Nuno Soares desenhou um percurso pedonal acessível que liga os extremos da praia de Hac Sá de forma contínua, integrando zonas de lazer. O Park of Tides, como o intitulou, foi recentemente distinguido com o Prémio Prata nos London Design Awards 2024. Apesar do reconhecimento internacional, a proposta não foi selecionada pelo Instituto para os Assuntos Municipais (IAM).
“Cada projeto que fazemos deve ser um contributo para o futuro”, afirma o arquiteto Nuno Soares. Depois de ter vencido o Architecture Madrid Award 2023 pela Iluminação da Sé Catedral de Macau, e de receber o Pioneer Award for Green Architecture 2024 pelo projeto da casa de banho pública de Toi San, Park of Tides dá continuidade à visão de Nuno Soares de criar espaços públicos inclusivos e ambientalmente sustentáveis. O projeto distingue-se pela utilização de materiais naturais e percursos acessíveis, sem barreiras, respeitando a paisagem envolvente da praia.
Soares descreve a proposta para Hac Sá como “um percurso muito dinâmico”, mas salienta sobretudo a forma como o caminho se revela ao longo do espaço. “Começamos ao nível do solo e terminamos num elevador em madeira que nos leva a uma cota elevada”, explica. “Acho que isto permite descobrir o local de uma forma muito interessante,” diz ao PLATAFORMA.
O que nos falta não são edifícios, estradas ou transportes públicos.n O que nos falta é uma infraestrutura que suporte a qualidade de vida
Desenhado para ser inclusivo, o projeto assegura acessibilidade total, incluindo para pessoas com mobilidade reduzida. “Não terão de percorrer todo o percurso e voltar para trás”, diz. A solução proposta passa por um passadiço contínuo em madeira e um elevador, permitindo que todos possam desfrutar do trilho ao seu ritmo.
O percurso divide-se em três zonas — lazer, exploração e natureza —, cada uma pensada para diferentes tipos de utilização. “Estamos a maximizar as experiências possíveis, reduzindo o impacto no ambiente, porque usamos um material que praticamente não altera a geografia do local”, explica.
“Criar massa crítica”

Nuno Soares vê nos prémios uma forma de estimular o debate sobre a qualidade do design e do espaço público: “O melhor dos prémios é que as pessoas falam sobre os projetos e lhes dão uma segunda oportunidade”, afirma. “O meu objetivo é que as pessoas se tornem mais exigentes em relação à qualidade dos projetos, porque percebem que é possível fazer coisas excecionais em Macau.” Para o arquiteto, mais do que um reconhecimento, os prémios ajudam a “criar massa crítica”, encorajando o público a sonhar mais alto e a esperar mais dos espaços que habitam.
Ao participar em competições internacionais, Nuno Soares e a sua equipa não só testam ideias como também promovem Macau a nível global. “Queremos divulgar internacionalmente Macau como um lugar onde se fazem projetos interessantes e com identidade própria”, sublinha ao PLATAFORMA. “Não se fala muito de Macau a nível internacional — estamos a tentar fazer a nossa parte”, considerando ainda que seria positivo dar a conhecer publicamente o projeto vencedor do concurso e acredita que a proposta acabará por ser divulgada.
Qualidade a longo prazo

À medida que Macau avança com o desenvolvimento de novas zonas urbanas, Soares defende que a prioridade deve estar na qualidade a longo prazo, e não na velocidade. “Sempre que houver um novo projeto [nessas zonas] deve haver concurso, e devemos apostar na excelência”, afirma. Para o arquiteto, o verdadeiro impacto do planeamento urbano está nos resultados concretos: “O que importa é a qualidade de cada edifício construído, porque é isso que materializa o plano”.
Nuno Soares é defensor da separação entre concursos de conceção e concursos de construção, frisando que a qualidade do design e o custo de execução devem ser avaliados separadamente. Embora o modelo design-and-build seja frequentemente adotado por ser mais rápido — “porque o processo pode ser alguns meses mais curto” —, o resultado, alerta, é uma perda de qualidade: “Devemos passar de uma lógica de velocidade extrema para uma lógica de qualidade. A rapidez é importante, o custo é importante, mas a qualidade é ainda mais”, sublinhando que “podemos estar a criar problemas para as gerações futuras”.
Olhando para o passado, Soares reconhece que Macau viveu um período de crescimento exponencial, onde o ritmo dificultava o equilíbrio. Esse tempo, acredita, ficou para trás. Agora, é momento de criar uma cidade sustentável e significativa, que valorize a qualidade de vida. “Depois desse período, entrámos numa fase em que é preciso reorganizar melhor a cidade.”
“O que nos falta não são edifícios, estradas ou transportes públicos”, diz. “O que nos falta é uma infraestrutura que suporte a qualidade de vida”, apontando para Singapura como exemplo: “Lá vemos espaços verdes diversificados, onde se pode fazer todo o tipo de atividades do quotidiano, desportivas, de lazer.” Afirma ainda que muitos residentes vão a Hengqin para usufruir da natureza: “O que é ótimo. Hengqin está aqui ao lado, mas devíamos ter isso em Macau. Devíamos poder realizar os nossos sonhos e ambições de qualidade de vida na cidade onde vivemos — não apenas fora dela”, conclui.
Projetos para servir a comunidade
Para Nuno Soares, cada projeto representa uma oportunidade de enriquecer o legado arquitetónico e cultural da cidade. “Macau é uma coleção de histórias de cada geração”, reflete. “Cada projeto que fizermos a seguir deve ser uma contribuição para o futuro.”
O arquiteto continua a sonhar com uma Macau mais sustentável, inclusiva e ambiciosa. “não deve ser apenas um lugar para jogar ou fazer negócios”, defende. “Deve ser também um lugar onde se vive bem.”