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“Quatro novos setores para reduzir o desemprego estrutural”

O Presidente da União Geral das Associações dos Moradores (UGAMM), membro da campanha de Sam Hou Fai, e do Conselho Executivo, Chan Ka Leong explica que a política de diversificação 1+4 não visa enfraquecer o turismo, mas criar postos de trabalho para os residentes. Defende o bilinguismo e políticas que atraiam talentos lusófonos

Viviana Chan

– Quais são as prioridades do novo Governo?

Chan Ka Leong – Estando pela segunda vez no Conselho Executivo (CE), nos últimos cinco anos acumulei experiência considerável, participei em trabalhos governamentais e aprendi lições valiosas. Os membros do CE vêm de diferentes setores da sociedade; o processo de discussão e troca de ideias é uma excelente aprendizagem. Neste mandato, devemos dar seguimento às ideias do Chefe do Executivo e opiniões recolhidas durante a campanha, discutindo e concretizando essas ideias. Nos próximos cinco anos, o desenvolvimento estará centrado em várias áreas-chave: “Um Centro, Uma Plataforma”; e as quatro grandes visões de “Macau Estado de Direito”, “Macau Vivo”, “Macau Cultural” e “Macau Feliz”, conforme propôs Sam Hou Fai no seu programa político. O CE e os serviços públicos devem promover o desenvolvimento económico e o bem-estar da população.

– Qual é para si o significado do modelo de diversificação 1+4?

C.K.L. – Se a estrutura económica depender de um único setor, a longo prazo estaremos vulneráveis a choques externos; o que não é saudável. O nosso PIB per capita é dos mais altos do mundo, mas nem todos sentem benefícios disso, dada a concentração excessiva no turismo e lazer. É preciso desenvolver outros setores, garantindo um desenvolvimento económico mais saudável. A saúde e o bem-estar já têm uma base sólida, e as operadoras de jogo podem participar neste setor, que traz novas oportunidades, incluindo na colaboração com Hengqin. Além disso, a área das convenções e exposições dispõe de instalações de classe mundial, com vários prémios internacionais. Mais e melhores eventos aumentam a atratividade de Macau; contudo, temos de resolver os elevados custos no setor para manter a competitividade. O setor financeiro, e o da alta tecnologia, também são importantes. Atrair grandes empresas e projetos a nível nacional é crucial; e o Governo enfrenta o desafio de promover o seu crescimento. A política 1+4 não é apenas uma missão que nos é atribuída, mas parte da nossa contribuição para o desenvolvimento nacional. Essa orientação é crucial – e para nós essencial.

– Apesar do fim da pandemia, a oferta de emprego jovem não melhorou substancialmente. O modelo 1+4 resolve o problema?

C.K.L. – Se a estratégia for excessivamente unidimensional, todos acabarão no jogo e no turismo; o que é muito limitado. Residentes e trabalhadores têm interesses e especializações diversas, mas muitos têm dificuldade em encontrar emprego nas suas áreas de competência e interesse. Mesmo que encontrem trabalho, muitas vezes é em áreas nas quais são menos competentes; ou não gostariam de trabalhar. Desenvolver outras indústrias torna o mercado de trabalho mais rico e diversificado. Não pretendemos enfraquecer o turismo e lazer; mas, sobre essa base, desenvolver quatro noves setores, criando mais postos de trabalho para residentes, para reduzir o desemprego estrutural.

– Como se pode ajudar quem tem mais dificuldades?

C.K.L. – O problema das PME é um desafio global; e visível, pelo menos, em Hong Kong e na China continental. Decorre sobretudo de transformações estruturais, dado o desenvolvimento das compras online e sistemas logísticos, que mudaram profundamente o padrão de consumo. Antigamente era preciso ir às lojas; agora quase tudo pode ser comprado online e entregue em casa. Neste cenário, os modelos de negócios tradicionais, em loja, com atendimento pessoal, enfrentam grandes desafios. O problema existe há muito na China continental; e, com a pandemia, chegou a Macau.

– Como se pode ajudar as PME?

C.K.L. – Exige uma abordagem colaborativa, com estudos e discussões adaptadas a cada circunstância; e o Governo deve ajudá-las nessa transformação. Para os jovens empreendedores seria útil a oferta de espaços, contornando as rendas altas. No curto prazo, eventos e sorteios podem promover o consumo local; no longo, devemos ajudá-las a utilizarem plataformas digitais para promoverem os seus produtos – todas as partes devem sentar-se e discutir soluções detalhadas. Há a possibilidade de se voltar aos vales de consumo; mas depois os residentes esperarão que o Governo mantenha esse tipo de medidas. Iniciativas como o Grande Prémio para o Consumo em Macau, e outros incentivos, devem ser financiados pelo Governo. É importante discutir a viabilidade dos vales de consumo, e sua duração, mas, no longo prazo, não resolvem as dificuldades das PME – é preciso uma análise mais aprofundada.

– A integração regional traz desafios à preservação da identidade?

C.K.L. – Macau foi sempre uma cidade aberta, progressivamente inclusiva, e integrando novas características. Ao longo de mais de 400 anos, desde a vila de pescadores, até à cidade multicultural, a cultura portuguesa conferiu-lhe uma identidade única. A integração regional e as novas tecnologias trazem hoje vantagens e conveniências. Assim como preservamos a cultura portuguesa, devemos preservar as novas tecnologias, que não alteram a essência de Macau; antes tornam a nossa sociedade mais rica e diversificada. Não me preocupa que isso dilua a identidade; pelo contrário, tornará Macau mais rica e diversificada.

– Qual a estratégia mais eficaz para as relações com os países lusófonos?

C.K.L. – Primeiro, desempenhando o papel de grande intermediário; muitas reuniões e negociações devem ocorrer em Macau. Reuniões a nível ministerial entre China e os Países de Língua Portuguesa, e processos relacionados, realizam- se no Fórum Macau; significa que o nosso papel político de intermediário se centra na área económica. É essencial desenvolver um setor financeiro específico; e Portugal pode, através de Macau, introduzir produtos da China continental nos mercados internacionais, aproveitando a nossa reduzida carga fiscal e o livre comércio. Macau tem boa fluidez de capitais com a China continental; é preciso projetos de investimento, e nos países lusófonos existem várias oportunidades. Precisamos de apostar na intermediação, promover o comércio de mercadorias – importação e exportação – e melhorar o setor financeiro.

– Qual é a importância do bilinguismo?

C.K.L. – É fundamental manter e reforçar o domínio da língua portuguesa. Para ser sincero, a quantidade de profissionais fluentes em português é insuficiente em Macau; há espaço para melhorar, especialmente na educação básica e secundária. Deveríamos promover o português como língua oficial, embora o inglês seja também muito importante. As línguas devem ser uma das nossas forças; precisamos de formar mais talentos fluentes em português.

– A política de atração de talentos pode ser mais flexibilizada?

C.K.L. – A importação de talentos deve complementar as necessidades existentes. O português é uma das línguas oficiais; importante, e chave para a plataforma. Por isso, nenhuma política de atração de talentos deve excluir os países lusófonos. As políticas atuais têm atraído mais residentes da China continental, o que explica que a maioria domine chinês e inglês, mas não excluem os profissionais lusófonos – talvez seja necessário intensificar essa atração, incluindo critérios de pontuação extra, desde que cumpram os critérios estabelecidos. Macau é um bom destino e são bem-vindos. Para talentos excecionais, ou provenientes de Países de Língua Portuguesa, poderia ser oferecido apoio adicional – e programas específicos para atrair talentos lusófonos.

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