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“Precisamos de atrair mais talentos para Macau”

É preciso mais facilidade na contratação de profissionais de fora para desenvolver o setor financeiro na direção que as autoridades querem, explica ao PLATAFORMA a CEO do Delta Ásia, Au Lai Chong. Ao leme do banco que a sua família gere, há quase 90 anos, Au quer apoiar negócios em Portugal, Brasil; e na África portuguesa

Nelson Moura

– Que medidas gostaria de ver tomadas no setor bancário por parte do novo Executivo?

Au Lai Chong – O sistema bancário, a indústria financeira, e os bancos, são parte integrante da economia. No geral, a economia de Macau está a ter um bom desempenho devido ao Jogo e ao entretenimento, mas não é claro que essa riqueza tenha chego às PME e aos residentes. Não só o Governo, mas também os bancos, têm de encontrar formas de construir um ecossistema que apoie a economia e o ambiente empresarial, além do foco no entretenimento e no Jogo. O Governo, com razão, fala na necessidade de diversificar a economia; e acredito que as instituições financeiras, incluindo os bancos, terão muito importantes nesse processo. Outra questão é a escassez de talentos profissionais. Macau tem, apenas, cerca de 700 mil pessoas; e se quisermos melhorar o sistema financeiro – e o Governo quiser apoiar os bancos na diversificação da economia – precisamos de atrair mais talentos para Macau.

– Como opera em Hong Kong e Macau, o que vê do lado de lá e poderia ser também cá implementado?

A.L.C. – A imigração em Hong Kong é muito simples e acessível. Importa proteger os residentes de Macau, mas também precisamos de dar espaço para que outros talentos e profissionais entrem facilmente, apoiando outros negócios, trazendo novas experiências e ideias para Macau. Quando o Jogo foi liberalizado, houve uma grande entrada de especialistas e profissionais do setor; e isso fez uma grande diferença no mundo do entretenimento em Macau. Poderíamos tirar lições disso.

– Como analisa o desempenho do Delta Ásia e quais os planos para 2025?

A.L.C. – O Delta Asia é um banco familiar, que celebra em 2025 o 90.º aniversário; e temos grandes planos para este ano. Em 2024, focámo-nos em melhorar os nossos negócios e observámos uma melhoria nos rendimentos provenientes de comissões. Projetamos bom crescimento a longo prazo, apesar do imobiliário e do ambiente macroeconómico. Há muita incerteza global, com alguns desenvolvimentos nos Estados Unidos e na Europa, bem como com a guerra na Ucrânia; contudo, estamos otimistas relativamente à banca em Macau. No ano passado, estabelecemos uma parceria com a Manulife para oferecer seguros bancários e serviços empresariais, juntando a oferta desta seguradora à da China Life. O nosso objetivo é fornecer aos nossos clientes soluções globais; por isso também lançámos no ano passado um serviço personalizado de banca privada. Este ano, o foco é aprimorar o atendimento ao cliente, pois creditamos que dessa forma podemos destacar-nos dos restantes bancos, oferecendo um serviço personalizado e garantindo o melhore interesse do cliente.

Se quisermos melhorar o sistema financeiro e o Governo quiser apoiar os bancos e diversificar a economia, precisamos de ver como podemos atrair mais talentos para Macau

– A Autoridade Monetária de Macau revelou recentemente altos níveis de crédito malparado – record dos últimos 20 anos. Que medidas têm sido tomadas para reduzir o risco de exposição?

A.L.C. – Há dois aspetos fundamentais: começando pelos empréstimos, estamos a focar-nos na sua qualidade e a apoio os negócios que os contraíram. Vamos também adotar critérios de crédito mais rigorosos e garantir que o fluxo de caixa e a estratégia empresarial de quem os contrai sejam fortes. Entretanto, o Governo chinês está a apoiar o setor imobiliário e o Governo de Macau tem dado orientações nesse campo. Além disso, estamos a diversificar o negócio e a tentar oferecer diferentes serviços – como mencionei anteriormente – para que o banco não seja tão afetado por eventuais incumprimentos, ou deterioração no mercado imobiliário.

– O secretário para a Economia e Finanças pede flexibilidade e prazos alargados na cobrança dos créditos. Está a seguir essa recomendação?

A.L.C. – No nosso caso, não fazemos muitos empréstimos hipotecários; a maioria dos empréstimos é a empreendedores e empresas. Por isso temos de assegurar que a continuidade do negócio é sólida e que têm fluxo de caixa suficiente. Penso que isso é mais importante que o preço da propriedade. Não é que ignoremos isso, mas é para nós mais um conforto secundário. Enquanto banco, nunca temos a intenção de ficar com todas as propriedades ligadas a empréstimos.

Há grandes oportunidades em Portugal, como na América do Sul e África, onde as principais línguas são o português e o espanhol

– Que novos produtos financeiros planeia lançar este ano?

A.L.C. – Vamos focar-nos mais no lado do investimento. Nos Estados Unidos, Donald Trump está a encorajar a Reserva Federal a reduzir a taxa de juro. Se for o caso, todos os investidores vão procurar alternativas além de depósitos bancários. Por isso oferecemos diferentes fundos mútuos, obrigações e ações. Além disso, muitos dos nossos clientes estão connosco há tanto tempo, desde o tempo do meu avô, pelo que vemos a necessidade de um planeamento sucessório. É um tema em que prestamos aconselhamento, abrangendo também a preservação de património. Outra área que identificámos tem a ver com os investidores do Continente que querem investir e expandir o seu negócio em a Macau. É um grupo de clientes que queremos atender com maior empenho.

– A emissão de obrigações, que o Governo está a tentar desenvolver, é uma área que vos interessa?

A.L.C. – Certamente. É bom estar alinhado com a política de Macau, mas também o fazemos por nós. Muitos clientes procuram produtos com maiores rendimentos; e embora as taxas de depósito sejam relativamente altas, a tendência parece ser de descida, e os investidores precisam de alternativas de menor risco. Enquanto consultores de investimento, e perante este clima de incertezas, é importante aconselharmos os nossos clientes a diversificarem os seus portfólios. Não apenas com obrigações, mas também com ações e investimentos alternativos.

– A taxa de juro em Macau tem nos últimos anos acompanhado a Reserva Federal dos Estados Unidos. Com que impacto?

A.L.C. – A taxa de juro e as decisões da Reserva Federal têm sempre impacto na rentabilidade das obrigações. Para um banco, uma das principais funções é captar depósitos para os emprestar; por isso, o spread é sempre muito importante. Desde que o spread se mantenha estável, sem grandes quedas ou aumentos, geralmente isso é favorável ao banco. Neste momento, depende da economia dos EUA, Macau e China, bem como da conjuntura global, para percebermos se as taxas de juro vão realmente descer. Por agora, os dados mostram uma economia forte nos EUA; parece haver margem para descida, mas está ainda por confirmar.

– Quais são os planos do Delta Ásia na Grande Baía e nos Países de Língua Portuguesa?

A.L.C. – A Grande Baía é algo em que estamos focados. Abrimos um escritório em Cantão, e acreditamos numa boa ligação dos nossos serviços entre Cantão, Macau e Hong Kong. Acreditamos que a Grande Baía tem muitas oportunidades; gostamos de Cantão porque é semelhante a Hong Kong e Macau: existe um capital acumulado significativo; e, em termos comparativos, a economia continua bastante sólida, pelo que podemos beneficiar com a gestão de fortunas na região; ajudando os clientes na Grande Baía a explorar novas oportunidades. Quanto aos países lusófonos, temos estado a conversar com diferentes clientes e identificámos a necessidade de expansão dos negócios. Há grandes oportunidades em Portugal, como na América do Sul e África, onde as principais línguas são o português e o espanhol.

– Já estão a colaborar com bancos e instituições em Portugal e na América do Sul?

A.L.C. – Temos uma parceria em Hong Kong que é muito forte no mundo de língua portuguesa. Estamos também a explorar diferentes parcerias para fortalecer esta ligação. Pretendemos fornecer uma solução completa aos empresários da Grande Baía, permitindo que expandam os seus negócios para novos mercados.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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