Apesar de vários programas de apoio e incentivos governamentais, muitos jovens recém-licenciados continuam reticentes quanto à ideia de trabalhar na Grande Baía, preferindo ficar na cidade, especialmente em funções ligadas à Administração Pública — a opção profissional mais popular entre os recém-graduados, com 48% a expressarem interesse nesse setor, segundo a empresa de recrutamento Hello-jobs.com.
Kuok, recém-licenciada em Tradução Chinês-Português, representa esse sentimento: “Já considerei desenvolver a minha carreira em Hengqin, mas a minha primeira escolha continua a ser Macau”. Para além da dificuldade em encontrar empregos diretamente ligados à sua área de formação, Kuok destaca o custo de vida e o tempo de deslocação como barreiras reais: “A minha família acha que seria muito cansativo, e pagar renda em Hengqin é complicado logo após terminar o curso”.
Este ceticismo é confirmado por Jiji Tu, diretora executiva da MSS Recruitment e da Hello-jobs.com, que acompanha de perto os movimentos do mercado de trabalho jovem em Macau. Segundo entrevistas conduzidas pela empresa, “os graduados mostram geralmente pouco interesse pelo emprego na Grande Baía”. Entre os principais fatores dissuasores, destaca-se o facto de os salários oferecidos nas cidades do Interior da China não superarem os de Macau, “mesmo com os incentivos atribuídos pelo Governo”. Além disso, a “ausência de uma rede de contactos no Interior”, o “afastamento da família e amigos” e o “custo da habitação” tornam a opção menos atrativa.
Ainda assim, de acordo com as entrevistas realizadas pela empresa de recursos humanos, há vantagens em trabalhar na Grande Baía, nomeadamente mais oportunidades de emprego, políticas de apoio ao emprego e empreendedorismo para os residentes locais e oportunidades para trabalhar em empresas de renome na China continental.
Espera-se que empresas mais dinâmicas, ligadas às indústrias emergentes do plano ‘1+4’ do Governo, comecem a liderar a oferta de empregos para os jovens
Jiji Tu, diretora executiva da MSS Recruitment e da Hello-jobs.com
Como muitos recém-licenciados, Kuok participou em feiras de emprego e candidatou-se a várias posições. Por não ter recebido respostas concretas, avançou para um estágio antes de procurar um emprego fixo, priorizando experiências temporárias e de curta duração, para explorar o mercado de trabalho e ganhar confiança. Entre as candidaturas, incluiu estágios nas áreas de tradução, administração e recrutamento, com o objetivo de “testar o terreno” e compreender melhor o seu próprio perfil profissional.
Segundo Jiji Tu, a retração do setor do Jogo está a alterar o mercado de trabalho. “Com os casinos a reduzirem a contratação e o encerramento iminente dos casinos satélite, que afeta diretamente 4.800 trabalhadores,mas que felizmente serão absorvidos pelas concessionárias, há um apelo crescente à diversificação. Espera-se que empresas mais dinâmicas, ligadas às indústrias emergentes do plano ‘1+4’ do Governo, comecem a liderar a oferta de empregos para os jovens.”
Administração Pública no topo

Num contexto de incerteza, a Administração Pública surge como um porto seguro. O inquérito promovido pela Hello-jobs.com revela que 48% dos graduados querem seguir carreira no setor público, sobretudo pela estabilidade, horários mais fixos e perspetivas de progressão.
Logo depois surgem os setores do turismo e hotelaria (45%) e o setor bancário (35%). Contudo, a responsável alerta para um desfasamento entre o que os jovens procuram e o que o mercado oferece. “O setor do turismo já não está a contratar ao mesmo ritmo”, explica. É essencial que os jovens sejam mais flexíveis e considerem oportunidades noutros setores com menor tradição, como o digital, a saúde ou as telecomunicações, sugere o inquérito.
Em termos salariais, nota-se uma aproximação entre as expectativas dos jovens e as possibilidades das empresas. O inquérito mostra que os recém-formados agora pedem entre 14,001 e 15,000 patacas mensais, quando no ano passado esperavam entre 15,001 a 16,000 patacas. Já os empregadores estão a oferecer mais e querem reter o talento jovem: 29% indicam estar dispostos a pagar entre 13,001 e 14,000 patacas, quando no ano passado só estavam disponíveis para pagar entre 11,001 e 12,000 patacas (ver Tabela n.º 2).
Ainda assim, os empregadores continuam exigentes. Proatividade, espírito de equipa, boa comunicação e humildade são as qualidades mais valorizadas, segundo o mesmo estudo. Além disso, fatores como desempenho em entrevistas e experiência prévia, mesmo em estágios, são decisivos para o sucesso na contratação.
Desajustes do mercado
A Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) reconhece que os jovens continuam a preferir funções administrativas, enquanto o mercado exige mão de obra em hotelaria, retalho e restauração. Para colmatar esta lacuna, tem promovido feiras de emprego, programas como o “Emprego + Formação” e o “Plano de Estágio para Criar Melhores Perspectivas de Trabalho”. Este último já integrou 1.761 jovens em estágios, com quase metade a serem contratados pelas empresas envolvidas.
Desde 2021, a DSAL organizou 19 planos de estágio em Hengqin e outras zonas da Grande Baía, abrangendo áreas como ‘e-sports’, turismo e finanças modernas.
Apesar dos esforços crescentes, os números mostram que a inserção dos jovens no mercado de trabalho continua a enfrentar obstáculos. Entre janeiro e maio de 2025, apenas 9% dos candidatos que conseguiram emprego através da DSAL tinham 24 anos ou menos. Esta taxa é especialmente significativa num contexto em que os jovens representam uma parte expressiva dos candidatos registados, revelando a dificuldade dos recém-licenciados em competir com candidatos mais experientes.
Uma das respostas institucionais a este desafio é o plano “Emprego + Formação”, que oferece oportunidades em áreas como convenções e exposições, gestão de ativos, tecnologia de informação ou eletromecânica. O modelo baseia-se na contratação imediata com formação posterior em contexto de trabalho. Cerca de 30% dos jovens colocados com sucesso no início de 2025 estavam integrados neste programa, o que sublinha o seu papel enquanto porta de entrada no mercado laboral.