Estudantes brasileiros impedidos de regressar à China

Estudantes brasileiros impedidos de regressar à China

Wagner Lacerda Dantas está há 18 meses exilado no Vietname sem poder retomar os estudos em Wuhan, na China. Ele foi um dos 27 brasileiros a ganhar uma bolsa de Pequim no mês passado, mas, devido à covid-19, as fronteiras chinesas devem permanecer fechadas até 2022

A 14 de janeiro de 2020, Wagner Lacerda Dantas voava para o Vietname, na expetativa de passar duas semanas de férias antes de regressar a Wuhan, onde estava a meio de um ano de estudos de mandarim avançado.

Na capital da província de Hubei, começavam a surgir notícias sobre um novo coronavírus. “Já se falava em usar máscaras, mas nem todo o mundo estava dando muita bola, principalmente os estrangeiros”, recorda o estudante brasileiro ao PLATAFORMA.

Uma semana depois, a 23 de janeiro, as autoridades chinesas impuseram um duro confinamento aos 11 milhões de habitantes de Wuhan para tentar conter o surto de covid-19, que já começava a ser detetado fora da China continental.

“Não imaginava que ia ser uma pandemia global e que ia ferrar com a vida de tanta gente”, diz Wagner. O covid-19 já provocou mais de 4 milhões de mortos em todo o mundo, resultantes de mais de 187 milhões de casos de infeção.

No início, o brasileiro sentiu-se um homem de sorte. Enquanto acompanhava ao longe a evolução do combate à pandemia na China, Wagner conhecia melhor a família da namorada vietnamita, também estudante de mandarim em Wuhan.

O regresso a casa não era uma hipótese. “O gasto das passagens é muito alto, o covid-19 estava já matando milhares de pessoas no Brasil e pensei que se eu volto, é mais difícil de voltar para a China”, explica Wagner.

A maioria dos brasileiros que estudavam em Wuhan preferiu voltar ao Brasil, alguns num voo de repatriamento da Força Aérea Brasileira a 8 de fevereiro. “Tem uns que se arrependem amargamente”, diz Wagner.

Hoje também ele se arrepende de ter saído da China e diz que foi “por azar, na verdade. Eu queria estar lá agora porque teria feito mais coisas”, confessa o brasileiro. “Mas não fico triste porque aqui é um ‘baita’ país e fui muito bem acolhido”.

A reabertura de Wuhan, a 8 de abril de 2020, emocionou Wagner, que começou a pensar em regressar à Universidade de Hubei. Mas “o meu visto de estudante não foi liberado mais”, lamenta.

Passado um ano e meio, o brasileiro continua em Hải Dương, no norte do Vietname, terra natal da namorada. É apenas um dos 440 mil estudantes estrangeiros à espera da abertura das fronteiras da China.

Boas-vindas mas não para já

Wagner foi um dos 27 brasileiros a receber em Junho bolsas de estudo do Governo da China para o ano letivo 2021/2022. Ele vai voltar a ingressar na Universidade de Hubei, desta vez para um mestrado em Comunicação.

Numa publicação nas redes sociais, o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, deu os parabéns aos bolseiros, a quem desejou “uma vida feliz na China”. “A China dá as boas-vindas a vocês”, acrescentou o diplomata.

Mas as portas continuam fechadas a cadeado. Após uma reunião por videoconferência com o adido cultural da Embaixada chinesa em Brasília, Shu Jianping, a 23 de junho, os bolseiros estão preparados para iniciar os estudos à distância, a partir de setembro.

O ministro-conselheiro “não nos deu nenhum comunicado oficial, porque nem as agências chinesas sabem como a situação está por lá, eles não se decidiram ainda”, disse ao PLATAFORMA Fábio Chao.

“Eu espero ir quanto antes, mas tudo indica que este ano não vai ser possível”, lamentou João Camarú. “Eles já sinalizaram que é praticamente impossível a gente conseguir ir” tão cedo, disse o bolseiro ao PLATAFORMA.

Ainda assim, acrescentou João Camarú, os diplomatas chineses “estão otimistas quanto ao ritmo de vacinação e que a qualquer momento pode ser revertido” o fecho das fronteiras.

A China já administrou 1,37 mil milhões de doses de vacinas contra a covid-19, mas apenas 223 milhões de pessoas têm a vacinação já completa.

Um outro bolseiro, Téo Faggin Pastor, admitiu ao PLATAFORMA que prefere “ser bem realista: só devo ir no ano que vem”.

Paulo Menechelli Filho foi ainda mais longe e pediu logo uma bolsa apenas para o semestre de Março a Julho de 2022. “Estava preocupado com este ano por causa das questões sanitárias”, disse o investigador ao PLATAFORMA.

Zhang Wenhong, líder da equipa de peritos em coronavírus de Xangai, disse no início de junho acreditar que a China poderia reabrir as fronteiras a países com elevadas taxas de vacinação e um baixo número de infeções já na primeira metade de 2022.

Mas a 22 de junho o diário norte-americano Wall Street Journal disse, citando fontes não identificadas, que o Conselho de Estado chinês tinha decidido, ainda em maio, manter as restrições fronteiriças pelo menos até ao verão de 2022.

Mensageiros de amizade

Na reunião de 23 de junho, Shu Jianping pediu aos bolseiros para “partilharem a amizade entre a China e o Brasil”. Já os estudantes prometeram “servir como mensageiros do intercâmbio amigável entre a China e o Brasil”, referiu a Embaixada chinesa em Brasília, num comunicado.

Este tipo de iniciativa devia ser reforçado, diz Wagner Lacerda Dantas, porque promove “uma troca cultural muito forte”. “Cada pessoa que vai para um outro país leva um pouco da sua cultura”, sublinha o analista.

Wagner quer estudar como melhorar as relações de comunicação entre os dois países, porque ele acredita que as notícias vindas da China chegam “muito distorcidas” ao Brasil, devido a barreiras linguística, culturais e políticas.

Por outro lado, o Brasil “ainda não gera muito interesse por parte do povo chinês”, confirma o académico. A imagem do país na China “ainda é muito sexualizada, tem muita mulher pelada, a dançar o samba no Carnaval”, lamenta.

Se no campo cultural ainda há muito por fazer, no que toca à economia a China é desde 2009 o principal parceiro comercial do Brasil, mercado onde o investimento chinês atinge já US$58 mil milhões.

João Camarú, por exemplo, pretende estudar na Universidade de Fudan, em Xangai, os investimentos chineses no setor energético na América Latina, mais concretamente em energias renováveis.

Mas o crescimento das relações comerciais e económicas não significa que não persistam obstáculos. As dificuldades jurídicas que as empresas chinesas enfrentam ao abordar uma fusão ou aquisição no Brasil serão precisamente o tema de estudo de Fábio Chao.

Na direção oposta, Téo Faggin Pastor irá dedicar-se na Universidade Tsinghua, em Pequim, à nova lei que regula o investimento estrangeiro na China, em vigor desde janeiro de 2020.

Há grandes empresas brasileiras já com uma presença forte na China, como a mineradora Vale, o Banco do Brasil, e a fabricante de calçado Alpargatas.

Mas o advogado acredita que o interesse em investir no mercado chinês vai aumentar assim que o Brasil retomar o crescimento económico.

Macau podia ter um papel muito mais relevante nas relações económicas e não só entre a China e o Brasil, disse ao PLATAFORMA Pedro Steenhagen. O também bolseiro lamenta que as ligações lusófonas da cidade, onde o português é língua oficial, seja “quase desconhecida” no Brasil.

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
Política

Blinken se reúne com chefe da OMS e demonstra apoio a investigação sobre origem da pandemia

LifestyleSociedade

Google e Facebook exigirão que seus funcionários sejam vacinados contra a Covid-19

MundoSociedade

Vacinados em áreas de alto risco nos EUA devem voltar a usar máscaras

EconomiaMundo

Metade dos adultos vacinados contra Covid na Europa, mas variante Delta ameaça reaberturas

Assine nossa Newsletter