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“Viciados em subsídios”

O presidente emérito da European Business Angel Network esteve de visita a Macau, Hong Kong e Hengqin. Em entrevista ao PLATAFORMA, Paulo Andrez explica que as políticas de apoio ao empreendorismo em Macau estão a criar empresários “viciados em subsídios” que acabam por “não criar negócio”

Nelson Moura

– Tendo em conta a sua experiência noutros países e regiões, quais são os elementos essenciais para conseguir desenvolver um ambiente propício ao empreendedorismo, ao crescimento de startups, e à confiança dos investidores?

Paulo Andrez – Para aparecerem ideias e empreendedores, antes de lidarmos com o problema do investimento, é preciso que haja programas que motivem os empreendedores a criar e ter ideias. Isso aparece desde logo, a partir da escola primária, no sentido de fazer os jovens perceber que o futuro está nas suas mãos e que também podem criar negócios. Depois, as universidades devem estar também preparadas para ajudar esses jovens estudantes a criarem os seus próprios negócios, com cadeiras de empreendedorismo que fomentem o espírito criativo. Finalmente, é preciso que os governos tenham infraestruturas que permitam a mitigação de risco por parte dos empreendedores; nomeadamente, centros tecnológicos em que se possam testar novas tecnologias e fabricar protótipos, de forma rápida e simples, para depois mostrarem a potenciais clientes.

Também é preciso que os governos ajudem a formar esses empreendedores, preparando-os para captar e gerir investimentos. E ainda é preciso criar cá uma comunidade de investidores, nomeadamente ‘angel investors’ [investidores em empresas com alto potencial de crescimento]. Para isso é preciso que o Governo, numa fase inicial, ajude a criar os incentivos corretos. Em Portugal, por exemplo, não existia praticamente nenhum ‘business angel’, e só após a criação do Fundo de Coinvestimento [em 2017] pelo programa Compete, é que se criou uma comunidade muito grande de investidores. Ou seja, os governos dizerem que é preciso aparecerem investidores não é suficiente; é preciso criar os incentivos no mercado para que isso aconteça.

Os governos só dizerem que é preciso aparecer investidores não é suficiente, é preciso criar os incentivos
no mercado para que isso apareça

– Mencionou nos seus seminários que startups em Portugal ou na Europa demonstram muito interesse em vir a Macau ou a esta região para arranjar investidores; mas ainda não existem fundos de investimento de risco que os apoiem. É um passo importante que está a falhar?

P.A. – Onde é que estes empreendedores vão bater à porta? É muito difícil, não havendo uma estrutura criada de investidores preparados para receber esses empreendedores. No entanto, Macau é muito interessante para startups portuguesas como meio de chegar ao mercado chinês. Isso é muito interessante e Macau pode ter esse papel.

– Em Macau discute-se muito a falta de mão de obra qualificada. O foco deve estar em investir na educação para desenvolver pessoas que possam depois estabelecer essas empresas; ou criar incentivos para atrair pessoas de fora que venham estabelecer empresas?

P.A. – Acho que os dois se devem complementar. Obviamente, investir em educação é uma política de médio e longo prazo – não dá resultados imediatos. Havendo também a atração de profissionais qualificados estrangeiros isso acelera o processo, permitindo também que esse talento estrangeiro possa passar conhecimentos à população em geral e aos empreendedores locais.

– Uma grande parte do investimento empresarial em Macau vem através de subsídios e apoios do Governo, ou através de empréstimos bancários; duas fontes de investimento normalmente avessas ao risco. É preciso mudar a mentalidade local para aumentar o volume de investimento em startups?

P.A. – A criação de uma mentalidade em que a primeira coisa que os empreendedores têm que fazer é receber a fundo perdido do Estado cria uma comunidade de ‘grantpreneurs’ [subsídio-empreendedores], em que os empreendedores ficam viciados em subsídios e não criam nenhum negócio. O problema disso é que eles até podem receber algum dinheiro, mas como não estão focados no mercado não criam uma empresa sustentável. A empresa vai estar sempre dependente de quando abre o próximo fundo. Eu conheço vários projetos com um historial que inclui um ou quatro apoios a fundo perdido, mas que não têm clientes.

Macau é muito interessante para startups portuguesas como meio de chegar ao mercado chinês

– Portanto, os governos não devem criar uma política centrada na distribuição de subsídios para fomentar o empreendedorismo?

P.A. – Os governos deveriam modificar estes fundos. Podem, por exemplo, dizer que dão o dinheiro, mas [o empresário] tem que ter também investidores privados. Ou se tiver investidores privados, o governo dá uma melhor classificação e este pode aceder a apoios, ou 100.000 dólares a fundo perdido. Se este trouxer investidores privados com qualidade e já da indústria, então o Estado pode investir até 500.000 dólares. Nesse caso, há incentivo para que os empreendedores procurem investidores privados; caso contrário, não há incentivo nenhum. Para quê falar com investidores privados se o Governo lhes dá dinheiro sem contrapartidas?

– A cooperação entre startups e investidores de países lusófonos e da China é também um tema muito promovido pelas autoridades locais. Na sua experiência, as diferenças culturais têm um papel assim tão importante no empreendedorismo e na atração de investimento?

P.A. – No meu livro ‘Zero Risk Startup’, publicado pela Forbes, falo sobre o problema dos preconceitos culturais. Em muitas culturas, o empreendedorismo não é uma coisa bem vista e o medo de falhar é tão grande porque as pessoas – a sociedade – vão dizer mal de quem falha. Por isso, obviamente, problemas e diferenças culturais são muito relevantes e têm que ser tidas em conta quando se criam determinadas políticas de apoio ao empreendedorismo.

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