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“Por este andar, acabaremos por desaparecer”

Catarina Brites Soares

Helena Brandão diz ter chegado a altura de deixar a liderança da Associação dos Amigos de Moçambique. Ao PLATAFORMA, confessa temer pelo futuro dada a ausência de sucessores. No balanço feito ao jornal como dirigente associativa durante mais de 16 anos, defende que é fundamental que as comunidades lusófonas percebam exatamente qual é a relevância do Fórum Macau. Há muitas questões por responder, afirma

Que balanço faz dos anos que liderou a Associação dos Amigos de Moçambique?
Helena Brandão
– Há sempre momentos difíceis, mas faço um balanço positivo apesar das dificuldades.

Que dificuldades foram essas?
H.B. – Somos uma associação sem fins lucrativos. Para desenvolver qualquer atividade, temos de contar com a boa-vontade dos sócios. Chegámos a ter cerca de 110, mas só um grupo restrito é que se dedicava. Hoje somos 30. Pior ainda. Outro dos problemas prende-se com os apoios financeiros. As atividades programadas, como a Lusofonia e Semana Cultural, são subsidiadas. No caso das que são organizadas por iniciativa própria é sempre mais complicado. De 2007 a 2018, conseguimos realizar a semana gastronómica anualmente com o apoio, ainda que reduzido, da Fundação Macau; e o ciclo de cinema, com apoios dos hotéis e afins. Não nos queixamos porque fomos conseguindo. Mas nesta fase, decidimos fazer menos atividades cerca de duas a três – e mais baratas do que várias e sem meios.

Quantos membros tem a associação e quantos tinha quando assumiu a liderança?
H.B. – Começámos com cerca de 30, fomos aumentando. Há cinco anos éramos perto de 110. Hoje somos 32 e já estou a incluir os sete estudantes. A maior parte está a reformar-se e regressa. É difícil. Não há uma renovação. Por este andar, e pelo que vejo de outras associações, acabaremos por desaparecer. Estou a ser pessimista, mas é uma realidade.

A que se deve o decréscimo?
H.B. – Há menos pessoas de facto. A maioria dos membros da associação chegou nos anos 80/90 e esses estão a regressar ou já regressaram. Os que vêm, ficam temporariamente. São sobretudo estudantes ou pessoas que trabalham no consulado e no Fórum Macau.

Existe o risco de a associação desaparecer?
H.B. – É o dilema que enfrentamos. Em 2020, pedimos aos sócios que apresentassem uma lista porque pretendíamos sair. Não iríamos abandonar a associação, mas queríamos deixar de a liderar. Ninguém se candidatou. 16 anos e meio já chegam. Assumi que este seria o último mandato e voltámos a pedir que se apresentassem sucessores, mas não houve uma única lista. Temos duas opções: ou acabamos com a associação ou alguém integra os corpos sociais. Estamos em gestão até ao fim de junho. Em julho faremos outra assembleia geral e veremos.

Como era a comunidade quando assumiu o cargo e como é agora?
H.B. – Não tem aumentado. Não posso precisar quantos somos, mas tenho ideia que rondamos os 50. Estou a basear-me na média que participa nas nossas iniciativas. Chegámos a ser perto de 150. Muitos já deixaram Macau e não chegam outros. A associação, que vai fazer 30 anos, foi fundada por esses que chegaram nos anos 80.

Que relevância tem a entidade em Macau?
H.B. – Tratando-se de um organismo independente – não oficial e de cariz político – somos importantes para congregar quem viveu em Moçambique e está cá. O fim primeiro da associação é o de mostrar a Macau o que de bom existe no país porque o mau já os jornais se encarregam de apresentar. Desconhecia-se a Lusofonia: as praias, a música, a gastronomia, pintores e escritores, cinema. Conseguimos mostrar a cultura moçambicana ao longo de 16 anos e meio. É por isso que é tão importante que estas associações existam e daí a nossa luta para que esta não morra.

Macau quer ser a plataforma entre a China e os países lusófonos. Considera que tem conseguido cumprir esse papel?
H.B. – Penso que pouco a pouco o Fórum vai conseguindo cumprir, pelo menos no que respeita à cultura e a Semana Cultural comprova-o. Há a intenção de que a China conheça mais da Lusofonia através do evento, no qual também está integrada. Nas outras vertentes – comerciais, económicas e de negócios – espero que vão tentando. Claro que há muito caminho a percorrer. Depende sempre muito do trabalho que os delegados façam no Fórum.

Mas a Lusofonia não cobria já essa componente de divulgação cultural?
H.B. – Sim, mas na Semana Cultural aparecem representantes oficiais desses países. Na Lusofonia isso não acontece.

O que falta a Macau para ser neces sário na relação sino-lusófona?
H.B. – Macau é importante porque o Fórum está cá, mas o que pergunto é se os contactos não são feitos diretamente entre Pequim e a Lusofonia? O que é feito aqui está a beneficiar os países? De que forma? Temos pouco conhecimento de como está a servir as comunidades. O Fórum Macau e os delegados existem para beneficiar os países-membros e não propriamente Macau. Falta saber em concreto como o Fórum os beneficiou. As comunidades têm de saber mais sobre este aspeto. O que ganham estes povos pelos seus países estarem aqui representados? A China apoia, mas penso que o faz diretamente.

A comunidade moçambicana foi sempre bem acolhida em Macau?
H.B. – Foi. Os moçambicanos que cá estão têm os seus empregos, estão integrados e não vivem isolados.

A pandemia e as medidas para a combater têm levado à saída de muita gente, sobretudo estrangeiros. Sucede o mesmo com a comunidade moçambicana?
H.B. – Não. As pessoas de origem moçambicana foram-se embora porque se reformaram. A pandemia veio prejudicar-nos noutros pontos, mas não contribuiu para o êxodo.

A China está cada vez mais presente nos Países de Língua Portuguesa. Como é visto o investimento chinês em Moçambique?
H.B. – Há sempre críticas quando há investimento estrangeiro num país. Sabemos que ao nível do Governo é bem visto, incluindo porque Pequim tem investido muito em infraestruturas e tudo o que ajude a população é acolhido.

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E que críticas são essas?
H.B. – Fala-se muito da exploração da madeira e da pesca [Relatórios nacionais e internacionais têm indicado que Moçambique está a ser alvo de crimes ambientais]. Há fortes críticas sobre isso. Mas o que sei é a partir da imprensa. Há que fazer um balanço sobre os prós e os contras.

Voltando à associação, porque acha que está a ter tantas dificuldades na sucessão?
H.B. – É muito difícil assumir uma responsabilidade destas. É complicado organizar a Lusofonia e a Semana Cultural, por exemplo, e os sócios sabem disso. Desde 2020, todas as associações estão com problemas por causa da pandemia. Não conseguem trazer artistas, nem produtos locais. Temos de contar com aquilo que conseguirmos arranjar em Macau. Fizemos a Lusofonia no ano passado com cinco pessoas a trabalhar. É difícil, mas estou em crer que em julho vamos conseguir resolver esse problema. Não obstante, muitos dos membros com quem falámos garantem apoio só neste mandato.

O que a fez aceitar o cargo e manter-se tantos anos?
H.B. – Em 2002, não havia ninguém de Moçambique para organizar a Lusofonia. Trabalho no Instituto para os Assuntos Municipais, entidade que organizava a iniciativa, e perguntaram-me se podia reunir a comunidade. Foi assim que começou. Em 2003, com a criação do Fórum Macau e já com a ideia de se criar a Semana Cultural, foi decidido que só seria atribuído um subsídio às comunidades com associações e resolvemos reativar a que tinha existido sob pena de não estarmos na Lusofonia. Mantivemo–nos nos cargos a pedido dos sócios e um pouco acreditando na máxima de que ‘em equipa que ganha não se mexe’. Estou com esperança de que não se vai deixar morrer a associação.

Porque decidiu deixar a associação agora?
H.B. – Já não era suposto recandidatar- me, mas como não apareceu uma lista resolvemos continuar. Será o último. Sabia que este ano tinha de tratar da minha reforma e isso obrigava-me a sair de Macau, além de coincidir com o fim do mandato. É por isso que em 2020 já queríamos ter uma lista, para evitar os problemas que enfrentamos agora. Não queria continuar, mesmo que permanecesse em Macau.

Vai deixar Macau?
H.B. – Estou aqui há 37 anos e claro que deixo a cidade com pena. Passei grande parte da minha vida aqui. Vai deixar saudades, mas fica esta vivência com a comunidade. A vida é feita de fases.

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