Consagração de Marcelo Rebelo de Sousa ensombrada por um vírus

por Filipa Rodrigues
Fernanda Mira

A eleição de Marcelo Rebelo de Sousa para um segundo mandato como Presidente de Portugal será uma das poucas certezas do momento histórico que vivemos

Esta é a décima vez que os portugueses são chamados a escolher o Presidente da República em democracia, desde 1976. O ato eleitoral que se efetua no próximo domingo, dia 24, tem lugar num contexto profundamente difícil, inesperado e incerto. Não pelo lado político – que daqui não se esperam quaisquer alterações nem de regime, nem de correlações políticas – mas pelo lado social.

Marcada pela pandemia, esta eleição está a tornar-se um teste à capacidade de organização do Estado e do próprio regime democrático. Desde logo, através da introdução em massa do voto antecipado. No passado domingo, teve lugar o primeiro teste.

Inscreveram-se para votar antecipadamente nas eleições presidenciais 196.786 pessoas, um número que quase quadruplica o voto antecipado registado nas eleições para a Assembleia da República, em 2019, quando votaram antecipadamente 50.638 pessoas.

A meio desta semana, iniciou- -se o processo de recolha dos votos quase 13 mil idosos em lares e pessoas em confinamento devido à covid-19 que se inscreveram para votar antecipadamente.

Também as campanhas eleitorais e os debates entre candidatos levaram o carimbo “pela primeira vez”. Os tradicionais comícios, jantares de apoiantes e as “arruadas” não tiveram lugar. O “povo” não viu, não levou um beijo e um abraço do respetivo candidato, nem levou para casa um papel com o programa ou uma caneta para mais tarde recordar.

Os sete candidatos tiveram de inovar e grande parte da mensagem foi levada pelas redes sociais. Os comícios virtuais tornaram-se, também eles, parte do “novo normal”.

Foram muitas as vezes que Marisa Matias (apoiada pelo Bloco de Esquerda), Marcelo Rebelo de Sousa (PSD e CDS/PP) Tiago Mayan Gonçalves (Iniciativa Liberal), André Ventura (Chega), Vitorino Silva, mais conhecido por Tino de Rans, João Ferreira (PCP e PEV) e a militante do PS Ana Gomes (PAN e Livre), falaram para salas vazias e a contar o número de visualizações das prédicas.

E o que disseram os candidatos aos portugueses? Da espuma das palavras proferidas, Covid e o posicionamento de André Ventura, foram os dois temas mais batidos. E a aposta no valor seguro das críticas ao posicionamento do atual presidente também estiveram na ordem do dia, sempre sob o chapéu do posicionamento político de cada candidato. Sem surpresas, portanto.

Marcelo Rebelo de Sousa partiu para a reeleição com o propósito de fazer história: bater os 70,35% de votos obtidos por Mário Soares em 1991, quando “passeou” para um segundo mandato no cargo de Presidente.

Marcelo Rebelo de Sousa sabe, agora, que mesmo batendo este número, ficará para a história por outros motivos. Será o presidente reeleito em plena pandemia.

O “presidente dos afetos” e das selfies resumiu a campanha enquanto candidato à participação em todos os debates levados a cabo pelas rádios e televisões – com a particularidade de num deles o ter feito a partir do Palácio de Belém quando se encontrava em pleno isolamento por ter testado positivo à Covid-19.

O atual presidente pode, ainda, ficar na história por outro motivo, também ele dramático para o processo de voto democrático: a abstenção.

Segundo as contas feitas por Carlos Jalali, professor de Ciência Política da Universidade de Aveiro, a abstenção pode ficar perto dos 75%.

Nos últimos 40 anos, as eleições para a Presidência da República em que um dos candidatos concorre a um segundo mandato são menos participadas do que aquelas em que o chefe de Estado não se recandidata. As do próximo dia 24 têm ainda a agravante de se realizarem em plena pandemia e confinamento, o que poderá contribuir para afastar ainda mais os eleitores, sobretudo os mais velhos, os que por tradição mais votam, mas que agora estão mais resguardados.

O recorde remonta a 2011, quando Cavaco Silva foi reconduzido: 53,5%. Há cinco anos, com Marcelo Rebelo de Sousa, a participação voltou a subir. Ainda assim 51,2% dos portugueses ficaram em casa, o valor mais elevado em eleições em que não havia recandidatos.

“Está criado o quadro para que venhamos a ter as presidenciais menos concorridas da história”, defende Viriato Soromenho-Marques, catedrático de Filosofia da Universidade de Lisboa. Perante este cenário, o maior receio vem do número de votos alcançados por André Ventura, o candidato posicionado mais à direita e com um discurso marcado por considerações muito próximas da extrema-direita.

Acolhendo a atenção dos chamados “descontentes”, André Ventura uso o discurso radical e nesta última semana de campanha posicionou-se contra os restantes seis concorrentes. Chamando para si uma disputa direta: ou eu ou Marcelo. “Eles [os órgãos da comunicação social] bem tentam levar as outras candidaturas ao colo, mas já não cola, por muito que deem o ar fofinho do João Ferreira ou da Marisa Matias ou do Marcelo Rebelo de Sousa, as sondagens já não sobem mais. É sinal de que lhes estamos a meter medo e vamos continuar a meter medo”, afirmou André Ventura.

Esta é a 10.ª vez que os eleitores portugueses são chamados a eleger o chefe de Estado depois da instauração da democracia em 25 de abril de 1974. As primeiras presidenciais realizaram- se a 27 de junho de 1976.

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