Segundo Ip, a estrutura de receitas de serviços do sector tornou-se mais diversificada no último ano, e os indicadores de estabilidade mantiveram-se positivos, o que demonstra a capacidade do sistema financeiro para enfrentar riscos potenciais.
Ainda assim, o impacto de taxas de juro elevadas fez-se sentir: o rendimento líquido de juros caiu cerca de 18% em termos anuais, para 16,8 mil milhões de patacas. Em contrapartida, os rendimentos não provenientes de juros registaram uma subida de 12,18%, totalizando 9,745 mil milhões de patacas. Entre estes, os rendimentos operacionais cresceram 10,81% (1,355 mil milhões de patacas), enquanto os ganhos com valores mobiliários e ações subiram 5,65%, atingindo 7,953 mil milhões. Nos primeiros dois meses de 2024, os bancos registaram um crescimento homólogo dos lucros, com os rendimentos não relacionados com juros a aumentar e o rendimento de juros a manter-se estável — tendência que, para Ip, evidencia um quadro geral de estabilidade.
No entanto, o sector enfrenta desafios. O volume de créditos malparados cresceu mais de 30% no ano passado, atingindo 56,072 mil milhões de patacas. Esta subida obrigou os bancos a reforçar as provisões, com impacto negativo nos lucros. Embora os dados mais recentes indiquem estabilização, Ip adverte que é cedo para afirmar se o pior já passou, tendo em conta a volatilidade do ambiente externo e a sensibilidade do sector financeiro ao risco.
Apesar disso, os indicadores estruturais permanecem robustos. O rácio de adequação de capital dos bancos fixou-se em 15,45%, e o rácio de ativos líquidos a três meses face às responsabilidades foi de 60,2% — ambos acima dos padrões internacionais. A recuperação do consumo interno tem contribuído para o ajustamento estratégico dos riscos, permitindo ao sector entrar numa fase de controlo e resolução de problemas ligados à qualidade dos ativos e à liquidez.
Ip sublinhou que a economia e o sector bancário de Macau são afetados tanto por fatores internos como externos, mas encontram-se sustentados pelo apoio do Governo Central e pela retoma económica da China continental. Nesse quadro, os bancos devem posicionar-se como estabilizadores económicos, enfrentando simultaneamente desafios e oportunidades.
Para consolidar a trajetória de recuperação, Ip apresentou quatro recomendações ao Governo. Em primeiro lugar, apelou à estabilização das expectativas do mercado e à revitalização económica, com uma aposta numa governação eficaz e num mercado ativo. Defendeu a rápida implementação de medidas de apoio a sectores-chave, a concretização do plano de três níveis para desenvolvimento das PME e a criação de um fundo governamental orientado para a indústria. Este fundo, sustentado por enquadramento legal, orçamento e investimento de longo prazo, deverá contar com o apoio do sector bancário, em linha com a política pública.
Em segundo lugar, sugeriu o reforço do mercado obrigacionista local como pilar do desenvolvimento financeiro moderno. Em terceiro, propôs a utilização da experiência nacional e internacional para reforçar a capacidade de revitalização do mercado imobiliário, com a criação de uma equipa de governação integrada que coordene ações de vários departamentos e garanta estabilidade económica e social através de políticas de apoio e gestão de risco.
Por fim, defendeu a promoção da inovação financeira transfronteiriça na Zona de Cooperação Aprofundada, com vista à expansão do espaço de desenvolvimento do sector. Partindo da base já existente, Ip considera essencial aprofundar os serviços financeiros inclusivos, fortalecendo o acesso dos residentes a soluções financeiras avançadas e integradas na segunda fase de desenvolvimento daquela zona estratégica.
Artigo publicado no âmbito da parceria com o Macau Daily News