A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, avisou na Assembleia Legislativa: em apenas cinco anos, Macau entrará oficialmente numa fase de “superbaixa natalidade”, com uma taxa de fertilidade que já hoje — 0,58 filhos por mulher — é a mais baixa do mundo. Simultaneamente, a população idosa vai disparar: em 2041, um em cada quatro residentes terá mais de 65 anos. Esta transição demográfica profunda não é apenas uma estatística alarmante — é uma bomba-relógio silenciosa que vai, de forma inevitável, transformar o mercado de trabalho.
Não haverá força laboral suficiente para sustentar o ritmo da economia – sobretudo os novos planos de diversificação do Governo – nem as necessidades de uma população envelhecida. E aqui impõe-se uma realidade que já não pode ser ignorada: Macau terá obrigatoriamente de continuar – e aumentar – a importar mão de obra.
Basta fazer as contas: com uma taxa de fertilidade de 0,58 filhos e uma população envelhecida a crescer rapidamente, o número de jovens a entrar no mercado de trabalho será cada vez menor – não há subsídio de 1.500 patacas que altere esta tendência; e todas as políticas de natalidade serão insuficientes para resolver a situação em tempo útil. Se hoje já dependemos de cerca de 180 mil trabalhadores não residentes para manter os serviços básicos e a atividade económica, como pensar em sustentar a economia existente — quanto mais todos os projetos de crescimento e diversificação anunciados. Apenas com mão de obra local? Não é aritmeticamente possível. Macau vive, na prática, uma situação de pleno emprego entre os residentes. E com a aposta nas chamadas quatro novas indústrias — alta tecnologia, finanças modernas, ‘big health’ e convenções e exposições — os trabalhadores terão de vir de algum lado. Sem reforço externo, faltará gente para construir, operar, servir e, sobretudo, inovar.
A ideia de que a população local poderá, por si só, sustentar o dinamismo económico de Macau já não é realista – em abono da verdade, nunca foi
É um caminho que levanta desafios sensíveis. Integração social, identidade cultural, qualidade da formação, equilíbrio entre residentes e não-residentes. Mas é um caminho sem grandes alternativas à vista. A ideia de que a população local poderá, por si só, sustentar o dinamismo económico de Macau já não é realista – em abono da verdade, nunca foi.
O que está em jogo agora é como gerir essa dependência. Como garantir que a vinda de trabalhadores responda a uma visão de longo prazo — uma política coerente, com critérios claros, que assegure qualidade, estabilidade e integração.
Evitar esta conversa é adiar o inevitável; ignorar o envelhecimento é uma forma de negar o futuro; e continuar a tratar a importação de mão de obra como um recurso excecional é não perceber a profundidade da mudança em curso.
Macau precisa de um novo “pacto social” que reconheça que o futuro se constrói com quem está cá… mas também com quem ainda tem de vir. Mas só virá quem tiver condições adequadas, e atualmente, o regime de importação de trabalhadores, não é atrativo.
* Editor-chefe do PLATAFORMA