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Macau procura inovadores

O segundo plano quinquenal de Macau aposta nas novas tecnologias para diversificar a economia. Mas quem trabalha com inovação diz que são ainda poucos os jovens a explorar carreiras alternativas e que a pandemia de Covid-19 desencorajou o empreendedorismo. 

Quando os estudantes do ensino secundário de Macau visitam o Laboratório de Referência do Estado para a Ciência Lunar e Planetária da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa), André Antunes ouve a mesma questão. 

“Há sempre muito interesse de tentar saber mais sobre o contributo que Macau tem dado para a exploração espacial chinesa”, disse o investigador ao PLATAFORMA, um dia antes da segunda equipa – incluindo a primeira mulher – ter chegado à estação espacial Tiangong. 

Leia mais sobre o segundo plano quinquenal de Macau em: Desenvolvimento urbano em Macau pouco claro

Também o Laboratório de Referência do Estado em Circuitos Integrados em Muito Larga Escala Analógicos e Mistos da Universidade de Macau (UM) recebe regularmente visitas de liceus locais. 

“Eu explico-lhes que têm emprego garantido em qualquer parte do mundo”, incluindo na Região da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, disse ao PLATAFORMA Rui Martins, o diretor do laboratório. 

Mas isso não tem sido suficiente para atrair os jovens locais. 

O laboratório da MUST tem “alguns membros que são de Macau. Infelizmente não temos mais porque é uma área que, mesmo na China, ainda não tem muita tradição”, explica André Antunes. 

André Antunes: “Conheço casos de pessoas de Macau que trabalham a nível de ciências planetárias, que foram para fora, e o difícil é aliciá-los a voltar” 

Pelo contrário, 60 por cento dos dirigentes e investigadores do laboratório da UM são de Macau, sublinha Rui Martins. Ainda assim, quase todos foram formados durante a primeira década do laboratório, até 2002, quando a cidade ainda não era dominada pelo jogo. 

O aumento da utilização dos circuitos integrados, mais conhecidos por ‘chips’, em todo o tipo de aparelhos e equipamento, fez disparar a procura por especialistas em todo o mundo (ver caixa). 

A UM recebeu mais de 100 candidatos para os dois mestrados em microeletrónica lançados no mês passado. “Começámos com 40 alunos, mas para o ano devemos duplicar esse número”, diz Rui Martins. 

Mas quase todos os candidatos vieram do Interior da China e em particular da Grande Baía. “Só três ou quatro são de Macau”, lamenta o diretor do laboratório, situado no campus da UM, em Hengqin. 

Leia mais sobre Hengqin em: “Hengqin é a plataforma para a diversificação económica”

Ele acredita que os jovens locais preferem carreiras que lhes garantam um emprego em Macau. “Nesta área, as oportunidades estão aqui, em Hengqin e na Grande Baía”, diz Rui Martins, que recorda que a gigante tecnológica Huawei tem a sede em Shenzhen. 

Já André Antunes acredita que os residentes de Macau estão habituados a ir estudar no exterior. 

Aliás, um jovem interessado em Ciência Lunar e Planetária tem mesmo de ir para fora, uma vez que a cidade não tem uma licenciatura nesta área. Há o perigo, no entanto, dos talentos locais não quererem regressar. 

San Choi: “Durante a pandemia, e especialmente nos meses mais recentes, as pessoas agarram-se mais ao emprego que têm, são mais cautelosas” 

“Conheço casos de pessoas de Macau que trabalham a nível de ciências planetárias, que foram para fora, e o difícil é aliciá-los a voltar. Uma pessoa faz carreira fora, constitui família, assenta raízes e acaba por ter alguma resistência mental”, diz o investigador. 

Cautelas de pandemia 

A diversificação da economia é uma das prioridades do Segundo Plano Quinquenal de Desenvolvimento Socioeconómico de Macau (2021-2025), que está atualmente em consulta pública. 

O documento aposta em áreas como a medicina tradicional chinesa, serviços financeiros, o comércio – nomeadamente de diamantes em bruto –, convenções e exposições, cultura e desporto. 

Leia mais sobre o segundo plano quinquenal de Macau em: O plano é abrir em 2023, mas pouco se sabe sobre o novo hospital do Cotai

Outra prioridade são as “tecnologias novas e avançadas”, com a ajuda do Centro de Inovação e Empreendedorismo da UM e do Centro de Incubação de Negócios para os Jovens de Macau (MYEIC, na sigla inglesa). 

A juventude local “tem o impulso para ser empreendedora, mas não é um caminho fácil”, disse ao PLATAFORMA San Choi, diretora adjunta do Departamento de Serviços Integrados do MYEIC. 

Antes da Covid-19, “facilmente conseguiam encontrar um emprego estável a rondar as 20 mil patacas”, lembra a responsável. Em 2019, o salário mediano em Macau atingiu 17 mil patacas, segundo a Direção dos Serviços de Estatística e Censos

San Choi, diretora adjunta do Departamento de Serviços Integrados do MYEIC

Mas isso era numa altura em que a taxa de desemprego entre os residentes de Macau não passava de 1,7 por cento. Na primeira metade de 2021, o desemprego chegou a 3 por cento, apesar da cidade ter perdido 16.800 trabalhadores não residentes. 

“Durante a pandemia, e especialmente nos meses mais recentes, as pessoas agarram-se mais ao emprego que têm, são mais cautelosas”, explica San Choi. Alguns continuam a tentar lançar o seu próprio negócio, mas mantêm um trabalho a tempo inteiro, acrescenta. 

Atualmente estão inscritas 60 start-ups no programa de incubação do MYEIC. “Todos os dias temos mais de 40 pessoas a trabalhar aqui no centro”, diz a responsável. 

Desde que foi inaugurado, há quatro anos, o MYEIC recebeu mais de 300 candidaturas, tendo aceitado mais de 200. Mas 2020 ficou marcado por “um declínio óbvio” no número de interessados, uma tendência que se acentuou este ano, diz San Choi. 

Além da pandemia, a dirigente aponta como a mudança, em abril, dos requisitos da Direção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico, nomeadamente o limite de 45 anos de idade. 

“Até julho, tivemos de rejeitar mais de 10 candidatos porque não reuniam os requisitos”, lamenta San Choi. Alguns tinham mais de 45 anos e queriam lançar o seu próprio negócio após terem perdido o emprego devido à crise económica, acrescenta. 

Mas nem tudo são más notícias, sublinha a responsável do MYEIC. Start-ups de educação através da Internet, máquinas de vendas automáticas, marketing digital e logística têm tido sucesso durante a pandemia. 

O centro já incubou três plataformas de entrega de comida. Uma delas, a Aomi, garantiu na semana passada uma injeção de 4,5 milhões de dólares (36,1 milhões de patacas), através de uma listagem no mercado norte-americano de valores. 

A maioria dos empreendedores “têm os olhos grandes”, diz San Choi, e está já a pensar em expandir para as cidades vizinhas. “A pandemia fez as pessoas pensar em vez de ficarem sentadas à espera dos turistas”, diz. 

Caixa: 

A guerra dos chips 

Estados Unidos, Índia, Brasil e a União Europeia são apenas alguns dos mercados que já anunciaram planos para começar a produzir chips. 

Isto após a pandemia de Covid-19 e uma seca no principal produtor, Taiwan, terem levado a uma escassez de chips que obrigou fábricas de automóveis de todo o mundo, incluindo em Portugal e no Brasil, a parar ou a reduzir a produção. 

Também a China quer reduzir a dependência do exterior no que toca aos chips, diz Rui Martins, numa altura em que alguns grupos chineses, incluindo a Huawei, ainda enfrentam restrições impostas pelos Estados Unidos no fornecimento de tecnologia. 

Macau quer ter um papel neste movimento. O Instituto de Investigação Científica e Tecnológica da UM em Zhuhai, inaugurado em 2019, tem ajudado o laboratório a colaborar com empresas da Grande Baía. 

Só no ano passado estes projetos atingiram um valor total de 14 milhões de yuan (16,2 milhões de patacas). “Este ano isso vai-se intensificar”, prevê Rui Martins. 

Mas o Vice-Reitor acredita que o ponto de viragem só acontecerá quando for possível atrair para Hengqin empresas de topo chinesas na área da eletrónica. “Algo que eu já ouvi que é possível, mas que vai levar tempo”, diz. 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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