Moçambique/Ataques: Problema nasceu nos anos 90, com desinteresse de Maputo

Moçambique/Ataques: Problema nasceu nos anos 90, com desinteresse de Maputo

O académico Joseph Hanlon, que estuda Moçambique há décadas, considera que as raízes do movimento que atacou Palma há duas semanas, e Mocímboa da Praia em 2017, nasceram nos anos 90, fruto do desinteresse do poder central

“A zona [de Cabo Delgado] é dominada pelos Mwani, que são muçulmanos com ligações históricas a Zanzibar há séculos (…) e que se juntaram aos Macondes na luta pela independência de Portugal em Mueda, mais acima e no interior da zona costeira dos Mwani, mas os Mwani consideraram que os Makonde tomaram conta da Frelimo e marginalizaram-nos; Cabo Delgado tornou-se a província esquecida, uma das mais pobres, mais desigual e menos educada, com os jovens sem futuro e a tornarem-se inquietos”, escreve Joseph Hanlon.

Num extenso artigo publicado no The Africa Report, o professor de Política e Prática de Desenvolvimento na Open University escreve sobre as raízes do movimento que fez dezenas de mortes no final do mês passado, em Palma, o mais mediático dos ataques realizados desde 2017.

“Nos anos 90, a Tanzânia e Moçambique viram um aumento do fundamentalismo islâmico e cristão, com os jovens moçambicanos muçulmanos, energizados pelo treino na Tanzânia, instalar mesquitas em Cabo Delgado e pregar um Islão fundamentalista, mas com uma mensagem socialista: a lei da ‘Sharia’ traria equidade e faria com que as elites deixassem de roubar a riqueza”, escreve o académico.

Era, explica, um movimento separatista, que queria cortar os laços com as escolas e as instituições estatais, mas tornou-se violento, decidindo que “tinha de ir para a guerra contra o Estado par ganhar o estatuto separatista”.

As comunidades, continua, “começaram a chamar-lhes al-Shabaab, o que significa a juventude ou os miúdos, com nenhuma ligação ou referência a outros al-Shabaabs [movimento terrorista com ligações à Somália e outros países do leste de África], e quer os insurgentes, quer a comunidade ainda usam esse nome”.

Por várias vezes estes insurgentes conquistaram quatro capitais de distrito (Quissanga, Macomia, Muidumbe e Mocímboa da Praia), seguindo o mesmo padrão: primeiro cortam o acesso pela estrada, depois infiltram-se na população durante vários dias, e depois atacam em vários grupos de diferentes direções, barricando as estradas à sua passagem.

“Isto começou assim em 2017 em Mocímboa, mas os ataques iniciais eram contra aldeias e mercados, geralmente atacando os que eram vistos como mais ricos, matando-os ou queimando as suas casas, e com ajudas das mulheres do mercado, os ataques ocorriam quando os soldados locais estavam bêbados, permitindo a recolha de armas”, escreve Hanlon.

Sobre as ligações a redes internacionais terroristas como o Estado Islâmico (EI), o investigador afirma que houve um contacto em 2019 e que o al-Shabaab afiliou-se ao EI que começou a reivindicar os ataques na sua página de notícias online, e na primeira ocupação de Mocímboa da Praia em março de 2020, o al-Shabaab “levantou a bandeira negra que foi amplamente fotografada, a rede de telemóvel não foi cortada e as fotografias tiradas de telemóveis mostram os insurgentes a serem bem recebidos pelos habitantes e acenando a bandeira preta”.

Em 2020, lê-se no texto, o panorama mudou: “em meados de 2020 o EI e o al-Shabaab cortaram laços por razões que não são claras, com investigadores a sugerirem grandes divergências teológicas e a resistência do al-Shabaab a aceitar ordens” exteriores.

O resultado foi a mudança na tática, com o corte de comunicações durante os ataques, o uso de machetes para cortar os cabos elétricos e de fibra ótica e, salienta o autor, “no seguimento disso, não houve mais reivindicações de ataques ou declarações filmadas nem bandeiras pretas, mas a seguir ao ataque de Palma se tornar do conhecimento mundial, o EI reivindicou-o, mas isso foi falso e os vídeos e fotos mostradas eram de Mocímboa da Praia, um ano antes”.

No texto, o autor explica ainda que o ataque a Palma não foi uma surpresa nem as táticas usadas foram diferentes das anteriores, só surpreendendo quem não estava atento ao desenrolar da “guerra civil” no norte de Moçambique, uma zona crucial para o futuro económico do país devido às enormes reservas de gás ao largo da costa.

“Já tinha havido vários ataques no distrito de Palma, mas nunca na cidade, que seguiu o modelo de outros ataques”, escreve Hanlon, lembrando que na época de chuvas entre dezembro de 2020 e março deste ano “a cidade esteve cercada”, com falta de alimentos e a comida e o combustível a terem de chegar de barco.

A 24 de março, pelas 16:00, “o al-Shabaab simplesmente entrou e dominou, com pouca resistência, e mais insurgentes chegaram no dia seguinte, havendo grandes pilhagens”, com os insurgentes a ficarem com 80 veículos, 30 toneladas de comida dos armazéns do Programa Alimentar Mundial, para além de combustível, comida e outros bens de lojas, dinheiro dos bancos e munições militares”.

As autoridades moçambicanas retomaram o controlo da vila de Palma, atacada a 24 de março por grupos rebeldes, provocando dezenas de mortos e feridos, num balanço ainda em curso.

Os grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo ‘jihadista ‘ Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes e 700.000 mil deslocados.

O ataque a Palma levou a petrolífera Total a abandonar por tempo indeterminado o recinto do projeto de gás em construção na península de Afungi, com início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico de Moçambique na próxima década.

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