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Cabo-verdianos festejam Cabral e Coutinho com mornas e cachupa

Sandra Moutinho

O centenário do voo histórico de Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que se assinala em 2022, vai ser comemorado pela comunidade cabo-verdiana em Portugal com muita música, dança e gastronomia e a promoção do feito junto das escolas

Ildo Ramos Fortes, um dirigente associativo cabo-verdiano e investigador da história da aviação civil em Cabo Verde, faz parte da equipa que está a dinamizar a celebração do centenário no arquipélago, mas principalmente junto da comunidade em Portugal.

Em entrevista à agência Lusa, este elemento da associação Lusitânia 100, uma organização que pretende invocar a primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul (TAAS), unindo os países de língua portuguesa, garantiu que a festa vai ser forte e mostrar o que de melhor a cultura cabo-verdiana tem.

Para Ildo Ramos Fortes, Cabo Verde teve um papel determinante nesta travessia, sendo a partir da ilha de Santiago que se realizou o mais longo e desafiante percurso de 1.682 quilómetros, que terminaria, 11 horas e 21 minutos depois, no Brasil (Penedos).

“Somos um país no Atlântico. Primeiro fomos importantes na rota marítima, a partir das descobertas das nossa ilhas, em 1460, pelos portugueses. Infelizmente, Cabo Verde participou também nessa maior vergonha que conhecemos que é o comércio da escravatura”, disse.

Com o passar dos anos, acrescentou, e “tendo em conta a importância geoestratégica de Cabo Verde no mundo”, Cabo Verde passou a ser “uma passagem obrigatória para os continentes”.

O dirigente associativo gostava de ver este feito pioneiro de Sacadura Cabral e Gago Coutinho mais divulgado nas escolas e quer este propósito concretizado durante as celebrações do centenário.

“As pessoas que nasceram até aos anos 70 estudaram no currículo escolar do ensino básico e secundário Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Mas, com o andar dos anos, fomos deixando de dar importância, do ponto de vista histórico, desse acontecimento e esquecemos que foi graças à travessia aérea de 1922 que Cabo Verde foi inserido no circuito internacional em termos de aviação”, sublinhou.

É por todas estas razões que Ildo Ramos Fortes aposta numa comemoração que leve em conta três aspetos: educação, cultura e cidadania.

No que diz respeito à educação, o objetivo dos dinamizadores passa por mostrar, sobretudo à geração mais jovem, “a importância da travessia, não só do ponto de vista político, mas também económico”.

“Apostamos nas escolas do ensino básico, secundário e ao nível das universidades de Cabo Verde e portuguesas para promovermos o intercâmbio entre jovens destes países”, referiu.

A preparação das celebrações do centenário inclui ainda a produção de conteúdos pedagógicos para consulta em Cabo Verde.

“Já estamos a trabalhar nesses conteúdos, do ponto de vista pedagógico e científico, com as duas universidades – a Universidade Técnica do Atlântico (São Vicente) e a Universidade de Santiago, na ilha de Santiago. Essas universidades já nomearam professores para trabalharem connosco na produção de conteúdos para divulgação”, indicou.

No final deste trabalho, os alunos terão à disposição manuais, ou separatas para incluir nos manuais, com informação sobre esta travessia e documentos para consulta, como o relatório da viagem, classificado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como Património da Humanidade.

“Nos próximos anos haverá conteúdos pedagógicos, em função do grau de ensino em Cabo Verde, para dar a conhecer este feito tão importante da história”, assegurou.

Em termos culturais, e com a celebração a abranger não só o território de Cabo Verde, mas também a diáspora, nomeadamente em Portugal, será chamada a música, “base cultural de Cabo Verde e Portugal”.

Cabo-verdianos festejam Cabral e Coutinho e “Essa celebração vai ser transversal à diáspora”, disse, acrescentando: “Vamos chegar à nossa comunidade emigrada através da divulgação deste importante acontecimento, com esses elementos importantes que são a música e a gastronomia cabo-verdianas”.

A primeira TAAS começou às 06:45 de 30 de março de 1922, a partir da rampa do Centro de Aviação Naval, na Doca do Bom Sucesso, em Lisboa.

Os dois aventureiros, que já tinham trabalhado juntos em África, destacando-se no seu trabalho que perdura até hoje, utilizaram três aviões e pararam em Las Palmas (Canárias) e São Vicente (Cabo Verde), antes de atingirem o Brasil, no chamado “grande salto”, que durou 11 horas e 21 minutos.

Ao todo, Sacadura Cabral (piloto) e Gago Coutinho (navegador) percorreram 4.527 milhas náuticas (8.484 quilómetros), em 62 horas e 26 minutos.

Chegaram a Cabo Verde (São Vicente) em 05 de abril, de onde partiram 12 dias depois rumo à ilha de Santiago. Um dia depois voaram para o Brasil, atingindo Penedos.

Nesta viagem histórica, os pioneiros utilizaram três hidroaviões: Lusitânia, Portugal e Santa Cruz, este último ainda visitável no Museu da Marinha, em Lisboa.

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