Início » Quo Vadis Algarve

Quo Vadis Algarve

João VasconcelosJoão Vasconcelos*

Conforme é do conhecimento público, o Algarve vai receber 1 220 milhões de euros de fundos comunitários até finais de 2027, no âmbito do quadro comunitário de apoio 2021/2027. Estas verbas serão distribuídas da seguinte forma: 620 milhões como prevê o Plano Regional Operacional (320 mais os 300 milhões que o Governo anunciou para a diversificação económica da região); 300 milhões no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência e do Programa Operacional de Cooperação Transfronteiriça Espanha/Portugal; 200 milhões a alocar ao Plano de Eficiência Hídrica e 100 milhões que transitam de vários programas do atual período de programação.

Trata-se de uma “bazuca” muito significativa para o Algarve, mas insuficiente, a gerir pela CCDR/Algarve, para fazer face às consequências da pandemia, para o investimento e a diversificação do tecido económico regional, para a elaboração de um plano de sustentabilidade e eficiência hídrica como forma de mitigar e combater a seca. De facto, são muitos milhões colocados à disposição do Algarve em pouco mais de meia dúzia de anos, que têm de ser bem geridos e investidos. Mas que não vão chegar, ou que não serão direcionados para a melhoria e modernização dos serviços públicos, para o combate à desertificação e à interioridade, para a construção do novo Hospital Central, para o resgate da concessão e a requalificação da EN125 entre Olhão e Vila Real de Santo António, para os apoios à pesca tradicional e à pequena agricultura, para alterar o paradigma do desenvolvimento regional assente, fundamentalmente, no setor turístico. Vão ser necessários muitos mais milhões, com recurso ao Orçamento de Estado, ou a outros programas europeus.

O Governo anunciou em julho passado um plano específico de apoio ao Algarve, mas nada passou do papel. Tratou-se de mera propaganda e o Algarve continua à espera e a sofrer

De qualquer modo, os 1 200 milhões previstos para o Algarve terão de ser bem aplicados no combate às assimetrias sociais, económicas e territoriais, em prol de um desenvolvimento mais harmonioso e equilibrado. Sem dúvida que é crucial a concretização de um plano de eficiência hídrica para a região que responda às alterações climáticas e à problemática da seca que irá sofrer um forte agravamento no futuro. Também é crucial o investimento nas energias renováveis, na ciência, na tecnologia. Mas não pode ficar para trás o reforço do SNS e outros serviços públicos; não podem ser ignorados os apoios às atividades da pesca, à requalificação de portos e lotas, ao desassoreamento de barras e canais; não podem ficar no esquecimento os apoios à pequena agricultura, incluindo a requalificação dos Centros de Experimentação Agrária; assim como tem de avançar, com urgência, a melhoria das acessibilidades com a requalificação total da EN125 (com o resgate da concessão) e a eliminação das portagens na Via do Infante e um plano efetivo para fazer frente à crescente desertificação do interior algarvio.

É preciso aproveitar o momento da avassaladora crise que vive o Algarve – com cerca de 30 mil desempregados e com a iminência do encerramento de muitas mais empresas, conduzindo ao aumento do desemprego e da exclusão – para diversificar a economia da região, tornando-a mais forte e resiliente. Por força da pandemia e da monocultura do turismo, o Algarve é a região do país onde a crise é mais grave.

São necessários, imediatamente, apoios para impedir o encerramento de centenas de micro, pequenas e médias empresas, para impedir a perda de mais postos de trabalho e para criar empregos. O Governo anunciou em julho passado um plano específico de apoio ao Algarve, mas nada passou do papel. Tratou-se de mera propaganda e o Algarve continua à espera e a sofrer.

Se os tão almejados e anunciados milhões de euros tardarem, se forem mal geridos, ou não tiverem em conta as reais ambições e necessidades regionais, para onde vai o Algarve? Será um Algarve novamente adiado. E ficará à mercê, de modo ainda mais débil, a novas crises e ameaças no futuro.

*Deputado do Bloco de Esquerda (BE) – Portugal

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website