Rumo à "excelência", à "Grande Baía" e à "Lusofonia" - Plataforma Media

Rumo à “excelência”, à “Grande Baía” e à “Lusofonia”

Rui Martins, vice-reitor para os Assuntos Globais da Universidade de Macau (UM), conta em entrevista ao PLATAFORMA como a instituição tem assumido um papel preponderante na comunicação entre universidades dos Países de Língua Portuguesa (PLP) e da China. Tendo também em vista as necessidades do mercado laboral, tem trilhado o seu caminho rumo “à excelência”, nomeadamente no campo da eletrónica, área em que disputa a liderança mundial

-Em 2026, a UM prevê passar dos atuais 12.000 para cerca de 17.000 estudantes. Qual é a percentagem de estudantes de fora que pretendem integrar?

Rui Martins – Neste momento temos 12.610 alunos. No total, o número de alunos subiu 5 por cento em comparação com o ano passado. Prevemos um crescimento para 17.000 alunos, como referiu, onde se espera um maior número de pós-graduações ao nível de mestrado e doutoramento. Quando assumi o lugar de vice-reitor dos Assuntos Globais, em 2018, prevíamos chegar aos 500 alunos internacionais em 5 anos. Só em 2019 crescemos 30 por cento, porque criámos uma série de bolsas para alunos internacionais. Entretanto, veio a pandemia. Todavia, agora já se permite a entrada de alguns estrangeiros em Macau, pelo que o número de alunos internacionais registou um aumento. A UM tem atualmente estudantes oriundos de mais de 50 países.

-Parte da estratégia foca-se nos estudantes lusófonos. O que é que a UM pode proporcionar de diferente?

R.M. – Tanto para os alunos internacionais como para os dos PLP temos um esquema de bolsas que permite a isenção de propinas e alguns descontos para o alojamento no campus. Complementarmente a essas bolsas de estudo, temos um programa com a Fundação Macau – Bolsas de Estudo para Estudantes dos Países e Regiões de Língua Portuguesa e da Namíbia, que já tem mais de 20 anos, onde os alunos bolseiros têm as suas propinas pagas pela FM e têm um apoio mensal para os custos de vida e alojamento.

Além disso, têm o apoio das faculdades em termos de estágios, com apoio financeiro que lhes permite fazer face às despesas. Creio que temos bons incentivos para os alunos dos PLP e os internacionais. Além da Lusofonia, estamos focados nos estudantes de mestrado das áreas circundantes de Macau, nomeadamente do Japão, Coreia do Sul, Malásia, Indonésia, Filipinas e Tailândia.

-A Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin traz novas oportunidades?

R.M. – Ainda antes desse plano ser anunciado, já tínhamos criado o Zhuhai UM Research Institute, no InnoValley Hengqin. Esse instituto permite-nos candidatar a projetos apoiados por instituições chinesas como a National Science Foundation.

Temos várias iniciativas apoiadas por essa fundação e nessa mesma zona temos um pólo do laboratório que eu fundei, o de Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos, laboratório de referência da China (State Key Lab). Alguns alunos de mestrado em estágio estão nesse pólo, onde também temos projetos de colaboração, comerciais e de aplicação dos nossos resultados à indústria da eletrónica.

Temos um volume de projetos à volta dos 15 milhões de renminbis anuais, que financiam vários projetos na zona de Hengqin, Zhuhai e Shenzhen, pois as empresas estão aí sediadas. Temos outras áreas, como a medicina tradicional chinesa (MTC), ciências da saúde, novos materiais, etc., que também têm projetos a decorrer nessa zona.

-O facto de Macau ser parte integrante da Região da Grande Baía (GBA) traz mais oportunidades de cooperação e de intercâmbio?

R.M. – No InnoValley Hengqin temos instalada a primeira empresa ‘spin-off ’ da UM, que é a DigiFluidic. Espero que surjam outras no futuro. Mas além de Hengqin, a ideia é expandir a nossa investigação e colaboração em toda a GBA, através da criação de mais pólos.

-Macau pretende ser uma ponte sino-lusófona. Como é que a UM tem contribuído para essa missão?

R.M. – Sempre colaborámos com as universidades desses países. Na Lusofonia estas colaborações fazem-se através da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), que reúne todas as universidades lusófonas e de Macau. São cerca de 200 instituições e há mais de 25 anos que integramos a AULP. Eu participo como vice-presidente desde 2005 e a UM presidiu entre 2014 e 2017, tendo agora a vice-presidência até 2024.

Através da AULP colaboramos em vários projetos, nomeadamente um muito importante que é o da mobilidade – o Erasmus Lusófono – que foi proposto pela UM, mas interrompido devido à pandemia. Espero que possamos recuperar o programa no próximo ano. Na Lusofonia já circulam em grandes números.

Por outro lado, a UM celebrou 40 anos no ano passado e estabeleceu uma aliança bibliotecária académica, a ABAMAPLP, que reúne 20 universidades da AULP; também estabeleceu a ABAMACHINA, que reúne 20 universidades chinesas que oferecem programas de Português.

Estas 40 universidades comunicam através da UM, que serve de ponte entre a China e os PLP. Criámos um portal em linha e temos vindo a carregar materiais em língua portuguesa que a UM e as outras universidades dos PLP disponibilizam e também diversos livros em chinês disponibilizados pelas universidades chinesas. Há muitas universidades a lecionar português na China, mas um dos grandes problemas é a falta de acesso a materiais em português.

Com esta plataforma já começam a ter. No âmbito destas alianças realizou-se em abril (via Zoom) uma conferência internacional a que chamamos de 1º Fórum Internacional da Língua Chinesa e Língua Portuguesa, e queremos realizar o 2º Fórum no último trimestre de 2023 de forma presencial em Macau. Esperamos atrair à UM especialistas na área de ensino do português como língua estrangeira, mas também de chinês e, inclusive, deveremos ter sessões também na área de tradução português-chinês. Simultaneamente, está previsto desenvolver mais a cooperação no âmbito das Relações Internacionais. Estamos neste momento a recrutar professores qualificados nessa área e, portanto, creio que este relacionamento entre a China e os PLP, através de Macau, se vai intensificar no futuro.

Lançámos também uma aliança para a investigação oceânica entre estes países no início de setembro que deverá ter um simpósio internacional no último trimestre de 2023, no âmbito da atuação do nosso Centro dos Oceanos Regionais.

-Tem sido difícil reforçar o corpo académico num contexto de pandemia?

R.M. – Sim, tem sido difícil. No passado, por exemplo, fazíamos entrevistas e os docentes vinham cá, visitavam o campus e tínhamos uma certa interação antes de ingressarem na UM. Agora temos de utilizar o Zoom. É um esforço adicional, mas temos conseguido.

-Relativamente à língua inglesa, em que sentido estão a expandir essa rede na Ásia?

R.M. – Em 2019 visitaram-se várias universidades inglesas. Foram assinados protocolos e estabeleceram-se programas para formação de quadros qualificados. Foi criado um curso de mestrado e doutoramento “1+3” com o Imperial College.

Tivemos reuniões em 2020 mas, entretanto, a pandemia intensificou-se. Tínhamos previsto realizar um congresso nesse ano, em que íamos convidar professores e cientistas do Imperial College para reunir com alguns dos nossos investigadores. Estamos neste momento a reatar essa operação e devemos ter uma reunião Zoom no fim deste mês.

Espero que no próximo ano, pelo menos na segunda metade, já consigamos trazer esses investigadores.

-O mundo está em rápida transformação e vira-se para a economia digital. É uma mudança que a UM tem acompanhado?

R.M. – Temos um departamento de informática e ciência da informação, que é um dos mais importantes. Há também um laboratório de referência de medicina tradicional chinesa (MTC) e, há três anos, foi aprovado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia um laboratório que é dirigido pelo Sr. Reitor, na área da Internet das Coisas e Cidade Inteligente. Temos criado vários programas nessa área, nomeadamente a nível de mestrado. Estamos a diversificar a nossa oferta.

-Quais são as áreas em que a UM se destaca?

R.M. – Em várias. Além dos laboratórios de Estado temos vários centros com a Academia das Ciências da China e outros centros especializados com o Ministério da Educação. São áreas fundamentais onde a UM atinge a excelência, digamos. Além disso, em Direito, onde temos programas únicos com mais de 30 anos.

Maioritariamente concentrados no Direito de Macau, mas também no que toca ao Direito Internacional e da União Europeia. Devemos apresentar uma coleção em breve de 20 obras fundamentais para o Direito de Macau de professores portugueses que colaboraram com a nossa faculdade e que foram traduzidos para chinês. Entre eles Freitas do Amaral, Gomes Canotilho e Figueiredo Dias.

Todos esses grandes nomes do Direito português que deram origem aos códigos de Macau estão agora traduzidos. É uma obra única. Também nos destacamos na área da língua, em que o número de alunos tem vindo a aumentar. Recrutámos um novo diretor para o departamento de português, o professor João Veloso, que vem da Universidade do Porto e é um especialista também na área da linguística.
Creio que, como o próprio referiu, vai haver uma expansão grande.

Na área da eletrónica, por exemplo, a UM é considerada uma instituição de ponta, estando no topo das universidades e empresas que publicam artigos sobre a matéria. Ainda há umas semanas foram aceites 15 artigos e chips da UM para aquela que é a conferência mais importante a nível mundial da eletrónica, a ISSCC. É uma informação que dou em primeira mão. Após terem sido anunciados os resultados da 70ª edição da conferência que se irá realizar em fevereiro de 2023 em São Francisco, nos Estados Unidos, como habitualmente, posso anunciar que a Universidade de Macau (através do nosso laboratório de referência de eletrónica) é líder mundial com o maior número de trabalhos a serem aí apresentados. E é importante salientar que este nosso laboratório conta com 22 docentes que na sua maioria são de Macau.

É perfeitamente local, mas compete com os melhores a nível internacional.

Também foi recentemente conhecido o ranking das universidades da Times Higher Education, em que a UM manteve a sua posição entre 201 e 250. Se considerarmos as universidades chinesas, de Hong Kong e Macau, a UM está entre as 20 melhores universidades. Já na AULP partilha a posição de topo com a Universidade de São Paulo.

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