Microcosmos

Microcosmos

Há uns 20 anos estive no primeiro Big Brother Famosos, entrei a meio do programa e mantive-me até ao final. Foram 33 dias que pareceram 33 semanas. Conhecia pessoalmente um concorrente, alguns de vista, outros nem sabia quem eram. Se não fossem três livros, o máximo permitido, e uma viola que exigi levar para tentar manter a sanidade, sairia pelo meu pé ou enlouqueceria antes do término. Cada pessoa tem o seu limite e embora ganhando uma fortuna à semana não há dinheiro que pague a liberdade, garanto-vos. Ainda assim foi uma experiência psicológica incrível. O isolamento era total, sem o mínimo contacto exterior. As câmaras que sabemos estarem lá, em duas semanas “deixam de estar”, perdem importância, habituamo-nos à sua presença, à permanente vigilância, aliás habituamo-nos a tudo, somos deveras perigosos para nós próprios. É difícil explicar o fenómeno a quem nunca se encasulou por completo, direi somente que o espaço onde nos encerramos transforma-se no cosmos. Carl Sagan definiu cosmos como “tudo o que já foi, tudo o que é e tudo que será”, então pouco importa se as fronteiras são a galáxia, a Terra, o país ou a porta de casa, o cosmos de cada um representa para ele a vida no todo.

Desligámo-nos completamente do universo exterior à casa, perdemos a noção do tempo, mesmo porque não havia relógios. O ritmo biológico baixou, os dias quedaram-se enormes, infinitos. Isto dá-se, percebi eu depois, pela ausência de informação. Não damos conta que o encontro com uma pessoa fora do nosso meio, uma novidade externa, um simples ruído estranho constituem informação, e ela liga-nos ao mundo, acelera o tempo. Sem nenhum destes estímulos, um dia goza do tamanho de uma semana. A falta de informação associada à reclusão traz outra consequência: perde-se a memória recente. Em três semanas esqueci-me de coisas triviais, reparei que se me esfumaram códigos, palavras-passe e outro tipo de tralha que carregamos diariamente, cheguei ao ponto de não conseguir lembrar o nome de um amigo, figura habitual do meu quotidiano; gastei uma manhã num sofrido exercício mental para relembrar. Um ano fechado neste sistema e talvez me esquecesse do meu nome, somos mesmo perigosos para nós próprios… Efectivamente isto são bengalas que usamos no dia-a-dia tipo software, não precisamos de guardar no hardware, entretanto esfumam-se do sistema se não forem usadas; como sempre tive dificuldade em fixar nomes foi aí que o varrimento actuou logo. Quanto mais tempo isolado mais piora, e constatei que as memórias verdadeiramente importantes são as que se guardam no hardware, em geral as mais antigas, se não se alojaram lá é porque não as consideramos importantes. Prova-me também a extrema importância da formação do ser humano na infância e juventude.

Sou um baby boomer, desde miúdo sonhava ser astronauta e sei que as viagens espaciais implicam longos períodos de isolamento. Saber é diferente de experimentar. Viver alienado de tudo com estranhos foi igual a viajar no espaço, envolver-me numa realidade alternativa, ou estar dentro de um videojogo comandado de fora, como queiram. Sempre que alguém era excluído saía através de uma antecâmara protegida por uma porta para o interior da casa e outra para o exterior, tal e qual uma câmara de despressurização de uma nave espacial. Subitamente um concorrente desaparecia das emoções diárias, nunca mais o víamos ou ouvíamos, transmitindo a sensação de que tinha falecido, facto realçado pela galeria de fotos dos expulsos em cima de uma mesa. Com efeito sentíamo-nos perdidos e a casa assemelhava-se a uma nave de ficção científica à deriva, ao género Espaço 1999 ou Lost in Space. Alguém morria, o corpo era ejectado para o espaço, e umas horas depois a “voz” mandava-nos ir à câmara de descompressão buscar a sua foto que colocávamos em cima da mesa. Imaginávamos que essa pessoa fosse feliz no além, o sumiço tinha o impacto de uma morte, porém a vida continua. De vez em quando escutávamos dentro das paredes ruídos de câmaras a rolar na rede de carris ao redor da casa, e mais raramente uma ou outra voz de um técnico. Malgrado fossemos nós os reclusos, esses sons soavam-nos a fantasmas aprisionados noutra dimensão. O mundo é aquele em que vivemos, fora dele é especulação, fantasia.

Restringidos a um universo tão exíguo e intenso, frequentemente um garfo sujo, uma palavra mal medida eram motivo de exaltadas discussões, como se estivesse em jogo o futuro da humanidade. É difícil escapar à dinâmica contudo jamais me envolvi nela devido a lutar permanentemente por manter a perspectiva. Esse esforço tem um preço, o cansaço, e inferi que se durasse mais uma semana explodia. Passei a ter o recorrente sonho de saltar o muro e fugir apenas para estar com amigos num café. No desfecho do programa saí acompanhado de dois finalistas e precisei de uma semana para encarrilhar no ritmo normal. Podem chamar-lhe uma realidade distópica no entanto naqueles 33 dias foi a nossa, bem real.

Várias analogias são admissíveis, prisão, manicómio, mosteiro… A experiência neste programa mostrou-me que exceptuando a absoluta falta de contacto exterior, o mundo hoje equipara-se a um Big Brother. Podem não notar que a realidade se tornou distópica mas é. Fazendo fé em Shoshana Zuboff, psicóloga social e filósofa, vivemos na Erado capitalismo da vigilância. E o que é o capitalismo da vigilância? “Uma nova ordem económica que recorre às tecnologias digitais para se apropriar da experiência humana e usá-la de forma encoberta como matéria-prima em práticas comerciais de extracção, previsão e venda”. Cedemos dados, expomos os nossos gostos e tendências, permitimo-nos ser perscrutados, divididos, catalogados, vigiados em permanência, enquanto os gigantes do digital nos roubam a liberdade, a identidade, a decência; somos todos participantes do Big Brother sem darmos conta disso. O reality show teve por base um contrato que julgo ter sido claro, sem letras pequeninas, agora estes à escala global são duvidosos, ganham fortunas colossais e não nos pagam nada.

Continuo a esforçar-me por manter a perspectiva, não considero especificamente dirigida à minha pessoa a inusitada animosidade que existe actualmente, ela atinge tudo e todos. Os sucessivos confinamentos e dificuldade de movimentação reduziram o universo ao microcosmos de cada um. A falta de contacto físico com pessoas e realidades diferentes vai-nos tornando mesquinhos e conflituosos, desconfiados de tudo, não é à toa que o turismo se designa a “indústria da paz”. Estamos psicologicamente no ponto para aderir ao conflito, prestamos atenção a quem o promove, engajamo-nos acaloradamente em qualquer discussão seja por assuntos relevantes, um garfo sujo ou uma palavra mal medida. A confusão mental, um sintoma já associado ao coronavírus, não resulta somente da sua acção directa no organismo; o apagamento da memória acontece quando nos apartamos do contacto físico, insensibilizando-nos ao ver ao vivo toda a gente uniformizada de máscara, e nas notícias a fazer testes em pavilhões ou tendas de campanha, a tomar vacinas, a sermos inundados por números e estatísticas aos quais vamos ganhando indiferença. O nosso cosmos hoje é só isto, a bolha individual de cada um, fora dele é especulação, fantasia, chega-nos via digital, soa a fantasmas aprisionados noutra dimensão. Para o neurocientista Michel Desmurget que avalia os efeitos nefastos da excessiva exposição dos mais jovens aos ecrãs “os nossos filhos são a primeira geração a ter um QI inferior ao dos pais”. Segundo ele “a indústria global do digital aprisiona e diminui, e o défice é tão forte que parece representar uma ameaça à democracia”. Porque é importante a formação do ser humano na infância e juventude andamos por conseguinte a criar memórias de escravos em seres diminuídos…  

Podia apresentar vários exemplos da recente animosidade que sinto no ar, impulsionada pela alienação, vigilância e encolhimento das nossas vidas; contarei um para não me alongar. Um dia estava sozinho numa esplanada, chegou um indivíduo, deu-me as boas tardes e respondi ao cumprimento. Momentos depois ouço um berro “boa tarde!” e vi-o ao pé de mim em pose ameaçadora. Alterei-me, confesso, e bastante irritado perguntei-lhe qual era o seu problema uma vez que lhe respondera. Desfez-se em desculpas, disse que não ouvira. Já apanhei quem não se retrate por outras agressões, quem não consiga sequer explicar o móbil da ofensa, e não me recordo de alguma vez ser um padrão recorrente; não é só comigo, observo igual à minha volta. Qual era a ideia deste, ensinar-me civilidade ao soco? Quem transita instantaneamente de um estado de agressor para vítima por causa de uma insignificância? Decerto um desequilibrado ou que vive numa bolha microcósmica. E se por alguma razão não lhe tivesse respondido, seria caso para se insurgir desta maneira? Estive sentado mais algum tempo e quando me levantei senti-me coagido a despedir-me, não fosse eu acrescentar insulto à injúria. Dirigi-lhe um meio sorriso embrulhado num claro “então boa tarde”, e sim, escutei bem, não me respondeu, talvez por estar absorvido no telemóvel, quem sabe?…

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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