Em Maputo, os livros vendem-se e trocam-se nos passeios

por Gonçalo Lopes

As livrarias são um recurso escasso na capital moçambicana, mas há passeios cobertos de livros usados, a céu aberto, em diferentes esquinas da cidade, para responder às necessidades de quem procura obras dos mais diversos géneros.

Nestas bancas informais, além de comprar é possível trocar um livro usado por outro, acrescentando um valor equivalente a menos de um euro.

Os preços para a troca partem de 30 meticais (43 cêntimos) e, de acordo com o livro, avaliado ali, na hora, podem ascender aos 50 meticais (71 cêntimos), valores que Gizela Muege, 31 anos, considera “razoáveis”.

Livros novos custam “os olhos da cara” nas livrarias da capital moçambicana, enquanto nas esquinas há “bons livros a bom preço”.

As obras estão expostas no meio da rua, no chão, encostadas a muros de residências e instituições ou em bancas adaptadas em avenidas como a 24 de Julho, Eduardo Mondlane, Agostinho Neto, Salvador Allende e Vladimir Lenine.

Numa das bancas da 24 de Julho, Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Fernando Dolabela, José Saramago e outros autores dividem o chão com couves de pequenas hortas.

Há de tudo para todo o tipo de leitor, desde livros científicos, a infantis, romances, livros de culinária, crónicas ou outros de autoajuda.

Em 2005, Gizela não tinha dinheiro para comprar livros novos quando era estudante e descobriu que, por apenas 10 meticais (14 cêntimos de euro) podia trocar o que já leu por outro.

Doze anos depois, reencontrou “os mesmos vendedores” que a ajudaram a “viajar pelo mundo” sem precisar de sair de Moçambique.

Hoje chegou à esquina da avenida 24 de julho com a Tomás Nduda, junto ao Instituto Comercial, depois de passar por uma livraria.

Procurava um livro infantil, mas “estava caro, custava 500 meticais (sete euros)”.

No passeio, comprou dois por 200 meticais (três euros).

“São livros em segunda mão, sim, mas conservados e respondem às nossas necessidades”, explica Gisela, considerando que a “passagem de uma mão para outra dá uma impressão de proximidade entre os leitores”.

Os preços dos livros vendidos no chão de Maputo partem de 100 meticais (1,4 euros) e podem chegar aos 2.000 meticais (29 euros).

Noutro ponto, na avenida Eduardo Mondlane, uma das principais da capital, não há trocas, porque Cândido Alfredo, vendedor de 25 anos, teme que “alguns livros trocados tenham sido roubados”.

“Eu e todos os meus irmãos crescemos e estudamos graças a este negócio”, que herdaram do pai, diz.

Carlitos José, outro vendedor de livros, no negócio há 15 anos, está na avenida Salvador Allende, a uns metros da banca de Cândido.

“Tens de conhecer bons livros para poderes vender”, refere.

Fala à sombra do muro da escolinha onde vende os livros, enquanto seleciona alguns de Direito, a pedido de um cliente, ao mesmo tempo que tem de se afastar para as pessoas passarem.

Carlitos já passou por outras quatro esquinas de Maputo e conta que também “é preciso avaliar a localização para saber que livros vender”.

“Aqui, por exemplo, os livros de medicina saem com mais facilidade porque estou próximo da Faculdade de Medicina e também do Hospital Central”, exemplifica.

Quem não quiser trocar, pode simplesmente entregar os velhos livros aos comerciantes nos passeios, desde que estejam bem conservados.

“Nós recebemos os livros, avaliamos, fazemos arranjos e depois embrulhamos num plástico para os conservar”, diz Stélio Sebastião, de 50 anos, que vende livros ao longo da avenida 24 de julho desde 2004.

Os plásticos ajudam também a cobrir os livros durante a época das chuvas e durante a noite, de cada vez que os arrumam em lugar seguro, antes de voltarem a montar a banca na manhã seguinte.

Ismael Nhaoda, de 61 anos, atravessa a avenida Vladimir Lenine e olha para todos os livros expostos numa esquina.

“Não acho justo para com as livrarias, porque elas pagam impostos”, diz Ismael à Lusa, mas admite que tem um livro na mão para levar: “Marido e mulher espirituais – deuses ou demónios?” de Arão Ubisse.

Um pouco mais à frente, Santos Carlos, 32 anos, também herdou o trabalho do seu pai.

Hoje ainda não vendeu nada e quando é assim distrai-se, lendo, mas nunca passou “de cinco páginas de um livro”.

“Só gosto de apreciar o livro, ver do que fala e depois deixo ali”, diz, apontando para a sua banca encostada ao muro de uma residência e sustentada por paus, entre couves e barracas.

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