O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, disse recentemente estar totalmente confiante na capacidade de atingir os objetivos económicos para 2024: crescimento do PIB de cerca de 5 por cento. No entanto, indicadores económicos baixos e o regresso de Donald Trump à Casa Branca causa apreensão nas projeções para o crescimento económico da China.
Durante a campanha eleitoral Trump ameaçou impor tarifas elevadas – até 60 por cento – sobre as importações chinesas. Nesse contexto, receios de uma possível escalada da tensão política e económica entre as duas superpotências levantam dúvidas sobre que obstáculos que a China terá que enfrentar no futuro.
Pouco depois dos resultados das eleições, a China anunciou um novo pacote de estímulo à economia que inclui um aumento considerável na emissão de dívida pública, no intuito de apoiar os governos regionais, os cidadãos de baixo rendimento, o mercado imobiliário e os bancos estatais.
No final da reunião de cinco dias do principal órgão legislativo da China, o Comité Permanente do Congresso Nacional do Povo, um plano de 10 triliões de yuan foi aprovado para reforçar a economia, permitindo que os governos locais refinanciem a sua dívida.
Segundo o ministro das Finanças, Lan Fo’an, 6 triliões de yuan em empréstimos estarão disponíveis, ao longo de três anos, para ajudar os governos regionais a resolverem a chamada “dívida oculta”. Dívidas, essas, normalmente contraídas por governos locais, com financiamento de risco elevado, apoiado por cidades ou províncias.
Os governos locais terão também acesso a uma quota separada de 4 triliões de yuan, na forma de obrigações locais especiais, ao longo de cinco anos, visando reduzir as suas participações em dívida.
Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico do banco de investimento Natixis, destaca a escala ambiciosa da iniciativa que oferece recursos adicionais para a reestruturação da dívida dos governos locais: “Era o que esperávamos, porque escrevemos mesmo antes do Congresso começar que haveria principalmente um reconhecimento da dívida oculta. Isto não é realmente um estímulo. Trata-se principalmente de gestão de risco; de evitar o risco sistémico e o potencial incumprimento de um veículo financeiro dos governos locais, e suas consequências para o setor bancário”, destaca Garcia-Herrero, concluindo: “Veremos mais dívida oficial dos governos locais a tornarem-se dívida pública; por isso o nível geral da dívida oficial da China irá aumentar.”
A economista considera o foco neste esforço de “limpar” a dívida oculta “dececionante”; contudo, “inevitável”. Sem esta “limpeza” qualquer estímulo económico iria para o “lixo”; porque se estas perdas dos bancos “não são reconhecidas […] poderiam criar problemas de estabilidade financeira.”
No final de 2023, a China assumiu um saldo de dívida oculta de 14,3 triliões de yuans, tentando agora reduzir esse valor para 2,3 triliões de yuans até 2028. “Muitos governos locais, ou pelo menos os seus veículos financeiros, poderiam entrar em incumprimento. Até mesmo alguns pequenos bancos poderiam entrar em incumprimento”, explica Garcia-Herrero. Apesar do montante dos estímulos ser elevado, a economista acredita que será alocado lentamente, talvez a “um ritmo de 2 triliões de yuan por ano, ou de 4 triliões no próximo ano”, devido aos problemas subjacentes no mercado imobiliário chinês. As autoridades chinesas “têm primeiro de limpar o mercado imobiliário, recomprando unidades inacabadas e não vendidas. É muito dinheiro que eles precisam de gastar. Para a recapitalização dos bancos, a estimativa que circula é de mil milhões de yuan só para os grandes bancos comerciais estatais”, avisa.
“Muita dessa limpeza acontecerá com este dinheiro. Os bancos estarão então em condições de emprestar. Em suma, a China está a estimular a limpeza, a redução do risco e a estabilidade financeira. Não é realmente um impulso de crescimento”. Devido a estes fatores, Garcia-Herrero não prevê que na economia chinesa, no próximo ano, haja crescimento maior no próximo ano do que este: “Talvez quase o mesmo”.
Isto não é realmente um estímulo. Trata-se principalmente de gestão de risco
Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico do banco de investimento Natixis
As pessoas “pensam que a China é muito competitiva. Alguns setores são, mas a economia em geral está a perder produtividade, basicamente devido a poupanças mal distribuídas”. Conclui a economista que o Governo Central “precisa realmente de fazer algo para mudar a situação atual”, mas enquanto continuar a “utilizar as poupanças das pessoas de forma ineficiente, não conseguirá aumentar o consumo”.
Pontos de estrangulamento

Zhiqun Zhu, professor de ciência política e relações internacionais, na Bucknell University, enfatiza que, além de injeções financeiras imediatas, são necessárias de estratégias a longo prazo que possam lidar com desafios que complicam ainda mais as questões económicas, tais como o envelhecimento da população. Estas medidas de estímulo “são políticas de curto prazo para impulsionar o crescimento económico”, afirma Zhu. Contudo, “a longo prazo, a China precisa enfrentar os pontos de estrangulamento do seu desenvolvimento económico, promover a inovação, proteger o empreendedorismo, reduzir a desigualdade de riqueza e estimular o consumo interno.”
Xi e Trump conhecem-se e, aparentemente, respeitam-se
Zhiqun Zhu, professor de Ciência Política e Relações Internacionais na Bucknell University
Embora o foco esteja no alívio económico imediato,“reformas estruturais e uma maior abertura ao mundo seriam melhores opções para lidar com estes desafios”, defende o analista, temendo que políticas intervencionistas possam não abordar eficazmente estes problemas estruturais.
Efeito Trump
A vitória republicana nos Estados Unidos coloca novos problemas. Zhu avisa que é do interesse tanto de Xi como Trump lidarem de forma pacífica com as relações entre os dois países: “Eles conhecem-se e, aparentemente, respeitam-se. Se encontrarem um meio-termo e chegarem a um acordo, podem evitar uma guerra comercial devastadora, que na verdade prejudica ambos os países e perturba a economia global”. Mais importante ainda, sustenta, “não resolve todos os problemas económicos dos Estados Unidos”.
Em caso de escalada na guerra comercial, Zhu considera que mais tarifas punitivas, além de influenciarem o volume do comércio externo chinês, teriam impacto em economias tão intimamente ligadas ao mercado externo, como Macau e Hong Kong: “As exportações chinesas para os EUA diminuirão ainda mais com a imposição de elevadas tarifas. Dado que as economias de Macau e de Hong Kong estão estreitamente interligadas com o Continente, quaisquer medidas punitivas dos EUA sobre a economia chinesa afetarão negativamente [as duas cidades]”, alerta Zhu.
Esperamos continuar estas encorajadoras relações comerciais com a nova Administração americana
Charles Choy, Secretário-Geral da Câmara de Comércio Americana em Macau
Charles Choy, Secretário-Geral da Câmara de Comércio Americana em Macau, prefere reconhecer o sucesso dos investimentos americanos na indústria do jogo e do turismo de Macau, nas últimas duas décadas, mostrando-se otimista, apesar das tensões geopolíticas: “A Câmara de Comércio sempre foi uma ponte facilitadora para promover o comércio, colaborações e investimentos entre Macau e os Estados Unidos. Esperamos continuar estas encorajadoras relações comerciais com a nova Administração”, diz ao PLATAFORMA.