No domingo (14) a população de Macau votou para eleger 14 deputados para a Assembleia Legislativa, enquanto que um colégio eleitoral de setores de atividade escolheu outros 12.
No sufrágio direto, a lista Nova Esperança, liderada por José Pereira Coutinho, foi a grande vencedora, garantindo três mandatos e conquistando 43,367 votos – o número mais alto de sempre numa lista candidata em Macau. Também a Associação dos Cidadãos Unidos de Macau elegeu três deputados, mas com um número de votos bastante inferior (29,464 votos). As restantes cinco listas elegeram dois deputados cada: União Promotora para o Progresso, União de Macau-Guangdong, União para o Desenvolvimento e Aliança de Bom Lar. De acordo com o analista político Sonny Lo, estes resultados demonstram que a “participação política em Macau continua a ser ideológica e socialmente dividida, com os eleitores pró-governo a votarem com bastante entusiasmo, mas também com os eleitores mais pró-liberais a revelarem diferentes tendências — alguns apáticos, outros a votar, outros a manifestar descontentamento oculto”.
Em suma, a sociedade de Macau mantém-se “politicamente harmoniosa, mas com alguns sinais interessantes de pluralismo político”, explica ao PLATAFORMA.
Em termos percentuais, a Nova Esperança alcançou 26.7% do total, quase duplicando os 13.8% obtidos em 2021. Já a Associação dos Cidadãos Unidos de Macau desceu de 20.14% para 18.16%; a União para o Desenvolvimento passou de 18% para 16.9%; a União Promotora para o Progresso subiu de 11.4% para 13.4%; a União de Macau-Guangdong de 12.7% para 13.23%; e a Aliança de Bom Lar de 10.8% para 11.6%.
O ato eleitoral mobilizou cerca de 175.300 eleitores, numa taxa de participação de 53.4% – a quinta mais alta desde 2001 e 11 pontos percentuais acima do recorde negativo de 2021 (42.4%).

Descontentamento oculto
Os votos brancos e nulos ultrapassaram os 13.000 (cerca de 7.4% do total), mais do que o dobro dos 5.200 registados em 2021 (cerca de 3.2%). O presidente da comissão eleitoral, Seng Ioi Man, recusou comentar uma eventual ligação a desqualificações de listas e considerou haver múltiplos fatores envolvidos. Para Sonny Lo, contudo, o número inédito de votos inválidos constitui um “sinal de descontentamento latente, dado que o número de votos em branco e nulos parece ter sido sem precedentes”.
Já Lou Shenghua, professor de Ciências Sociais da Universidade Politécnica de Macau, considera que esta tendência “reflete, até certo ponto, a perceção de uma minoria de que nenhum dos candidatos respondia às suas necessidades”.
Eleições de “qualidade”
Os resultados foram saudados tanto pelo Gabinete de Ligação do Governo Central em Macau, como pelo Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado, que os consideraram um êxito e um marco importante na consolidação do princípio “Macau governada por patriotas”. Na perspetiva de Lou Shenghua, este princípio permite “eliminar riscos para a segurança nacional e impede a entrada de indivíduos não patriotas ou pseudo-patriotas no Governo da RAEM”. Daí que, na sua opinião, todos os deputados eleitos nesta eleição possam ser considerados patriotas.
O porta-voz do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado destacou ainda o ambiente democrático “saudável, dinâmico e de elevada qualidade”, sublinhando a participação social ampla e o entusiasmo dos eleitores, que garantiram um número recorde de votantes. Referiu igualmente o perfil diversificado dos 26 deputados eleitos, entre os quais se incluem jovens talentos e representantes de diferentes setores da sociedade.
“Novo estilo de governação” promove mobilização sem precedentes
O Governo intensificou os apelos ao voto nas semanas que antecederam as eleições legislativas para contrariar a elevada abstenção registada em 2021. Após uma carta enviada pelo Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, a todos os funcionários públicos – lembrando que o sufrágio é “um direito e um dever cívico” e uma prova de fidelidade à RAEM – os trabalhadores da Administração foram instados a votar pelos seus superiores. Em alguns casos, foi-lhes pedido que confirmassem por telefone ou mensagem a ida às urnas, sob pena de receberem “avisos amigáveis” ateé ao fecho das mesmas. Também concessionárias e associações apelaram à mobilização dos seus membros. Para Lou Shenghua, esta mobilização não deve ser lida apenas como pressão, mas como uma “expectativa profissional da sociedade relativamente aos funcionários públicos” e um requisito para o cumprimento das suas responsabilidades cívicas. Na sua visão, “reflete o novo estilo de governação da RAEM”, marcada por maior sentido de responsabilidade e capacidade executiva.