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“Sam Hou Fai sabe o que Pequim espera dele”

A promessa de diversificar a economia de Macau, a assunção de responsabilidades diretas em áreas-chave e a prioridade dada à ligação com Hengqin são marcas de uma governação que procura afirmar a autoridade de Sam Hoi Fai. De acordo com Ieong Meng U, professor da Universidade de Macau, é uma “uma adaptação clara de mecanismos de liderança usados na China continental”

Fernando M. Ferreira e Nelson Moura

Ele sabe o que Pequim espera dele,” afirma Ieong Meng U, professor de Administração Pública da Universidade de Macau, “mas precisa de uma estratégia mais clara para o conseguir com os recursos que tem”.

A condução direta de dois dos seis grupos de coordenação interdepartamental — os que tratam da Reforma da Administração Pública e da cooperação com Hengqin — revela “uma adaptação clara de mecanismos de liderança usados na China continental, onde a responsabilização ‘top-down’ assegura que falhas na execução pesem nas avaliações de desempenho político”, diz Ieong Meng U. Mas o académico alerta: “A dúvida está em saber se esse modelo, eficaz no contexto da China, será funcional na realidade de Macau”.

Durante a apresentação das Linhas de Acção Governativa, “o Chefe do Executivo respondeu às perguntas dos deputados num tom medido, cauteloso e calmo. A população ficou satisfeita com o seu desempenho geral”, aponta Lou Shenghua, professor da Universidade Politécnica de Macau, que destaca também a diferença de estilo em relação ao antecessor: “Com o apoio da sua equipa, o Chefe do Executivo já estabeleceu, de forma geral, a autoridade que lhe é devida. Comparado com o seu antecessor, o seu estilo é mais amigável e contido, refletindo o rigor de um profissional de Direito”.

Sam Hou Fai evocou o exemplo de Sentosa, em Singapura, para justificar uma aposta forte na requalificação das duas margens do rio. A ambição inclui a criação de um Bairro Turístico e Cultural Integrado Internacional, com museus e centros de arte, e a dinamização da vida noturna como fator de crescimento económico. Para Lou Shenghua, a proposta faz sentido: “Macau há muito que carece de infraestruturas culturais e de lazer de grande escala. Os terrenos existem, os recursos também. A questão é saber se será possível atrair investimento privado suficiente, já que estas infraestruturas dificilmente podem ser geridas diretamente pelo Estado”.

Ieong Meng U, por sua vez, mostra-se cético: “Não vejo necessidade de Macau copiar modelos turísticos pensados para outros contextos. O turismo internacional tem exigências distintas. O que os visitantes estrangeiros procuram é autenticidade histórica, não uma cidade de cenários instagramáveis”.

Integração com Hengqin

A dependência de Hengqin como alavanca para a diversificação económica foi reafirmada por Sam Hou Fai. Tese que, segundo Florence Lei, professora da Universidade de São José, deve ser interpretada como parte de um processo complementar, e não de fusão: “Macau e Hengqin têm especializações distintas, e isso deve ser aproveitado. O objetivo não é integração total, mas uma cooperação funcional onde Macau aporta turismo e serviços; e Hengqin oferece espaço, infraestruturas e incentivos.” Para Lou Shenghua, essa ligação é mesmo inevitável: “É difícil diversificar dentro dos limites de Macau. Hengqin representa uma oportunidade, não um risco”.

No entanto, alerta Ieong Meng U, “o risco não está na integração em si, mas na relação custo-benefício dos investimentos”. Ainda assim, admite que “a porta está aberta” para os empresários locais, sobretudo nas áreas da saúde e da tecnologia, “se forem competitivos no mercado”. Também António Monteiro, presidente da Associação dos Jovens Macaenses, vê na ligação a Hengqin uma oportunidade que exige visão e coragem política: “Macau ficou muito afetada durante a pandemia e a aposta no turismo internacional é essencial. Ficar preso ao turismo regional não chega para quem quer ser um centro mundial”.

Défice no horizonte

O Chefe do Executivo assumiu o risco de défice em 2025, prometeu reforçar subsídios sociais e anunciou investimento em grandes projetos. Monteiro reconhece o dilema: “Às vezes é preciso investir para ter retorno”. Lou Shenghua nota que “alguns desses projetos são de longo-prazo e podem ser suportados com investimento privado”, lembrando que o Governo dispõe ainda de reservas financeiras “capazes de garantir a despesa com os projetos e o apoio social.” No entanto, Ieong Meng U alerta: “Tudo depende da sustentabilidade das receitas. O modelo anterior, assente no jogo VIP, ruiu. Não é possível manter o nível de investimento público sem repensar prioridades”.

Essa necessidade de repensar é visível também na política de apoio ao consumo. O fim dos vales e a reformulação dos cheques pecuniários que aí vem, indicam uma nova orientação. “A medida dos vouchers foi excecional, num contexto pandémico. A sociedade compreende que o regime mude”, refere Lou Shenghua. Ieong Meng U acrescenta: “O Governo tenta equilibrar o que resta da receita do Jogo com o apoio à economia.” Ainda assim, Lou Shenghua acredita que “a bonificação de 4% para crédito às PME é um apoio concreto e pragmático”, embora reconheça que o impacto será maior “se for possível promover o consumo local de forma mais eficaz”.

A ideia de Macau como plataforma para os países lusófonos mantém-se no discurso, mas carece de execução eficaz. Para Eduardo Ambrósio, presidente da Associação Comercial Internacional para os Mercados Lusófonos, a falta de instrumentos concretos compromete os objetivos: “Macau devia ter um centro de apoio físico na China continental, onde os delegados do Fórum possam reunir com empresários e promover o comércio eletrónico com os países lusófonos. Temos potencial, mas falta operacionalização”. Aponta também a ausência de missões empresariais consistentes a países como Angola ou Brasil: “Há um distanciamento entre o discurso e a ação. Sem instrumentos de cobertura de risco e sem delegações ativas, é difícil concretizar negócios”.

Para António Monteiro, o futuro passa pela formação e pela criatividade cultural. “A formação dos jovens é essencial para a diversificação económica. E o aproveitamento das culturas macaense e portuguesa pode gerar produtos únicos nas artes, na gastronomia, na música. Mas é preciso investir nisso com estratégia e visão”.

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