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Dique em Coloane tapa a China e o pôr-do-sol

As obras do paredão concebido para proteger a marginal de Coloane contra inundações avançam a bom ritmo; contudo, as Obras Públicas não esclarecem a altura, o impacto real, e a eficácia a longo prazo. Consequências paisagísticas e ambientais parecem evidentes. Sabe-se apenas que, se seguir o plano original, o muro pode chegar a 3,85m de altura

Fernando M. Ferreira e Ng Chan Tou

A Direcção dos Serviços de Obras Públicas (DSOP), em resposta escrita a seis perguntas feitas pelo PLATAFORMA, apenas explicou que que se trata de uma das “obras prioritárias no âmbito da prevenção e mitigação de desastres”, concebida para responder a um cenário de maré extrema com um período de retorno de 200 anos, conforme previsto no Plano Decenal de Prevenção e Redução de Desastres da RAEM (2019–2028). O projeto é “executado por fases” e a intervenção, “atualmente em curso, corresponde à construção do dique”. A DSOP indica ainda que os trabalhos decorrem conforme o planeado, com conclusão prevista para o “segundo semestre de 2027”. Em paralelo, estão já a ser desenvolvidos projetos para “sistemas de drenagem da zona costeira”. As “infraestruturas complementares no topo do dique”, servem como percursos paisagísticos, trilhos pedonais e zonas verdes. A DSOP diz ainda que mais informações serão anunciadas “em tempo oportuno”.As obras foram adjudicadas à Nam Kwong União Comercial e Industrial por 566 milhões de patacas.

Lógica de prevenção

O arquiteto Nuno Soares considera que o enquadramento técnico do projeto responde a uma vulnerabilidade estrutural incontornável: “O Delta do Rio das Pérolas, onde Macau se situa, é uma zona muito exposta e vulnerável a cheias e ao aumento do nível do mar. Todos os anos temos cheias e, em situações extremas, estas são muito severas, como durante o tufão Hato em 2017”. Concorda por isso que a prevenção de cheias é “uma questão de segurança pública prioritária”; pois, perante a incerteza climática, “há que ser rigoroso e jogar pelo seguro”. Alinha também no critério de planeamento para um período de retorno de 200 anos.

Esta necessidade de proteção é reconhecida também por alguns residentes. Contudo, Chio, morador em Coloane, teme que o impacto imediato das obras “não seja grande”, embora admita que, no futuro, “em situações com tufões ou marés altas possa haver alguma proteção”. Ainda assim, questiona a dimensão da intervenção e a ausência de soluções complementares: “Se é para fazer uma obra tão grande, porque não construir também uma estrada principal para resolver os problemas de trânsito e acessos?”

A linha de costa, que até aqui chegava à marginal, vai passar para o topo do dique, que se vai tornar o novo local de interface entre a terra e mar, onde os barcos vão passar, onde se vai poder ver a outra margem

Nuno Soares, arquiteto

Muro no horizonte

Se a lógica de segurança reúne algum consenso, o mesmo não acontece quanto à transformação da frente marítima. Do ponto de vista do desenho urbano, Nuno Soares sublinha que o projeto representa “um desafio de engenharia e de desenho urbano”, que exige conciliar a proteção contra cheias com o tecido urbano existente e “uma ligação à água que se pretende próxima e qualificada”.

Segundo o arquiteto, a solução adotada passa pela criação de um espelho de água em frente à Vila de Coloane e aos estaleiros de Lai Chi Vun, delimitado por um corredor paisagístico visitável que funciona como muro de proteção. Contudo, essa opção implica uma alteração profunda da relação funcional com o mar. “Trata-se de um projeto de ‘musealização’ da paisagem costeira”, afirma ao PLATAFORMA, explicando que, embora se mantenha a aparência visual da frente marítima: “A linha de costa, que até aqui chegava à marginal, vai passar para o topo do dique, que se vai tornar o novo local de interface entre a terra e mar, onde os barcos vão passar, onde se vai poder ver a outra margem”.

Essa mudança é já sentida no terreno e gera desconforto. Um comerciante da zona lamenta a perda da paisagem, que atraía visitantes: “Muitas pessoas vinham aqui propositadamente para ver o pôr-do-sol, porque era bastante bonito. Agora há apenas um monte de terra amarela”, diz ao PLATAFORMA. Mesmo admitindo que “o resultado final possa ser visualmente mais cuidado”, considera que a experiência será irreversivelmente “diferente”.

Impacto e eficácia

As reservas não se limitam ao impacto visual. Ng, também comerciante local, critica a descaracterização da paisagem natural: “Ao longo de todos estes anos, aquela era uma paisagem natural. Agora, com um dique e um lago artificial, causa uma grande destruição da paisagem”. Critica ainda a falta de informação técnica disponibilizada à população, nomeadamente sobre os sistemas de descarga, drenagem e filtragem da água. “Muitas decisões implicam compromissos; tudo depende do que se pretende. Se o objetivo for a prevenção de cheias, então esta é, sem dúvida, a opção definitiva. Por outro lado, acabou por sacrificar a paisagem natural” diz.

Muitas decisões implicam compromissos; tudo depende do que se pretende. Se o objetivo for a prevenção de cheias, então esta é, sem dúvida, a opção definitiva. Por outro lado, acabou por sacrificar a paisagem natural

Ng, comerciante local

Outros residentes revelam sentimentos contraditórios. Wong considera que “fazer alguma coisa é melhor do que não fazer nada”; contudo, questiona a eficácia do dique em cenários extremos: “Quando há um tufão, o nível da água é mais alto e entra tudo na mesma”. Ainda assim, admite que o espelho de água possa vir a ter algum aproveitamento turístico.

Esta solução “é tecnicamente viável”, na opinião de Nuno Soares; mas “para ser urbanamente sólida e adequada, é importante dar resposta às necessidades de relação funcional com a água da população local”. Caso contrário, alerta, existe o perigo de a Vila de Coloane “não se tornar apenas num museu a céu aberto”, perdendo o seu carácter de “vila fluvial”

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