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Jogos Nacionais como “ensaio” para “Jogos Olímpicos”

A 15.ª edição dos Jogos Nacionais da China foi, pela primeira vez, organizada em conjunto por Guangdong, Hong Kong e Macau. Manuel Silvério, antigo presidente do Instituto do Desporto, considera esta cooperação um “grande ensaio” para a coordenação desportiva na Grande Baía. Para o analista político Sonny Lo, o impacto vai além da vertente desportiva: o evento fortalece o “sentimento de pertença” ao país e à região, ao mesmo tempo que oferece uma janela para consolidar e tornar mais estáveis os mecanismos de governação desportiva

Viviana Chan

A 15.ª edição dos Jogos Nacionais, organizada entre 9 e 21 de novembro por Guangdong, Hong Kong e Macau, assinala a primeira vez que três regiões distintas assumem em conjunto a realização do evento. Até ao momento, a delegação de Macau conquistou 3 medalhas de ouro e 2 de bronze no karaté, além de ter batido recordes em modalidades como atletismo e natação, alcançando resultados históricos.

O antigo presidente do Instituto do Desporto, Manuel Silvério, afirma que o funcionamento conjunto do evento decorreu de forma fluida e obteve respostas positivas em vários níveis, demonstrando que as três regiões têm capacidade para acolher competições de maior dimensão. “Foi um grande ensaio. E este ensaio está a sair muito bem. Quer em termos desportivos, políticos, económicos, turísticos, em todos, tem sido um sucesso”, diz ao PLATAFORMA.

Para Silvério, a consolidação de infraestruturas, a capacidade hoteleira e os transportes colocam Guangdong, Hong Kong e Macau em posição favorável para, no futuro, ambicionar a organização de eventos como os Jogos Asiáticos ou “até os Jogos Olímpicos”.

Recordando que os Jogos Nacionais são o maior evento multidesportivo da China, Silvério destaca que a sua relevância não se limita ao desporto de alto rendimento, funcionando igualmente como “plataforma para demonstrar a capacidade organizativa do país e aprofundar a integração regional”. A coorganização entre Guangdong, Hong Kong e Macau, explica, tem um significado profundo para a cooperação desportiva na Grande Baía e serve como “ensaio” para futuras candidaturas internacionais.

Foi um grande ensaio. E este ensaio está a sair muito bem. Quer em termos desportivos, políticos, económicos, turísticos, em todos, tem sido um sucesso

Manuel Silvério, antigo presidente do Instituto do Desporto

Para o analista político Sonny Lo, os Jogos Nacionais “desempenham uma forte função identitária”, cruzando três níveis: local, provincial e nacional. Para os atletas de Hong Kong e Macau, competir lado a lado com os melhores desportistas do país reforça não só o “sentimento de identidade da cidade, como também o sentimento de pertença ao espaço regional e à comunidade da Grande Baía”, através da cooperação estreita com a província de Guangdong.

Ao mesmo tempo, a possibilidade de assistir de perto ao desempenho dos atletas chineses contribui para aprofundar o reconhecimento nacional e a compreensão do desenvolvimento desportivo da China.

Segundo o ex-dirigente do Instituto do Desporto, o modelo de funcionamento dos Jogos – semelhante ao formato olímpico – permite testar instalações, metodologias e talento, refletindo a estrutura do sistema desportivo chinês. “Os Jogos Nacionais não são apenas um palco para o alto rendimento, mas também um instrumento para fortalecer a capacidade de organização e promover a colaboração regional, sobretudo no contexto da Grande Baía”, afirma.

Sobre a participação dos atletas de Macau, esta edição oferece uma oportunidade rara aos competidores locais, permitindo-lhes medir forças com atletas olímpicos e de nível internacional de todo o país, alargar os horizontes e contribuir para elevar o nível competitivo de Macau. Silvério recorda que, no passado, existiam críticas sobre a falta de apoio aos atletas, mas sublinha que, nos últimos anos, novas infraestruturas de treino demonstram que o Governo está a construir gradualmente um sistema de formação mais completo. “Com instalações mais adequadas e o impulso trazido pelos grandes eventos desportivos, acredito que o ecossistema desportivo local terá um desenvolvimento mais integrado”.

Sobre o percurso desportivo de Macau, apenas nos anos 80 a cidade começou a participar autonomamente em organizações desportivas internacionais e regionais, tendo na década de 90 marcado presença nos Jogos Asiáticos pela primeira vez. Após a transferência de soberania, Macau entrou numa fase de crescimento acelerado ao nível das infraestruturas desportivas, realizando entre 2005 e 2007 três grandes eventos multidisciplinares: os Jogos da Ásia Oriental, a primeira edição dos Jogos da Lusofonia e os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto. Estes eventos trouxeram a Macau delegações de diversas regiões da Ásia, permitindo acumular experiência valiosa em competições de grande escala.

O recente anúncio do Governo sobre o projeto da Zona Internacional de Turismo e Cultura Integrados, que aponta para um futuro onde cultura, turismo e desporto caminham de forma integrada, complementará a cooperação na Grande Baía e estabelecerá uma base sólida para atrair competições internacionais. “Isto não é apenas um projeto desportivo, mas um ecossistema transversal capaz de atrair mais eventos de classe mundial para Macau e para a região” , explica Silvério.

Sentimento de comunidade  na Grande Baía

Sonny Lo considera que a coorganização dos Jogos Nacionais pelas três regiões tem um profundo significado histórico e simbólico, já que é a primeira vez, desde a transferência de soberania, que Hong Kong e Macau participam na preparação de um grande evento desportivo nacional através de uma “força conjunta da Grande Baía”. A divisão de tarefas entre as três regiões permitiu contornar limitações de infraestruturas, alojamento e capacidade urbana, tornando possível a participação de Macau e evidenciando o efeito integrador do conjunto de cidades da Grande Baía na área do desporto.

Lo acrescenta ainda que o evento pode acelerar o aperfeiçoamento das políticas desportivas em Hong Kong e Macau. Embora as duas regiões tenham evoluído desde a transferência, o ritmo tem sido lento e as estruturas políticas continuam muito atrás do que se verifica no interior do país.

Os Jogos Nacionais desempenham uma forte função identitária, cruzando três níveis: local, provincial e nacional. (…) Competir lado a lado com os melhores desportistas do país reforça não só o sentimento de identidade da cidade, como também o sentimento de pertença à comunidade da Grande Baía

Sonny Lo, analista político

Esta edição dos Jogos serve de impulso para que sejam apresentadas, no âmbito legislativo, políticas desportivas mais concretas – como o reforço dos recursos destinados às associações desportivas, o apoio a modalidades de alto rendimento e a promoção mais ativa da prática desportiva. “Hong Kong e Macau precisam aprender com o modelo de gestão desportiva institucionalizado do país. Esse é um caminho inevitável para o desenvolvimento local do desporto”, explica Lo.

A colaboração bem-sucedida entre as três regiões na organização dos Jogos Nacionais estabelece também uma base sólida para futuras candidaturas conjuntas a eventos internacionais de maior dimensão. Hong Kong já acolheu provas equestres dos Jogos Olímpicos e Macau foi anfitriã dos Jogos da Ásia Oriental e dos Jogos da Lusofonia. Com a experiência adquirida nesta edição por meio de uma operação integrada, a região da Grande Baía poderá, no futuro, ponderar candidaturas conjuntas aos Jogos Asiáticos, a algumas modalidades dos Jogos Olímpicos ou a outros eventos desportivos de grande escala. Esta cooperação tem um impacto positivo tanto na diplomacia desportiva sob o quadro “Um País, Dois Sistemas” como na participação internacional das duas regiões.

Lo diz ainda que, durante a competição, muitos residentes do interior da China aproveitaram o evento para visitar Hong Kong e Macau, criando novos espaços de intercâmbio. O Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, aproveitou a cerimónia de abertura para incentivar turistas do interior a visitarem a cidade, enquanto Macau procurou, em vários momentos, reforçar a sua imagem, criando condições favoráveis para atrair mais visitantes.

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