da sua morte…
R.P. – Sim, abrimos o Festival, antes mesmo da cerimónia inaugural, com uma sessão sobre o centenário da morte de Camilo Pessanha. E, no primeiro fim de semana, vamos ter passeios pela cidade; seguir os passos de Pessanha em Macau. Basicamente esgota-se aí a referência; embora tenhamos agendadas duas sessões de poesia; onde, seguramente, alguns poemas de Pessanha serão ditos.
Camilo Pessanha é uma figura sempre muito acarinhada e presente nas manifestações culturais de Macau; ainda esta semana houve uma sessão organizada pelo IPOR e, ao longo do ano, haverá outros momentos em que será certamente lembrado. Era importante assinalar o centenário, mas não podíamos reduzir a isso o Festival.
Os diplomatas europeus, nomeadamente da francofonia, estão muito interessados em fazer cá chegar os seus autores
– Que critérios conduzem às escolhas do Festival?
R.P. – Há aquilo a que podemos chamar as escolhas do Festival; mas também há um conjunto de novas oportunidades. Já tínhamos de alguma forma avançado no ano passado; contudo, este ano é mais óbvia a colaboração com o Festival Literário de Hong Kong. Vamos ter cá o escritor argentino-americano Hernán Diaz, prémio Pulitzer em 2023, aproveitando ele ter vindo a Hong Kong. Mesmo critério de oportunidade que nos permite cá ter o ilustrador canadiano Gui Delisle, ou a escritora Dusapin.
– Nova conexão, mais anglo-saxónico e francófono…
R.P. – Os diplomatas europeus, nomeadamente da francofonia, estão muito interessados em fazer cá chegar os seus autores. Portanto, há agora esse espaço para autores que estavam em outras manifestações culturais aqui na região, tais como o Festival Francófono e o Festival Literário de Hong Kong.

Rodrigo Leão é uma das estrelas desta edição do Rota das Letras
– A identidade do Rota das Letras, essa, define-se pelas suas escolhas? Podemos falar das escolhas do Festival?
R.P. – Claro! O Amitav Ghosh, por exemplo, é um nome muito grande da literatura mundial que já antes tínhamos tentado trazer. Sempre mostrou grande interesse em vir, mas tinha sempre compromissos que o impediam. Desta vez falámos com ele bastante cedo; ficou muito contente com a ideia e vamos cá tê-lo. É o autor de uma trilogia de romances que se centram na época da Guerra do Ópio; para nós um objetivo antigo que conseguimos alcançar.
É também especial Ghosh poder falar na Casa Garden, onde esteve sediada a Companhia Britânica das Índias Orientais, que teve uma relação muito direta à Guerra do Ópio e às tensões que se viveram em meados do século XIX aqui na região.
– Ghosh é também famoso pela sua causa ambiental. Também vai falar sobre isso?
R.P. – É de facto um escritor com enorme preocupação pelas questões do ambiente; tem vários romances e ensaios nos quais a crise planetária – ambiente e alterações climáticas – está muito presente. Vamos ter duas sessões com ele: uma focada na Guerra do Ópio; outra nas alterações climáticas.
– O Festival também marca o Dia Internacional da Mulher…
R.P. – A moderação de Ghosh será feita por Tanja Wessels, ela própria ativista ambiental e autora de um documentário sobre as mulheres e o mar que vamos mostrar precisamente no Dia Internacional da Mulher: 8 de março. Nesse mesmo dia vamos mostrar outro documentário muito interessante sobre o Nüshu, escrita secreta inventada pelas mulheres na China para fugirem à opressão masculina.
Vamos cá ter uma funcionária do Museu do Nushú, na província de Jú (Hainan) que entre outras coisas vai dar um workshop sobre como escrever estes caracteres. O Nüshu esteve à beira da extinção; a última pessoa que sabia falar e escrever esta língua tão singular morreu em 2004 ou 2005; e, desde então, tem havido um grande esforço para se recuperar esses textos que hoje estão no Museu.
Quando parece que não se consegue conter esta vertigem para os conflitos bélicos; eventos como este, um pouco por todo o mundo, não têm nada a ver com isso; mostram outra maneira de viver; ilustram um bocadinho a ideia de que não tem de ser assim

Amitav Ghosh dá duas conferências sobre temas que o celebrizaram: uma sobre a Guerra do Ópio; outra sobre Alterações Climáticas e crise ambiental
– A Casa Garden vai-se cimentando como sede do Festival?
R.P. – No ano passado a Casa Garden estava em obras, por isso estivemos em outro local muito interessante, com enorme potencial para este tipo de eventos: o antigo Matadouro, no Porto Interior. Mas, de facto, a Casa Garden tem tudo: permite-nos exposições de arte, como as que vamos fazer com fotografias do Alfredo Cunha e do Liu Zheng; ou a obra do arquiteto José Maneiras.
Depois, tem salas onde se pode fazer mais do que uma sessão em simultâneo; tem um auditório; um jardim… Vamos nesse espaço exterior ter uma banda a tocar na inauguração (domingo 8) e, no dia seguinte, um poeta e músico chinês de Xangai vai lá atuar ao vivo. É um espaço muito especial.
– Neste mundo onde proliferam as guerras; estando hoje Macau em profunda e acelerada mutação, tem sabor e significado especial fazer este Festival?
R.P. – Sim… estes encontros entre autores de variedíssimos países e diferentes culturas são a manifestação clara de que muito mais coisas nos aproximam do que nos separam. Estamos numa fase muito complicada da nossa História, enquanto humanidade; quando se espera que uma guerra termine, afinal outra se acende; estamos a correr muitos riscos, a ignorar o que se passa com o Planeta, com o clima; e a exacerbar as diferenças culturais e políticas.
Quando parece que não se consegue conter esta vertigem para os conflitos bélicos; eventos como este, um pouco por todo o mundo, não têm nada a ver com isso; mostram outra maneira de viver; ilustram um bocadinho a ideia de que não tem de ser assim; as pessoas não têm que estar em permanente conflito; há muitas outras coisas que nos aproximam, muito mais valiosas do que aquilo que está em causa em grande parte destes conflitos.
Dou este exemplo: vamos ter aqui o Miguel Carvalho e o João Miguel Tavares, jornalistas que são de espaços político-ideológicos mesmo muito distintos; e acho que o facto de virem apresentar os seus livros e depois terem um debate; eventualmente irem às escolas e falarem com os estudantes… é um bom sinal de que as pessoas podem ter opiniões diferentes e isso não as impede de terem um relacionamento civilizado e pacífico.