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Dívida à China? Todos os grandes países têm dívida, a diferença é que Angola agora consegue pagar

Gonçalo LopesGonçalo Lopes

A China é, neste momento, um dos principais parceiros económicos de Angola. E é também por isso que todos os anos a dívida deste país africano tem crescido. Agora, contudo, os milhões devidos são mais fáceis de pagar. Quem os diz são alguns especialistas ouvidos pelo PLATAFORMA, que apontam o conflito na Ucrânia como um fator ‘positivo’ para o possível crescimento económico de Angola. Contudo, também deixaram alguns alertas

Angola deve cerca de 18 mil milhões de euros à China e é o país do mundo em que a dívida a este gigante asiático tem mais peso. Um valor astronómico, mas dentro de um cenário bem diferente daquele que poderia ser há duas décadas, quando a China se tornou um grande ‘aliado’ do Governo angolano. Se a dívida é muito grande, a capacidade de pagar por parte de Angola também cresceu bastante, sobretudo depois de várias reformas por que o país passou recentemente.

A China tem desempenhado um papel muito importante na reconstrução de infraestruturas em Angola desde o final da guerra civil, concretamente em 2022, financiando grande parte dos mesmos. A forma de pagamento contratualizada desde então permitiu que a China tivesse recebido até hoje quase metade da produção anual de petróleo e os analistas dizem que assim irá continuar a acontecer, até porque o recente conflito entre a Ucrânia e a Rússia também beneficiará o Governo angolano.

“A dívida quase que ultrapassa 30 por cento do PIB de Angola, mas a verdade é que o Governo tem uma grande oportunidade nos próximos tempos de reduzir uma grande parte da mesma. Neste momento, devido à guerra, e à oscilação de preços, para cima, temos uma grande hipótese de entregar mais barris de petróleo a um preço superior. Ou seja, se há alguns meses abatíamos X dólares por cada 100 barris, esses mesmos 100 barris agora valem muito mais, devido ao conflito”, começou por dizer o economista angolano Carlos Padre.

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É verdade que o conflito vem assim ajudar a economia angolana, mas também não deixa de ser verdade que desde há alguns anos que essa economia tem-se fortalecido. O cenário atual é bem diferente daquele de há duas décadas e são vários os dados que apontam para que Angola cresça de forma sólida este ano, ainda que não dê para compensar os último anos de recessão, sobretudo devido à queda dos preços do petróleo e ainda à pandemia da Covid-19.

“É um panorama bastante diferente, é verdade. O país neste momento está a crescer do ponto de vista económico. Ou melhor, não tem muitas oscilações, tem-se mantido estável. Os fatores externos também têm ajudado imenso, sobretudo o facto dos preços dos petróleo estarem melhores do que algumas vez esperávamos. As reformas feitas desde 2017 também foram essenciais, como a liberalização cambial, o IVA, as tributações e os cortes na despesas. Foi uma fase dura, mas que agora provou ser a mais correta”, assinalou o especialista económico, que, ainda assim deixa um alerta, no seu entender, mais preocupante que a atua dívida.

“Dívida todos os países têm, até os maiores, como os Estados Unidos. Qual a diferença? É que os Estados Unidos vão conseguindo pagá-la. E, felizmente, o que acontece agora em Angola também é bastante diferente daquilo que acontecia há alguns anos. Com maior ou menos dificuldade, Angola agora consegue também pagar as suas dívidas. Por isso considero que há outros aspetos mais importantes para o crescimento sustentado do país, nomeadamente a criação de empregos”, referiu, dando depois exemplos do que o Governo poderia fazer no panorama atual com a guerra na Ucrânia.

“O excedente resultante do aumento do preço do petróleo deveria ser canalizado para o Fundo Soberano e para o Banco de Desenvolvimento para financiar outros
setores da nossa economia. É muito importante que façamos com que outros setores cresçam. Se usarmos o excedente apenas para pagar dívida, essa será uma má política orçamental. Se os acordos estão estabelecidos, antes deste mesmo excedente, este dinheiro tem de servir para fazer com que entre ainda mais dinheiro. Investir para colher no futuro”.

Mais-valia de 50 por cento no barril

No início do presente ano, o Governo angolano elaborou um orçamento que calculou o preço do barril de petróleo em 59 dólares. Pois bem, com a guerra da Ucrânia esses valores crescerem em 50 por cento. Conclusão, neste momento, como o economista Carlos Padre referiu, haverá um excedente, o que fará com que haja uma receita extraordinária para os cofres do estado. E com isto vem depois também a confiança dos investidores.

“O petróleo abre muitos caminhos. Se os preços favorecem o país, então ainda melhor. É verdade que temos uma dívida astronómica à China que é paga em petróleo e as oscilações de preços podem não traduzir o que está nos contratos com esses país, mas Angola ficará sempre a ganhar mais. Além disso, se o país cresce, há mais investimento. Seja de investidores angolanos, seja do exterior. É um momento bom para Angola, mas para isso há também que arranjar melhores condições económicas e de infraestruturas para que esses mesmos investidores queiram vir para Angola, não basta pensar apenas que o petróleo faz milagres, até porque há ainda alguma incapacidade de Angola aumentar rapidamente a sua produção, sendo que depois o custo orçamental dos subsídios aos combustíveis vai também aumentar ”, afirmou o angolano Ulisses Santos, analista financeiro da Capital Economics.

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Se o preço do petróleo é agora um grande aliado de Angola e do seu Governo, Ulisses Santos salienta que isso não acontecerá para sempre e que outros medidas têm de ser pensadas. “A que da preço do petróleo nos últimos anos foi um grande pesadelo para o país. E se nessa altura foram pensadas e realizadas várias reformas no país, o Governo tem agora uma ainda maior oportunidade de pensar o que vai fazer, com esta almofada financeira que não estava prevista. Mas tem de pensar rápido, dado que os preços do petróleo dificilmente ficarão dentro destes valores durante muito tempo. Tem ajudado, tem feito com que o kwanza tenha registado um excelente desempenho desde o início do ano face ao dólar, as agências de rating têm também favorecido Angola, e é isto que o Governo tem de aproveitar. Aproveitar este momento para crescer ainda mais e não ficar à espera de melhores notícias”, concluiu.

Ministra quer abater a dívida

Com mais ou menos dinheiro, a verdade é que a ministra das finanças de Angola, Vera Daves de Sousa, revelou que o objetivo de Angola passa mesmo por reduzir a dívida à China.

“Esta dívida começará a diminuir progressivamente e os pesos mudarão em resultado desta amortização”, salientou a ministra no início do mês de março, referindo também que em tempos houve alguma “indisciplina orçamental” no e salientou a necessidade de “procurar as soluções financeiras menos dispendiosas possíveis (…), ajudando o PIB a crescer”.

“O endividamento é normal e temos vindo a reparar que ano após ano as necessidades brutas de financiamento diminuem. Assim, o grosso é basicamente refinanciarmo-nos, utilizando diferentes alternativas, como financiamento multilateral, o Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento, a Agência Francesa de Desenvolvimento, financiamento de instituições financeiras, financiamento comercial com as melhores condições possíveis”, revelou.

Pagar juros e amortizar empréstimos

Um recente estudo da universidade chinesa Fudan abordou a dívida de Angola a este país do Oriente. Aliás, foram mesmo ao ponto de salientar que Angola irá destinar quase 5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) para pagar juros e amortizar empréstimos contraídos anteriormente a entidades chinesas.

O estudo da Fudan mostrou também que, ao todo, os países mais pobres do mundo vão pagar, este ano, cerca de 13,7 mil milhões de dólares (12,4 mil milhões de euros) a credores chineses, ou 26 por cento do conjunto do serviço da dívida destes países.

O relatório, tornado público no passado mês de março, referiu que o montante dos empréstimos da China aos países em desenvolvimento só é superado pelo da Associação Internacional de Desenvolvimento do Banco Mundial.

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