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Trindade. A cervejaria com 187 anos que viu crescer Portugal

Dinehiro Vivo

Já foi convento, sobreviveu ao terramoto de 1755, recuperou de dois incêndios, assistiu à afirmação do Estado Novo e depois ao nascimento da democracia. A Trindade é a mais antiga cervejaria de Portugal e celebrou 187 anos de história em janeiro.

O edifício adquirido por Manuel Moreira Garcia em 1834, quando instalou a fábrica de cerveja e a cervejaria Trindade, está repleto de azulejos de Luís Ferreira, então diretor artístico da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, de mosaicos de pedra de Maria Keil e de mobiliário do arquiteto Keil do Amaral. O espaço, que é simultaneamente restaurante, cervejaria e museu localizado no coração de Lisboa, fechou portas para renovações que duraram 13 meses e voltou para assumir o compromisso de perpetuar o legado histórico e cultural, em setembro de 2022.

De volta com nova marca, novo posicionamento e nova decoração, a remodelação, que custou cinco milhões de euros, surgiu da necessidade de “preservar um edifício histórico e icónico da cidade de Lisboa que já carecia de intervenção estrutural profunda, aliada à vontade de tornar o espaço mais atraente”, explica Pedro Jordão, diretor-geral do Grupo Portugália, detentor da Trindade. Num mercado cada vez mais dinâmico e exigente, a nova proposta de valor traz um novo conceito e uma nova carta assinada pelo chef Alexandre Silva.

O desejo de retornar a Trindade à sua essência de cervejaria tradicional levou a assumir a antiguidade histórica do lugar com características únicas, mantendo-se para sempre fiel à sua tradição de espaço de convívio e diálogo. O novo posicionamento traz originalidade, ganhou tons de cobre, lembrando a cerveja que sempre produziu, e azuis, como os azulejos que a tornam única – “é uma mudança de identidade que pretende dar à marca um caráter mais atual, com a naturalidade de ser o que é, uma cervejaria”.

Para o diretor-geral do Grupo Portugália, a Trindade continua a assumir um ambiente informal, confortável e onde as pessoas se possam sentir em casa. “A nova identidade simplifica o conceito, tornando-o genuíno, autêntico e natural”, explica.
Além da nova imagem, a nova Trindade recebe o chef estrelado Alexandre Silva, que leva consigo a sua ligação à cozinha portuguesa, a forma genuína de trabalhar os ingredientes e a constante procura pela originalidade. Pedro Jordão revela que a decisão de trazer o chef do Loco foi unânime e aconteceu “muito antes” do reconhecimento com estrela Michelin. A cervejaria quer continuar a pautar-se pelo ADN de cozinha portuguesa de confeção simples e saborosa que tem sido alvo de “palavras simpáticas dos novos clientes, mas também dos de longa data”.

A reabertura a Lisboa

De regresso ao coração da cidade em setembro de 2022, a cervejaria que viu crescer Portugal abriu em regime de soft opening, e a curiosidade e entusiasmo pelo regresso foi imediato.

A Trindade continua a receber o cliente lisboeta que visita o espaço há gerações, mas também o turista nacional e internacional que faz questão de fazer da cervejaria ponto de passagem obrigatório nas visitas a Lisboa. Com salas esgotadas e a necessidade de marcar mesa com antecedência, foi “notória a vontade de todos de voltar à Trindade. Superou as nossas expectativas e deixou-nos muito satisfeitos”, conta Pedro Jordão.

E porque mesmo com um chef renomado e premiado com estrela Michelin, a Trindade não perde a sua essência de petiscaria, os clientes continuam a procurar o balcão do refeitório, num ambiente mais informal, com petiscos tradicionais como o croquete, os mariscos ou o prego acompanhado de uma imperial bem fresca.

O restaurante oferece uma experiência “mais completa”, onde o cliente pode usufruir da refeição rodeado da beleza da arquitetura histórica. O emblemático bife à Trindade, o polvo assado no carvão ou o clássico bacalhau à brás são alguns dos pratos para saborear, terminando a refeição em grande com o pudim de cerveja ou o arroz-doce queimado com compota de limão, duas novidades da carta.

Cai o Carmo, mas não a Trindade

A Trindade nasceu em 1836, sobreviveu ao terramoto de 1755 e a dois incêndios, viu rebentar duas grandes guerras na Europa e assistiu ao sanar das feridas. Entretanto, já enfrentou uma pandemia e volta a ver uma nova guerra no velho continente que tem impactado a Europa e o mundo, inclusive pelo aumento da inflação.

A atual situação geopolítica adversa, a desaceleração do crescimento económico na Europa, a redução do consumo privado, o aumento do custo das mercadorias, a escassez de mão-de-obra, o aumento enorme dos custos energéticos e a inflação elevada são alguns dos desafios apontados por Pedro Jordão.
Relativamente à pressão inflacionista, e apesar do atual cenário negro e dos 187 anos de vida que viram muitas tragédias, a Trindade está a fazer “um grande esforço para absorver esse aumento [de custos]” e não prevê nenhuma revisão de preços.

A escassez de mão-de-obra é outro problema que aflige o setor da restauração, mas, apesar das dificuldades inerentes ao recrutamento, a Trindade tem uma equipa de dezenas de colaboradores dedicados de que não abriu mão, nem durante as renovações. Na verdade, muitos dos colaboradores foram alocados a outras unidades do Grupo Portugália durante o período de encerramento, o que permitiu “dar formação a toda a equipa durante vários meses em todas as áreas, desde o atendimento à cozinha e dos serviços de vinho e barista ao trabalho em equipa”.

“Temos uma política de recursos humanos muito próxima, um departamento de responsabilidade social e uma academia de formação que prevê ações para todos os elementos, ao longo de todo o ano”, explica o diretor-geral do Grupo Portugália. O ambiente de trabalho que deve ser seguro, acolhedor e proporcionar boas condições e benefícios é uma das preocupações da Trindade para com as suas pessoas, que querem ver reconhecidas.

E porque um desafio nunca vem só, Pedro Jordão prevê “um ano muito exigente para a Trindade e para o setor da restauração em geral”. A Trindade tem grande importância para o Grupo Portugália, é o maior espaço em dimensão e faturação e os 13 meses em que esteve encerrada impactaram os resultados globais da empresa e, também por isso, o diretor-geral sublinha a vontade de persistir no caminho do crescimento em 2023.

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