A investigação é apresentada no livro Embedded Generations: Family Life and Social Change in Contemporary China, da socióloga Liu Jieyu, professora na School of Oriental and African Studies (SOAS), da Universidade de Londres. A obra, publicada pela Princeton University Press, baseia-se em três anos de trabalho de campo em zonas urbanas e rurais da China.
Apesar de a geração nascida nas décadas de 1980 e 1990 revelar maior abertura ao sexo antes do casamento – com 60% das mulheres e 80% dos homens a admitirem relações pré-maritais -, a expectativa de casar com uma mulher virgem permanece generalizada, tanto entre os homens como nas gerações mais velhas.
“O conflito entre estas exigências contraditórias gera grande ansiedade nas mulheres”, disse Liu, citada pelo South China Morning Post. “A virgindade é usada como instrumento de controlo, ao mesmo tempo que as mulheres sentem que devem ceder durante o namoro para provar o seu amor”, observou Liu.
Em muitos casos, os homens pressionam as namoradas para ter relações sexuais, mas desejam que as futuras esposas cheguem ao casamento sem experiências anteriores. Liu designou este fenómeno como uma “batalha da virgindade”, comum sobretudo entre mulheres da geração do filho único.
O estudo baseou-se em entrevistas com membros de 43 famílias urbanas e 37 famílias rurais, em províncias como Shandong, Fujian e Hunan, e cidades como Tianjin, Cantão e Xian. As entrevistas abrangeram três gerações: nascidos entre as décadas de 1930 e 1950, entre 1950 e 1970, e entre 1980 e 2000.
Segundo Liu, o sexo pré-marital tende a ocorrer com o objetivo de casar. A maioria dos inquiridos acabou por casar com a primeira pessoa com quem teve relações. A média de parceiros sexuais continua baixa: entre zero e um no caso das mulheres mais jovens, e até dois no caso dos homens.
A investigadora destaca também um aumento acentuado das relações extraconjugais. Dados citados na obra indicam que, entre 2006 e 2020, a taxa de infidelidade entre homens casados passou de 16.5% para 35%, enquanto no caso das mulheres aumentou de 4.5% para 23%.
Embora poucos admitam infidelidade, 70% dos homens da geração mais jovem disseram estar abertos à ideia. Entre as mulheres, as respostas foram mais variadas: algumas rejeitaram, outras admitiram separar “vida” de “casamento”.
Liu apontou fatores como o declínio da vigilância estatal sobre a vida privada, a influência de valores ocidentais, a migração e a popularização da cultura do amor e da intimidade na televisão e redes sociais como causas para estas mudanças.
Outro fator apontado é a pressão para casar até aos 30 anos, apesar da restrição à vida romântica durante a juventude. “Muitos casam sem estarem apaixonados, o que pode contribuir para o aumento de casos extraconjugais”, observou.
O número de divórcios também aumentou, sobretudo entre mulheres jovens. Contudo, com o passar da idade, a relutância em pedir o divórcio cresce, sobretudo por receios quanto à dificuldade de encontrar novo parceiro.
A satisfação sexual no casamento está menos ligada à geração e mais à fase da vida do casal, conclui Liu. Casais que reportaram maior felicidade íntima são aqueles com relações duradouras, baseadas em “conhecimento mútuo profundo e interdependência”.