A agonia da incerteza presente em Macau - Plataforma Media

A agonia da incerteza presente em Macau

O Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, disse esta semana na Assembleia Legislativa que era difícil prever o cenário que Macau enfrenta. Não obstante, admitiu que novas ondas epidémicas poderão ser tratadas com a mesma rigidez, e que a política fronteiriça será deixada a cargo do Governo Central. No plano económico, abordou as indústrias emergentes e a aposta forte na inteligência artificial, suscitando reações distintas por parte da população

O surto de 18 de junho parece ter terminado, mas a economia de Macau foi duramente atingida.

O foco da sessão plenária da AL, que contou com o Chefe de Executivo, focou-se no futuro da economia local e as medidas auxiliares a implementar.

Lei Chan U levantou questões sobre os resultados esperados para as novas indústrias e desenvolvimento económico durante o mandato deste Governo. Ho Iat Seng respondeu que tal está exposto no Segundo Plano Quinquenal e que entre as várias indústrias, o jogo e o setor de exposições e convenções não devem produzir menos de 40 por cento do PIB, sendo as indústrias que mais contribuem para a receita fiscal do Governo.

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Nos restantes setores, como a indústria financeira e de seguros, comércio, construção e saúde, espera que pelo menos atinjam 15 por cento.

“Em relação ao retorno fiscal produzido, honestamente a receita fiscal de Macau é bastante baixa, com a indústria do jogo a representar atualmente 20 por cento do PIB. Se subir para os 40 por cento, seria possível anular 80 por cento das despesas anuais do Governo. Existe pouca tributação nas outras indústrias”, admite.

A recessão económica fez com que o uso de recursos e finanças públicas recebessem maior atenção. Zheng Anting questionou o Chefe do Executivo sobre a emissão de títulos públicos e leilões de terrenos em Macau.

Ho Iat Seng garantiu que o Governo emitiu títulos públicos não para aumentar a receita fiscal, mas para encontrar uma nova “saída” para os residentes, cujos depósitos ultrapassam 600 milhões de patacas. Relativamente aos leilões, afirma que começarão após os devidos procedimentos legais, tais como sondagens geotécnicas e os terrenos estarem prontos para ser vendidos. Sobre o lucro destas vendas, diz “não esperar muito”, visto que os preços demasiado altos seriam inacessíveis para a grande maioria.

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As autoridades esperam que o mercado imobiliário se desenvolva gradualmente, sem criar especulação, nem valores demasiado baixos que causem equivalência patrimonial negativa.

TURISMO EM SITUAÇÃO PRECÁRIA

O surto que começou em junho veio atrasar a recuperação da indústria turística. “Mesmo com todos os preparativos possíveis, uma nova onda epidémica amanhã pode voltar a parar tudo”, alerta Ho Iat Seng, acrescentando que tem lidado com a pandemia de forma recorrente desde o início do seu mandato e que “não há forma de fazer com que um plano regular funcione”.

“Queríamos um bom verão este ano, mas não foi possível. Em novembro do ano passado (durante a Semana Dourada), também queríamos uma situação positiva, mas não conseguimos. Na altura do Ano Novo Chinês voltámos a ter problemas. O ano de 2021 parece ter sido um ano económico relativamente positivo a nível mundial. Apesar do impacto da pandemia, ainda não havia guerra. Este ano aconteceu tudo ao mesmo tempo, foi difícil de prever. Mesmo assim, o Governo irá dar o seu melhor para prevenir e controlar esta epidemia e seguir o caminho necessário”, afirmou. Wang Sai Man, Leong Hong Sai e Song Pek Kei também mencionam problemas fronteiriços.

O Chefe do Executivo garante que as negociações com a China continental estão a avançar para criar um corredor especial entre Hengqin e Macau, ou seja, caso a fronteira entre Macau e a Ilha estiverem abertas durante um surto, Macau estará a aceitar o risco que tal implica.

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“Com a abertura entre Macau e Hengqin, os residentes de Macau poderão continuar a entrar em Hengqin mesmo em caso de surto em Macau. Contudo, caso haja um surto em Hengqin, os locais poderão também entrar em Macau”, explica. Sobre a normalização de medidas de prevenção epidémica entre Guangdong, Hong Kong e Macau, afirma que essa decisão estará nas mãos do Governo Central.

Defendeu ainda que o Executivo continuará a promover a ideia de suspensão de isolamento para residentes que regressem do Continente. Atualmente, Macau tem as fronteiras abertas apenas com a China continental, à exceção de corredores especiais para não residentes – mediante cumprimento de quarentena -, nomeadamente com Portugal. Porém, afirma que o Governo continuará a explorar a abertura das fronteiras com outras nações.

“Temos ainda algumas reservas quanto à suspensão da quarentena para quem regressa a Macau, visto as medidas diferirem das praticadas no Continente”.

DIVERSIFICAÇÃO INDUSTRIAL E INÍCIO DO METAVERSO

Em resposta a uma questão levantada pelo deputado Ngan Iek Hang sobre as novas indústrias, Ho Iat Seng afirma que estas não são fruto da pandemia e que resultam de uma estratégia de desenvolvimento. Com ou sem pandemia, diz que as indústrias emergentes se vão desenvolver ao seu próprio ritmo.

“A inteligência artificial é o principal foco das indústrias emergentes, principalmente na sua relação com o metaverso. Por isso esperamos que os jovens de Macau se consigam desenvolver neste sentido”, afirma.

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O mesmo menciona ainda que o primeiro projeto relacionado com o metaverso na Zona de Cooperação Aprofundada já foi lançado, na esperança de que as próximas gerações explorem este aspeto.

APOIO ECONÓMICO DIRECIONADO A RESIDENTES

A Associação Comercial de Macau propôs também à Secretaria para a Economia e Finanças que o segundo plano de medidas económicas auxiliares de 10 milhões de patacas inclua um cartão de consumo de três mil patacas para trabalhadores não residentes. No entanto, a proposta causou alguma controvérsia. Ho Iat Seng clarificou que o auxílio apenas será aplicável a residentes locais, acrescentando que quando o auxílio foi comunicado, no dia 16 de julho, a medida já tinha sido definida como “universal” para “residentes de Macau” e que as “visões expressas por organizações ou indivíduos não devem ser tomadas como opiniões do Governo”.

Acrescentou ainda que não existe “justiça total nestas medidas, mas que as opiniões serão tidas em consideração”, apesar de poderem não ser aceites.

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Quanto ao problema do desemprego, a mais recente taxa de desemprego entre os residentes locais de Macau é de 4,8 por cento, ou seja, cerca de 15 mil pessoas. Ho Iat Seng afirmou que os atuais 100 mil postos de trabalhado ocupados por não residentes seriam suficientes para resolver o problema do desemprego dos residentes, mas questionou a capacidade da população local em ocupar as vagas deixadas. É algo em que a sociedade tem de refletir, considera.

POPULAÇÃO COM REAÇÕES MISTAS

No universo das redes sociais, o discurso do Chefe do Executivo foi recebido com reações distintas face ao desenvolvimento do metaverso.

Alguns criticaram que “o Governo aposta no metaverso quando nem sequer sabe o que são criptomoedas e NFTs”. Outros questionaram: “Com uma internet tão lenta, como podemos aprender a desenvolver o metaverso?” Muitos outros residentes demonstraram o seu apoio às medidas de auxílio financeiro, dizendo que são “uma ajuda”.

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Outros sugeriram que os “cartões de consumo também deviam ser distribuídos aos trabalhadores não residentes, visto que também gastam em Macau”. Alguns questionam a capacidade da cidade em “fazer com que turistas voem mais de 10 horas para uma semana de quarentena em Macau”.

Segundo o All About Macau, um idoso esperou em frente à AL e exigiu reunir-se com o Chefe do Executivo, demonstrando o seu desagrado com as medidas de apoio a pequenas e médias empresas e as enormes quantidades de capital público direcionado às mesmas sem consulta pública prévia.

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