"É apenas uma questão de tempo até atingirmos uma taxa de infeção zero em Macau” - Plataforma Media

“É apenas uma questão de tempo até atingirmos uma taxa de infeção zero em Macau”

Jacky Cheong não tem dúvidas que Macau conseguirá resolver a situação epidémica e voltar a uma taxa de infeção zero em pouco tempo. Diz que à exceção de alguns erros no início, as autoridades estiveram bem e que os resultados desta semana determinarão a rapidez com que se levantará as medidas antipandémicas. Sobre a coexistência com o vírus, reitera que depende sempre da capacidade do sistema de saúde em dar resposta, e que em Macau os grupos mais vulneráveis seriam afetados

Macau tem organizado várias rondas de testes em massa desde o início do surto. Estas medidas de prevenção epidémica têm criado uma onda de descontentamento e dúvidas relativamente à sua eficácia. Jacky Cheong, professor na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Jiao Tong Xangai, afirma que do ponto de vista preventivo, as atuais medidas do Governo – testagem massiva e redução do movimento da população – são uma estratégia bifacetada.

Significa isto que a primeira procura identificar casos positivos o mais cedo possível para os isolar, assim como aos seus contactos próximos; a segunda tenta abrandar a propagação do vírus. “Revendo os dados mais recentes, temos assistido a uma cadeia de transmissão na comunidade. O atraso na primeira fase de testes em massa levou a que, durante uns dias, os infetados e os seus contactos próximos estivessem ainda ativos entre a comunidade”, analisa. Os primeiros casos foram detetados no dia 18 de junho, e no dia seguinte às 12h iniciou-se a primeira ronda de testes em massa. Contudo, esta só terminou a 21 de junho, ou seja, as autoridades criaram uma janela de 48 horas para realizar o teste.

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Mesmo assim, afirma que não houve uma subida explosiva no número de casos, provando que as medidas inicialmente implementadas pelo Governo surtiram efeito. O virologista diz ainda que “o número relativamente baixo de casos detetados na comunidade durante os dias 10 e 11 de julho são prova de que a testagem massiva é eficaz. Com esta eficiência das autoridades, é apenas uma questão de tempo até atingirmos uma taxa de infeção zero”. O mesmo defende que, inicialmente, as autoridades não queriam causar grande impacto na comunidade, tendo adotado medidas mais leves no início do surto, partindo então da estratégia bifacetada.

ESPAÇO PARA MELHORIAS

Não é a primeira vez que Macau enfrenta um surto, e por isso mesmo Cheong afirma que o Governo soube coordenar-se e divulgar informações relevantes de forma competente, especialmente no que diz respeito à testagem. Salienta também que qualquer medida que restrinja o movimento das pessoas tem impacto no dia a dia dos mesmos.

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“Quando o número de casos começou a crescer tornaram-se óbvios alguns erros [das autoridades], incluindo grandes filas para testes com um prazo de 48 horas, devido a possíveis erros de cálculo. À medida que vai envolvendo um número cada vez maior de pessoas, vão surgindo problemas de comunicação entre departamentos, podendo resultar em erros e críticas”, afirma. Porém, acredita que em comparação com outros locais, Macau não assistiu a um crescimento exponencial de casos e que a situação local continua sob controlo. “Existe espaço para melhorar (…), mas acredito que [as autoridades] irão progredir”, reforça.

CHEGAR AO ZERO

O virologista diz não haver dúvidas quanto à possibilidade de mitigar o vírus na comunidade. Os números estão a diminuir para tal se atingir e reitera que caso Macau não tenha infeções durante uma semana, esse objetivo será cumprido. As medidas de prevenção e controlo são descritas como sólidas durante as primeiras duas semanas, tendo a eficácia do processo de testagem melhorado bastante com a evolução da epidemia.

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“O tempo necessário para os testes em massa foi reduzido, especialmente depois de Guangdong ter enviado auxílio. Se verificarmos os resultados da última ronda, podemos ver que a transmissão na comunidade desceu, ou seja, conseguiram identificar e isolar algumas das fontes de transmissão.” Na mesma linha, destaca que o aumento do número de casos tem acontecido maioritariamente dentro das zonas sob observação médica, o que considera como boas notícias.

COEXISTÊNCIA COM O VÍRUS

O atual surto é dominado pela variante Omicron BA.5. Questionado sobre a possível coexistência com o vírus, o virologista responde que a estirpe existente não determina a abordagem, mas sim a realidade económica e capacidade do sistema de saúde da cidade.

Sobre a possibilidade de se transformar numa nova gripe sazonal, refere que “a taxa de vacinação em Macau já atingiu um bom nível, mas a adoção de uma abordagem de coexistência terá, sem dúvida, impacto sobre os grupos mais vulneráveis, como crianças e idosos, assim como no sistema de saúde. “Agora trata-se de uma questão de consenso social sobre a melhor forma de lidar com esta epidemia, sem pensar nas diferentes variantes do vírus”, esclarece.

‘TIMING’ PARA LEVANTAR AS RESTRIÇÕES

As preocupações da população prendem-se, sobretudo, às medidas de distanciamento social e quais os critérios para diminuir essas restrições. A resposta está nos resultados dos testes em massa que, segundo o especialista, podem ser usados como referência. Caso exista uma redução significativa no número de infetados entre a comunidade, ou até mesmo zero casos, defende não haver qualquer obstáculo à suspensão das restrições.

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“O Governo está a realizar estas testagens frequentes na esperança de que os seus resultados sirvam de referência para uma eventual diminuição das restrições”, explica. Pelo menos até 18 de julho a maioria dos negócios estarão encerrados, devido ao “confinamento parcial” em Macau. Jacky Cheong diz que esse fator vai reduzir o número de infetados. Contudo, caso as medidas sejam imediatamente suspensas sem isolar os casos positivos, alerta para o risco de repetir os erros cometidos no início do surto.

DIVERGÊNCIA DE IDEOLOGIAS

Chen Chien-jen, antigo vice-presidente de Taiwan e virologista com longa experiência na área de saúde pública, publicou um artigo onde afirma que “a taxa de incidência de uma doença determina o valor preditivo positivo”. “Por essa mesma razão o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças de Taiwan decidiu isolar habitações e infetados nas suas residências [com maior taxa de incidência], e usar testes rápidos para confirmar diagnósticos, contudo não é uma solução adequada para grupos sociais com baixa”, lê-se.

Inquirido sobre a atual situação em Taiwan e a sua possível aplicação em Macau, Jacky Cheong explica que a principal diferença entre as duas regiões é que Taiwan escolheu a coexistência com vírus: “Caso seja adotado o método de coexistência com o vírus, os testes antigénio são suficientes, juntamente com o isolamento em caso de infeção. Contudo, se Macau adotar o objetivo de “infeção zero”, então são necessários dados mais precisos. Por isso é altamente importante adotar medidas fidedignas, rápidas, e que possam ser utilizadas para isolar casos positivos.

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Para isso são precisos testes de ácido nucleico, ou uma mistura de ambos. Neste sentido, somos extremamente sortudos por receber o apoio da China continental, que possibilita realizar testes em massa a baixo custo”.

O mesmo argumenta que a situação de Macau não se compara à taxa de incidência mencionada no artigo do vice-presidente de Taiwan, pois as duas regiões têm objetivos diferentes e as medidas de prevenção de Taiwan servem como sistema de supervisão. “Desde que o número de casos positivos não exceda a capacidade [de Taiwan], irão aceitar a situação, porque as duas regiões definiram objetivos diferentes.” Jacky Cheong explica também que a indústria de testes de ácido nucleico em Taiwan é escassa, por isso é extremamente caro realizar testes em grande escala.

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