Espécies estranhas invadem Macau

Espécies estranhas invadem Macau

Registou-se recentemente a presença de uma iguana-verde no Alto de Coloane e de tartarugas-aligator no Lago Nam Van e no Reservatório de Macau. Estes registos demonstram a presença no território de espécies animais estranhas à região. Funcionários do Instituto para os Assuntos Municipais conseguiram localizar e capturar as referidas espécies animais num curto espaço de tempo e alertaram a população para a ameaça que estas representam para o equilibro do ecossistema local. O biólogo Danny Leong em conversa com o PLATAFORMA esclarece que tanto a iguana-verde como a tartaruga-aligator não possuem predadores naturais em Macau e que a possível reprodução poderá impactar a biodiversidade local.

No entanto estes não são casos únicos. No passado foram já encontradas espécies animais estranhas à cidade. Em 2008, por exemplo, a formiga-de-fogo chegou à cidade “à boleia” de contentores. Em fevereiro deste ano foram encontrados lagostins marmoreados, e ainda este mês foi registada uma rã-touro-americana em território local. Para o biólogo, é praticamente impossível impedir a chegada de espécies estranhas à cidade. “Estas espécies entram no nosso ecossistema e são impossíveis de remover, possuem uma fisionomia que se adapta ao clima local e que pode ter um impacto nos organismos nativos da região”, alerta.

Espécies não possuem predadores naturais e conseguem assim reproduzir-se facilmente

A iguana-verde, de nome científico “iguana iguana”, é nativa à América Central e América do Sul. É um animal diurno, não-venenoso, que vive nas árvores. Na idade adulta pode chegar aos dois metros de comprimento e possui um tempo de vida que ultrapassa os 10 anos. O habitat natural comum situa-se perto de riachos e em florestas, e o animal alimenta-se maioritariamente de frutas e vegetais. As iguanas-verdes selvagens na idade adulta possuem poucos predadores, conseguindo assim reproduzir-se com relativa rapidez. Em apenas dois ou três anos atingem a maturidade sexual e as fêmeas conseguem pôr entre 40 a 50 ovos de uma vez. Uma vez que se espalhem pela natureza local, as espécies nativas irão sofrer, representando uma ameaça ao ecossistema de algumas áreas e afetando até a vida dos residentes. É crucial controlar este problema, removendo manualmente as espécies invasoras.

Leong explica que o clima de Macau é perfeito para as iguanas, as quais no passado já “invadiram” também Taiwan. “Podemos encontrar iguanas por todo o território de Taiwan, especialmente no Sul, onde o clima é semelhante a Macau, perfeito para esta espécie”, assinala.

Já as tartarugas-aligator foram encontradas em todos espaços de água artificiais existentes na cidade, apesar de nunca ter sido aprovada a importação da espécie pelo Instituto para os Assuntos Municipais. Com origem nas américas, estas tartarugas são uma espécie invasiva carnívora, de grande porte e agressivas, perseguindo e caçando as presas. Tal como as iguanas, não possuem nenhum predador no ecossistema local, e representam por isso, igualmente uma ameaça ao equilibro do ecossistema da região.

Já sobre a formiga-de-fogo, que invadiu Macau no passado, Danny Leong afirma que a espécie poderá deixar também um impacto negativo no ecossistema de terrenos cobertos de vegetação existentes no território, além da forte possibilidade de morderem e poderem magoar humanos, impactando também por isso com a vida dos residentes.

Segundo a “Lei de Proteção dos Animais”, aqueles que soltarem no território animais sem permissão legal sujeitam-se a multas entre as 20 mil e as 100 mil patacas.

O biólogo acredita que no âmbito da regulamentação destinada a animais de estimação, o Governo deve promover a aplicação de microchips em cães e gatos para impedir que estes se percam. Todavia, deixa no ar uma dúvida: “Se os residentes não forem capazes de criar os respetivos animais, poderá o Governo apresentar uma forma de esterilização e oferecer-lhes abrigo em parques públicos para que possam interagir com a população?”

Governo e população juntos para vigiar espécies invasoras

Quanto à presença de espécies estranhas a Macau, Danny Leong salienta que o Governo deve trabalhar em conjunto com a população para as manter sob controlo.

“Foi recentemente avistada na Colina da Ilha Verde uma tartaruga-de-orelha-vermelha, porém o caso não mereceu ainda a devida atenção. Caso seja verdade, esta espécie poderá trazer bactérias perigosas para a ecologia local. A ação das autoridades depende destas denúncias da população, como é o caso da descoberta desta iguana, depois de alguém publicar uma fotografia nas redes sociais”, lembra.

A nível internacional, o “Sistema Mundial de Informação sobre a Diversidade Biológica” (GBIF na sigla inglesa) tem disponível uma base de dados para acesso de cientistas, investigadores e público em geral sobre todo o tipo de espécies, com publicações revistas por profissionais e registos de regulamentações para as mesmas. Danny Leong esclarece que já adicionou dados sobre a biologia de Macau a esta base, para promover a participação da população no controlo de organismos invasivos.

Em outubro deste ano, terá lugar a 15ª Conferência das Partes sobre a “Convenção sobre Diversidade Biológica” da ONU, em Kunming, com o tema principal “Civilização Ecológica: Construção de um futuro comum para toda a vida terrestre”.

Durante o evento vai ser revisto e lançado o “Plano de Trabalhos para Biodiversidade Global Pós-2020”, ditando a direção da conservação de biodiversidade mundial no futuro.

Danny Leong espera que Macau, como cidade chinesa, fortaleça a biodiversidade local e controle a entrada de espécies invasoras.

“Espero que as universidades locais se juntem ao Governo para estudar as espécies que poderão entrar no nosso território e descobrir como as controlar, partilhando depois a essa experiência com outras cidades”, termina.

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