Depois de concluir reuniões com líderes europeus em Paris, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a administração Trump estava disposta a seguir em frente caso as negociações que tinha iniciado com os beligerantes no conflito na Ucrânia não produzissem resultados em breve.
Trump apoiou a declaração de Rubio, dizendo que se, “por alguma razão”, um dos lados tornar as coisas muito difíceis, os EUA simplesmente irão “desistir”.
Tendo em conta a característica inconstância e mudança de posição da administração em relação a algumas questões importantes, como a guerra comercial que lançou, parece que anunciar uma reviravolta relativamente à Ucrânia pode fazer parte da sua estratégia para forçar um acordo.
É incompreensível que a administração Trump recue agora, depois de tanto alarido em torno da sua suposta capacidade de intermediar um acordo de paz. Abandonar uma tarefa que, como se sabia, nunca seria fácil como contar até três, apenas prejudicaria ainda mais a credibilidade dos EUA enquanto líderes globais. Afinal, ainda está bem presente a promessa do líder norte-americano de resolver o conflito entre a Rússia e a Ucrânia nas 24 horas após tomar posse, depois de vencer as eleições presidenciais em novembro.
Ninguém duvida da dificuldade de avançar com um esforço tão árduo. Apesar de toda a fanfarra, as negociações iniciadas pelos EUA para pôr fim ao conflito enfrentaram mais retrocessos do que progressos, principalmente devido ao enorme fosso entre as posições da Rússia e da Ucrânia. Mas, tendo alimentado esperanças de que poderia haver um fim para os combates, a administração tem a responsabilidade de continuar.
Desde que a administração Trump assumiu funções com o argumento de que deveria haver um acordo de paz e que seria ela a consegui-lo, muita coisa mudou em torno da crise na Ucrânia: os EUA e os seus aliados europeus já não parecem estar totalmente alinhados no apoio à Ucrânia. E os EUA deixaram claro que o seu apoio vem com um custo — os minerais e recursos de terras raras da Ucrânia.
Esta mudança de abordagem foi tornada pública de forma bastante clara na humilhação televisiva do Presidente ucraniano, durante o seu encontro com Trump e JD Vance, na Casa Branca, em fevereiro.
É altamente improvável que um presidente ambicioso como Trump e a sua equipa igualmente ambiciosa, tendo prometido intermediar um acordo, tenham realmente a intenção de desistir.
Mas isso não altera a questão fundamental: será que a verdadeira intenção dos EUA ao tentar mediar a paz na Ucrânia é realmente pôr fim aos combates e salvar vidas, ou garantir que lucram com qualquer acordo alcançado?
Tendo em conta que a Ucrânia e os EUA assinaram um “memorando de intenções” sobre um acordo relacionado com minerais — com Trump a dizer aos jornalistas que acreditava que o acordo poderia ser assinado na semana seguinte — será difícil convencer o mundo de que os EUA não tinham uma agenda egoísta, agora que parecem dispostos a abandonar o processo depois de já terem conseguido o que queriam. Caso contrário, os EUA apenas se provarão como oportunistas a aproveitar-se da crise na Ucrânia, em vez de autênticos mediadores de paz.
A chave para resolver a crise na Ucrânia passa por enfrentar de forma direta as suas complexas causas históricas, respeitar as preocupações legítimas das partes envolvidas e equilibrar os seus interesses racionais com o objetivo comum de construir um mecanismo de segurança duradouro, funcional e equilibrado para a Europa.
Como disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi: “Todas as partes devem tirar lições da crise” — que a segurança deve ser mútua e igualitária, e nenhum país deve construir a sua segurança à custa da insegurança de outro.
Tal como ele bem apontou, é à mesa das negociações que o conflito termina e a paz começa; e todos ganham com a paz.
Editorial originalmente publicado no China Daily. Texto editado