Hong Kong está de parabéns. Em apenas dois anos, subiu 12 lugares no ranking mundial de talentos do International Institute for Management Development, conquistando a 4.ª posição global e a liderança asiática. Não é apenas uma estatística; é um sinal claro de resiliência e de visão estratégica.
O Ocidente havia anunciado a queda inevitável de Hong Kong, depois dos tumultos sociais de 2019 e da imposição de novos mecanismos políticos sob a égide do Governo Central. O isolamento pandémico, prolongado até ao final de 2022, parecia confirmar esse destino. Acontece que a cidade se conseguiu reposicionar num patamar inédito, atrás apenas de três países europeus (ler página 15). O seu programa de atração de talentos , lançado em 2022 para estancar a fuga de cérebros, demonstra resultados tangíveis – e mais de metade dos que chegaram querem ficar. O próprio secretário para o Trabalho e Bem-Estar comparou este desempenho ao programa britânico, onde apenas 40% prolongam a sua estadia.
Macau? A comparação é difícil, quase impossível, porque a cidade nem sequer figura no ranking que avalia 69 economias. Existe um programa de captação de quadros qualificados, criado um ano mais tarde que o de Hong Kong, mas envolto em opacidade e indefinições. A primeira fase recebeu 1.107 candidaturas válidas, das quais 387 foram aprovadas. A segunda fase aumentou os números — 2.079 candidaturas, com 575 incluídas nas listas de captação. E a terceira? Adiada, sem data anunciada. No seu conjunto, 962 candidaturas aprovadas, divididas entre profissionais de elevada qualidade, altamente qualificados e os de nível avançado.
A sensação que fica é que Macau continua presa à pergunta errada. O debate parece concentrar-se em discutir se o programa de atração de talentos deve ou não existir – como se fosse um capricho dispensável – em vez de procurar compreender por que razão importa
Ora, quantos dos selecionados estão, de facto, a trabalhar em Macau? Quantos permanecem na cidade dois anos depois? A Comissão de Desenvolvimento de Quadros Qualificados, responsável pelo programa, não responde. Sabemos apenas que a lei só exige uma promessa de contratação local aos profissionais de nível avançado, que correspondem a 713 aprovações. Então, onde andam os restantes 249? Que contributo real estão a dar para a economia local?
Como a autorização de residência é de cinco anos para quadros de elevada qualidade e de três anos para os restantes, no pior dos cenários, a inércia vai ditar uma análise de retenção dos talentos admitidos na primeira fase só em 2026 e 2028, quando houver necessidade de prorrogar autorizações de residência. É um calendário tardio, que abdica da capacidade de ajustar em tempo útil uma das políticas mais cruciais para a sustentabilidade de Macau. E mesmo nesse cenário, continuaremos sem conseguir perceber qual é o impacto destes talentos para a economia local.
É preciso dizer: tanto Hong Kong como Macau passaram por situações semelhantes entre 2019 e 2023. Ambas sofreram com a pandemia e passaram por reestruturações sociais e políticas. Mas Hong Kong enfrentou convulsões domésticas e internacionais muito mais profundas, e ainda assim soube responder com medidas concretas e quantificáveis; Macau viveu num contexto mais favorável, onde as alterações políticas foram mais fáceis de introduzir e a sua economia fundamenta-se no turismo do Continente – alheio a essas convulsões.
A sensação que fica é que Macau continua presa à pergunta errada. O debate parece concentrar-se em discutir se o programa de atração de talentos deve ou não existir – como se fosse um capricho dispensável – em vez de procurar compreender por que razão importa. Multiplicam-se as vozes que pedem restrições adicionais, como se o problema fosse o excesso de quadros qualificados estrangeiros, e não a falta deles. Outros desvalorizam o regime por inteiro, sob o argumento de que, numa sociedade de emprego pleno, o que importa é assegurar postos de trabalho para residentes locais.
Este raciocínio ignora o fundamental: o talento não substitui, complementa. Não se trata de competir com os trabalhadores locais, mas de criar condições para que surjam novas indústrias, novos setores e novas oportunidades. É essa a diferença entre uma economia que se limita a distribuir o presente e uma economia que prepara o futuro.
O calendário de execução da economia diversificada não é apenas administrativo; por alguma razão coincide com o fim das concessões de Jogo. É essa a janela de oportunidade para Macau mostrar que também pode transformar intenções em futuro, sob pena de já não lhe caber a si. Por sorte, pelo menos tem um excelente exemplo aqui ao lado.
*Diretor Executivo do Plataforma