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“Moçambique não pode travar. É a hora de avançar para a Europa”

Maria IsauraMaria Isaura

A crise energética na Europa pode vir a ser uma tábua de salvamento económico para alguns países africanos, nomeadamente Moçambique, que tem reservas de gás capazes de servirem o Velho Continente. A falta de segurança em Cabo Delgado travou um projeto avaliado em mais de 20 mil milhões de euros, o maior investimento alguma vez feito em África. No entanto, há quem diga que o passo tem de ser dado em frente, dada a necessidade europeia

O economista-chefe do Standard Bank, Faúsio Mussá, prevê que o recuo da violência armada permita recomeçar as obras da fábrica de liquefação de gás, em Cabo Delgado, norte de Moçambique, no primeiro semestre de 2023. Esta é, aliás, uma ideia que também já tinha sido defendida pela Total Energies, que estava à frente do grande projeto na península de Afungi.

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Contudo, há agora quem defenda uma total inversão do que estava pensado desde o ano passado, tudo pela necessidade urgente da Europa em matérias de energia. A expectativa era que o projeto começasse a exportar gás a partir de 2026, isto se a Total Energies retomasse o projeto apenas no próximo ano.

Filipe Nyusi, presidente de Moçambique, está com o processo diretamente nas suas mãos e há já quem o aconselhe a aproveitar a grande oportunidade que tem em mãos.

“Há vários meses que estamos a organizar-nos e a implementar cursos intensivos em Pemba, para que seja usada a mão de obra local para a exploração do gás. Moçambique não pode ficar à espera de decisões futuras, quando o imediato pede o que Moçambique tem, energia para vender para a Europa”, referiu ao PLATAFORMA Ricardo Aboud diretor da General Electric, empresa responsável por este curso em Cabo Delgado.

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Esta, refira-se, é a zona do país que mais dores de cabeça tem dado ao governo moçambicano nos últimos anos, devido à instabilidade social que, saliente-se, levou à interrupção do projeto da Total Energies. Mortes, violência, roubos, etc. Tudo isto levou a multinacional francesa a parar com o avanço do complexo, mas Ricardo Aboud entende que há alternativas.

“Há, sem dúvida. Há muito gás em Moçambique, há extração possível em outros locais e estamos em contacto com o presidente Filipe Nyusi nesse sentido. Há reuniões marcadas com vários interessados e nós estamos a fazer o nosso papel, que passa por aconselhar o presidente e estes cursos que implementámos, a pedido do governo, é um sinal claro que Moçambique pode dar um passo muito importante para o seu futuro económico”, considerou o brasileiro, que aposta numa resposta assertiva por parte deste país lusófono.

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“Não tenho dúvidas que este é o caminho. Moçambique não pode travar. É a hora de avançar para a Europa. Quando há necessidade, quem pode responder tem de avançar. É assim que se constrói o desenvolvimento económico e sustentável. Só podemos aconselhar, mas sabemos que há uma grande pressão por parte de outros interesses, também eles económicos, neste caso de multinacionais que investiram muitos milhões de euros. No entanto, este é um caso quase único, uma guerra que está afetar não apenas um país, mas todo um continente. O melhor conselho que podemos dar ao presidente é que o país tem mesmo de dar um passo em frente”, referiu o diretor da General Electrics.

UE OLHA PARA MOÇAMBIQUE

Embaixador cessante da União Europeia em Moçambique defende que gás natural de Cabo Delgado está entre as alternativas da Europa na diversificação de fontes de energia. Guerra na Ucrânia fez acelerar procura de soluções.

“O gás de Moçambique, com a presença de grandes companhias multinacionais europeias, tem agora um valor ainda mais importante e estratégico”, declarou Sánchez-Benedito Gaspar, em entrevista à Lusa em Maputo.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, fala com os jornalistas após um encontro com o presidente executivo da empresa Totalenergies, Patrick Pouyanné (ausente na foto), no edifício da Presidência da República em Maputo, Moçambique, 31 de janeiro de 2022, A Totalenergies pretende retomar este ano o projeto de gás natural em Cabo Delgado, norte de Moçambique, suspenso em março de 2021 após um ataque armado, disse hoje o presidente executivo da empresa.

Segundo o diplomata, com a invasão Russa da Ucrânia, a Europa chegou à conclusão de que “não pode confiar no parceiro antigo [a Rússia, entre os maiores exportadores de gás no mundo], que é autoritário e usa o gás como instrumento de guerra”, estando a envidar esforços para garantir fontes alternativas. “Temos adotado uma nova estratégia na Europa, designada “RePower EU”, que tem vários elementos […] No que diz respeito ao gás, que é considerada uma energia de transição, estamos a procurar fornecedores alternativos […] Moçambique está entre as alternativas”, frisou Sánchez-Benedito Gaspar. Embora o gás dos três projetos destino, Moçambique dispõe de reservas comprovadas de mais de 180 triliões de pés cúbicos, segundo dados do Ministério dos Recursos Minerais e Energia.

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Apesar das perspectivas promissoras, a insurgência armada que começou em 2017 na província de Cabo Delgado é uma ameaça, mas a entrada de tropas estrangeiras para apoiar as forças moçambicanas em meados do ano passado melhoraram a situação de segurança, recuperando posições importantes, como é o caso da vila de Mocímboa da Praia. “Foram grandes os avanços sobre o terreno. A insurgência já não tem esta capacidade de controlar permanentemente territórios-chave”, observou Sánchez-Benedito Gaspar.

SÓ UM PROJETO PRONTO A ARRANCAR

Há, neste momento, três projetos para extrair gás das reservas da bacia do Rovuma (que estão entre as maiores do mundo), através de furos no fundo do oceano Índico, 40 quilómetros ao largo de Cabo Delgado.

No entanto, só o projeto mais pequeno, em mar alto, está pronto para arrancar. Trata-se do projeto Coral Sul liderado pela ENI com uma fábrica de liquefação em mar alto, numa plataforma flutuante que a partir dos próximos meses vai injetar o gás líquido para cargueiros, estando a produção vendida por 20 anos à petrolífera BP.

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