– No programa deste ano lê-se que num mundo digitalizado, e com Inteligência Artificial, os documentários importam para a colagem à realidade. O Festival tem essa importância em Macau?
Penny Lam Kin Kuan – Desde a primeira edição, mantemos mais ou menos no mesmo caminho. É claro que cada vez vamos mais longe; queremos expandir a imaginação e mostrar realidades ao nosso público. Para mim é importante que vejam documentários. Macau é uma cidade muito pequena e, por vezes, pensamos que não há grande perceção do real, ou da sociedade. Mas, na verdade, há; acho é que às vezes nos estamos a limitar. Muito facilmente sentimos que isto não funciona; não temos aquilo; não podemos fazer isto e aquilo. Para mim isso é triste; por isso quisemos este Festival. O documentário tem esse poder: quando o vemos, não importa se pensamos que é irreal, ou surreal; na verdade é real, a História, as pessoas que aparecem no ecrã, são reais. Tem esse impacto de percebermos que, na verdade, a realidade é maior do que pensávamos.
– A realidade é sempre maior do que a que vemos?
P.L.K.K. – A questão essencial é que, realmente, nunca compreendemos a realidade. Vivemo-la, mas é mais complicada do que pensamos. O documentário expande a imaginação e abre mentalidades.
– O documentário ajuda a quebrar limites?
P.L.K.K. – Sim. Em Macau é muito fácil as pessoas estabelecerem limites e fronteiras; não só as políticas, mas também as culturais – e de mentalidade.
– Porque há tantos limites em Macau?
P.L.K.K. – É um tema muito complicado, mas muito interessante. Claro que esta cidade é pequena, mas tantas outras na Europa são – até Lisboa. Contudo, em Macau há um conjunto de fatores: a cidade pequena, e chinesa, as pessoas conhecem-se muito bem e, por isso, falam umas das outras com facilidade. Depois, não temos indústria; temos jogo, turismo; e muitas pessoas trabalham no Governo. Grande parte dos limites estão assumidos e as pessoas facilmente se confortam com o que têm.
Em Macau é muito fácil as pessoas estabelecerem limites e fronteiras; não só as políticas, mas também as culturais – e de mentalidade
– Preferem não correr riscos?
P.L.K.K. – Sim! Noutras cidades, mesmo pequenas – como Lisboa – as pessoas parecem ter a mente mais aberta. Quando abrimos a mente queremos experimentar algo novo; talvez ver um filme mais experimental. Aqui… não entendo; mas tudo bem; pelo menos eu posso tentar. As pessoas em Macau facilmente se separam em pequenos grupos; por isso é importante quebrar barreiras. O cinema é uma boa forma de o fazer.
– O Festival quebra esses limites?
P.L.K.K. – Estamos a trabalhar nisso. Todos os anos temos um bom número de espectadores; e não peço nem convido os meus amigos. Tento é promovê-lo; e cada vez vejo mais pessoas novas, que não conheço. Quando falo com cineastas de Macau dizem-me que os melhores documentários que viram foi neste Festival. Isso é bom, porque não teriam hipótese de os ver no ecrã. É importante para eles, e o público em geral. O ano passado estreámos o documentário sobre Macau, “Mama Dream of Family”; duas exibições na sala renovada do CVG – 110 lugares – praticamente esgotadas. Penso que desprezamos um pouco a atenção que o documentário suscita em Macau.
– Com que lentes olha para os documentários quando os escolhe? Por geografias, pela qualidade, estilos de produção, problemas que abordam?
P.L.K.K. – Há três anos comecei a formar programadores; este ano já temos três. Sou diretor do Festival, mas discuto com eles a programação. O que lhes digo é que não escolhemos os filmes com base na sua origem, nem temos limites nos tópicos. Seleciono talvez 90 para verem; depois fazem uma lista e hierarquizam os melhores e discutimos os que devemos incluir. Não imponho limites, mas temos os nossos critérios. O primeiro é serem suficientemente atraentes para o público local. Às vezes o tópico importa; como foi o caso da guerra na Ucrânia, que as pessoas queriam ver. A narrativa era boa, a estória interessante, e não tínhamos informação suficiente sobre o tema. A segunda, digo-lhes sempre, é ver se são suficientemente cinematográficos; se a imagem e o som têm qualidade. Há documentários que cheguem na TV, ou no computador, onde a imagem pode ser tremida. Queremos boa narrativa, edição profissional, e qualidade cinematográfica – não é só ser bonito.
– Este ano há dois documentários brasileiros. É uma exceção aos critérios de escolha?
P.L.K.K. – Faz sentido manter a secção portuguesa, mas também porque tem qualidade. Tento mantê-la desde a primeira edição; se o Festival quiser dialogar com a cidade, precisamos dessa sessão. Sou curador-programador e, para ser sincero, não creio que nenhum festival na Ásia se importe com o cinema português. Porque deveriam fazê-lo? Não têm nenhuma relação. Mas nós temos, pela História e cultura. Sempre que no cartaz tenho a secção portuguesa, os meus amigos portugueses dizem-me: o meu amigo trabalha nesse filme, conheço o cineasta; ou algo do género… há sempre essa relação. Noutros festivais, a escolha é tão vasta que lhes escapam os filmes em português; mas para nós é importante. Escolhemos entre todos os países lusófonos e, este ano, são brasileiros.

– A linguagem cinematográfica é muito diferente na Europa, Ásia, e Países de Língua Portuguesa?
P.L.K.K. – É; e é uma das coisas que discuto com os meus programadores. Digo-lhes sempre que, quando olhamos para um filme europeu, a maior parte é profissional; uma indústria muito desenvolvida. Portanto, num documentário europeu, com aquela linguagem cinematográfica, podem escrevê-lo e focar-se na narrativa, boa para durar duas horas. Isso é mais importante. Já no documentário asiático, podem focar-se no tema, na mensagem. Há na Ásia muitos países ainda em desenvolvimento, onde o cineasta precisa de trabalhar muito para terminar um documentário e inscrever-se num festival. É um grande problema para eles; por isso perdoamos um pouco a imagem instável e tudo mais.
Noutros festivais, a escolha é tão vasta que lhes escapam os filmes em português; mas para nós é importante. Escolhemos entre todos os países lusófonos e, este ano, são brasileiros
– Focam-se na mensagem?
P.L.K.K. – Na mensagem e no que se entende do filme relacionado com a cidade, o país de onde vem. Por exemplo, o filme japonês escolhido este ano talvez seja um pouco amador, em termos de imagem, mas mostra o lado negro da sociedade japonesa, o que o torna especial. Aí pensamos que é preciso ver este filme para perceber o outro lado do Japão.
– A produção cinematográfica em Macau pode ser no futuro um fator de diversificação económica e instrumento de afirmação internacional?
P.L.K.K. – Acho mais fácil para o documentarista do que para o cineasta. O documentário pode ser mais artesanal, com orçamento mais baixo, equipas pequenas; e por vezes o documentarista está mais próximo do próprio filme. Numa longa-metragem o cineasta tem grandes orçamentos, produtores e celebridades. Penso que será mais fácil virmos a ter bons documentaristas. Como disse no início, se expandirem a imaginação, e abrirem mentalidades, serão mais facilmente aceites pela indústria documental fora de Macau.