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Caixa aberta “my love” carrega passageiros onde faltam transportes em Maputo

A crise de transportes em Maputo obriga Alda Joaquim a andar quase 10 quilómetros para chegar ao mercado, mas quando leva o filho ao colo, caminhar tanto é impossível e a solução é viajar em veículos de caixa aberta.

A moçambicana de 39 anos vive em Marracuene, arredores da capital, onde não passam autocarros (conhecidos como machibombos) devido às más condições da estrada.

É assim noutros locais, fazendo com que a única alternativa sejam veículos de carga, popularmente designados “my love” pelo facto de os passageiros serem obrigados a abraçarem-se, para não caírem, na caixa aberta.

“Não há maneira, haja chuva ou calor, para chegar a casa aqui temos de apanhar os ‘my love'”, lamenta à Lusa a jovem, ao mesmo tempo que se apoia no ombro de um estranho e leva o filho de três anos, Calton, ao colo.

Desde a eclosão da pandemia, o transporte de passageiros neste tipo de veículos foi proibido pelas autoridades, mas Pazimane é um exemplo de que, onde não há alternativas, continuam a circular.

“Nós não temos como parar, aqui a população é que nos pede para fazer este trabalho”, conta à Lusa José Xadrec, condutor de um camião de caixa aberta que leva Alda Joaquim e vários outros moradores de Pazimane.

A estrada esburacada e ondulada em terra batida faz da viagem uma aventura agitada, principalmente com uma criança ao colo, num ambiente em que o distanciamento sugerido pelas autoridades face à covid-19 é uma utopia.

“Temos medo [da covid-19], mas temos de arriscar”, acrescenta Alda Joaquim.

O problema de Pazimane é comum a outras zonas de Maputo, que têm as paragens quase sempre abarrotadas, principalmente nas horas de ponta.

“O problema de transportes em Maputo é sério e a proibição dos ‘my love’ veio piorar tudo”, refere Albino Armando, 53 anos, um passageiro que hoje teve a sorte de apanhar um lugar num dos poucos autocarros que saem do centro da cidade de Maputo para a Matola, nos arredores.

Com “tantas contas” por pagar, Albino Armando não se pode dar ao luxo de ter atrasos na sua jornada diária e a solução é levantar-se às 04:00 para ter lugar a tempo num transporte que o deixe no trabalho às 06:00.

Para Válter Elias, 27 anos, o crónico problema de transportes é uma ameaça para o seu futuro, tendo em conta as vezes que chegou atrasado às aulas na faculdade.

“Por mais que eu saia cedo de casa, tenho sempre de perder horas [numa fila] na paragem e acabo perdendo algumas aulas na faculdade por conta disso”, lamenta.

A Lusa tentou obter esclarecimentos das autoridades face à circulação dos “my love”, apesar das restrições, mas não obteve resposta.

Tanto o município como o Governo têm apresentado periodicamente medidas para tentar resolver a crise de transportes na capital, mas a procura crescente e a expansão da zona urbana continuam a ser um desafio, agravado pela conjuntura da pandemia de covid-19.

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