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Incerteza continua a rondar meta prevista para receitas do jogo de Macau em 2023

Nelson MouraNelson Moura

Apesar de se esperar uma melhoria nos resultados do jogo para 2023, mediante o levantar de várias restrições pandémicas, é ainda incerto que se atinja o alvo de 130 mil milhões de patacas em receitas, indicam analistas ao PLATAFORMA

A Assembleia Legislativa aprovou na semana passada o orçamento público para 2023, com o Executivo novamente a repetir a previsão de 130 mil milhões em receita bruta de jogo. Esta é a terceira vez que a administração aponta o mesmo patamar desde que a pandemia começou, em 2020.

A proposta de lei do orçamento para o próximo ano prevê também o recurso à reserva financeira em mais de 35 mil milhões de patacas e a continuidade dos apoios sociais à população.

Conforme o secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong, a previsão tem por base o regresso dos vistos eletrónicos e das excursões provenientes do interior da China, assim como as garantias extra-jogo previstas nas futuras licenças de jogo.

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No total, as autoridades esperam que as novas políticas possam atrair no próximo ano 40 mil turistas por dia. Apesar de o panorama económico da cidade ser agora mais otimista, considerando o levantar gradual das restrições pandémicas, poucos apostam que o setor do jogo conseguirá uma recuperação tão pujante.

OTIMISMO CAUTELOSO

Enquanto as projeções orçamentais pré-pandemia pecavam por excesso de “pessimismo” e eram rapidamente ultrapassadas, desde 2020 que as autoridades locais nunca oficialmente reduziram projeções para o setor que muitos viam como excessivamente otimistas.

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Nesse ano, as receitas globais da indústria de jogo cifraram-se em 60.4 mil milhões de patacas em 2020 – uma queda anual dramática de 80 por cento. Entretanto, em 2021, o montante recuperou para 90.81 mil milhões, mas outra queda é esperada este ano, fruto dos múltiplos confinamentos registados no interior da China e na própria RAEM.

Até outubro, o total acumulado chegava apenas a 35 mil milhões de patacas, menos de metade do registado na mesma altura do ano passado e longe ainda da projeção revista pelas autoridades (50 mil milhões de patacas).

Conforme as previsões de Jacky So, vice-reitor e diretor da Faculdade de Gestão e Administração da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, 2022 deve acabar com um total de 53 mil milhões de patacas arrecadadas, ou seja, 41 por cento do valor inicialmente previsto.

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“Se a previsão [para 2023] é realista ou não, só depende do regresso de turistas e jogadores a Macau, o que por sua vez é determinado pelo desenvolvimento da nova versão da pandemia e das políticas governamentais na China e Macau”, indica So ao PLATAFORMA.

“Supondo que a nova quarentena 5+3 continue ou se torne 0+3, tal como Hong Kong, acredito que os turistas chineses ‘normais’ ficarão felizes por visitar Macau em breve. O novo pedido de vistos eletrónicos deve também atrair turistas mais jovens”.

Este mês, Macau reduziu a quarentena para quem chega ao território de sete para cinco dias, com a administração de imigração chinesa a admitir o regresso dos vistos eletrónicos individuais e excursões.

Jacky So prevê que se a maioria dos turistas que venham a Macau para o ano sejam parte do chamado mercado de massas da indústria de jogo, então talvez 30 a 40 por cento dos esperados 130 mil milhões de patacas possam ser alcançados.

No entanto, ressalva que considerando o impacto da atitude mais severa de Pequim sobre o setor do jogo VIP, é expectável que apenas 10 a 15 por cento do mercado VIP possa ser recuperado após o Ano Novo Chinês, em janeiro do próximo ano.

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“Acredito que o objetivo de 130 mil milhões de patacas não é realista. Macau já ficará feliz se 70 a 80 por cento desse objetivo puder ser atingido depois de 2023!”.

Angus Chu, economista da faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau, aponta que só tendo em consideração o passado pré-pandemia as previsões orçamentais para 2023 fariam sentido.

“No seu auge [em 2013] a receita anual do jogo em Macau era superior a 300 mil milhões de patacas, pelo que uma previsão de 130 mil milhões de patacas é bastante razoável para a economia pós-Covid. A questão é quando é que a pandemia termina, e isso ninguém sabe”, explica ao PLATAFORMA.

“Até lá, as receitas do jogo em Macau estarão abaixo do seu nível potencial”.

COFRE A ENCOLHER

Outro aspeto a preocupar o Palácio é o constante impacto da redução dos resultados do jogo no orçamento disponível às autoridades da RAEM.

O montante em impostos do jogo recebidos caiu drasticamente: primeiro para 29.81 mil milhões de patacas, em 2020, subindo ligeiramente em 2021, para 33.91 mil milhões. Este ano, porém, os cofres do Executivo ainda só viram 15.12 mil milhões – um valor bem distante dos 50 mil milhões de patacas esperados para este ano.

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Desde 2020 que o Chefe do Executivo tem recorrido às suas abundantes reservas financeiras para equilibrar o orçamento, cobrir as crescentes despesas de prevenção pandémica e suportar as múltiplas rondas de apoio ao consumo para a população.

Entre 2020 e 2021, injetou-se quase 100 mil milhões de patacas no orçamento para suportar as despesas extraordinárias que resultaram de um plano de ajuda e benefícios fiscais para a população e pequenas e médias empresas. Dada a dependência da economia de Macau da indústria do jogo, Angus Chu considera que o Governo tem seguido uma política correta de incorrer em défice fiscal para impulsionar a economia.

“Caso contrário, a economia de Macau sofreria uma recessão ainda mais grave. A chave, segundo o académico, é “o Governo equilibrar o seu orçamento fiscal quando a pandemia terminar, não enquanto a economia estiver em recessão”.

Apesar das despesas, o valor da reserva aumentou entre 2020 e 2021, algo justificado pela AMCM na “afetação prudente e da cobertura de riscos, bem como da aplicação de fundos em mercados com
crescimento potencial”.

Contudo, 2022 tem-se revelado menos auspicioso, com seis meses de perdas de valor consecutivas entre janeiro e julho deste ano. Mesmo assim, o Governo da RAEM planeia uma alocação de cerca de 35.6 mil milhões de patacas das suas reservas financeiras em 2023 para fazer face ao défice orçamental previsto.

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Jacky So propõe duas outras alternativas viáveis para reduzir o défice orçamental: implementar impostos mais altos e/ou venda de títulos/empréstimos do Governo.

“O primeiro será difícil de implementar, devido à concorrência de cidades vizinhas em Taiwan, Singapura, Hong Kong, Coreia do Sul, etc., que mantêm um imposto sobre os rendimentos de 12.5 por cento. Mas uma quantidade relativamente pequena de títulos do Governo pode ser benéfica em termos de promoção dos mercados de títulos em Macau”.

Para o economista, Macau devia considerar melhores formas de direcionar poupanças a investimentos mais produtivos. “Se a taxa de inflação continuar a subir, a procura por títulos para proteger contra a inflação será alta”.

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