Ensino não superior para os próximos10 anos debaixo de fogo

Ensino não superior para os próximos 10 anos debaixo de fogo

O documento “Planeamento a Médio e Longo Prazo do Ensino Não Superior (2021- 2030)”, da Direção de Serviços de Educação e Juventude (DSEJ), em fase de consulta pública, tem merecido críticas por ser considerado demasiado vago, não oferecendo soluções claras para problemas existentes nem dados relevantes para futuro, de acordo com opiniões recolhidas pelo PLATAFORMA junto de diferentes atores ligados ao processo educativo.

De acordo com o documento, o objetivo principal é “cultivar novos cidadãos nesta nova era, otimizar o sistema de educação e o nível de competitividade dos estudantes”.

Aponta ainda outros caminhos, tais como “o desenvolvimento do sentido de patriotismo e uma visão internacional na sociedade, o poder de persuasão dos estudantes, a felicidade e a educação criativa e científica”.

Para He, professor numa escola secundária em Macau, os educadores dependem, na atualidade, “imensamente de testes tradicionais para avaliar o sucesso dos estudantes”.

O docente lamentou o papel reservado a quem tem a responsabilidade de educar na escola. “Sofremos imensa pressão para garantir resultados mínimos aos respetivos alunos. Por exemplo, somos obrigados a criar mais mini-testes antes dos exames para que os alunos estudem, mas no final esses estudantes transformam-se em simples máquinas de leitura, e os professores em figuras sem qualquer poder educativo”.

Deixou também um conjunto de perguntas e algumas sugestões. “Na educação, o mais importante é o sucesso académico? Porque é que o currículo escolar de Macau não desenvolve capacidades como sentido crítico, trabalho em equipa, resolução de problemas e criatividade? Por outro lado, porque é
que desporto, artes e empatia são ignorados? No futuro devem ser lançadas outras modalidades de avaliação, como relatórios, e menos testes tradicionais. Mais debates e trabalhos de grupo devem completar a avaliação para garantir um desenvolvimento completo dos alunos”.

Salientou ainda que desde o lançamento do “Exame Unificado de Acesso”, a entrada no ensino superior em Macau foi simplificada, mas acabou por criar também competição entre os alunos. Embora a análise do resultado dos exames não seja publicada, as escolas têm acesso a esses dados todos os anos, fazendo com que ao longo do tempo os resultados dos exames se tornem no principal objetivo educativo das escolas.

Algumas até dividem os alunos em dois grupos, os melhores e os piores, para proteger as notas dos estudantes de topo, recordou.

“Porém, esse nem é o maior problema. O pior é a unificação do sistema de avaliação. Os alunos com piores resultados sentem-se frustrados com os requisitos altos que têm de atingir, sem qualquer sentimento de sucesso na aprendizagem, pois tudo o que importa é o resultado. Várias escolas sacrificam alunos com piores notas para desenvolver ´talentos´, contrariando completamente a igualdade educacional e o princípio de “educação para todos”, em troca de uma melhor reputação da respetiva instituição”, apontou.

Embora as escolas de Macau estejam orgulhosas dos resultados no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) em 2018, quando atingiram o 3º lugar em leitura, matemática e ciências, apenas 50 por cento dos alunos afirmam estar satisfeitos com a vida escolar. Este resultado é inferior, por exemplo, ao de Hong Kong (52 por cento), China – Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang- (59 por cento) e à média de países da OCDE (67 por cento).

“Estes números provam que a maioria dos alunos de Macau apenas procura melhores resultados devido à pressão que recebe dos pais e da escola. Não é algo que os deixe genuinamente felizes. A educação em Macau deve, no futuro, procurar dar ênfase a uma vida saudável e feliz dos alunos, fazendo com que estes sintam que fazem parte da escola e da sociedade, e que estas lhes ofereçam algum sentido à respetiva vida”, concluiu He.

Já Liang, mãe de uma atual aluna do ensino não superior, o texto em consulta pública é “demasiado vago”, lembrando ainda que a educação criativa e científica está em crescimento e quase todas as escolas oferecem já essas áreas nos respetivos currículos. Considerou também que dos quatro pontos principais mencionados no documento, o “cultivo de sentido de patriotismo”, por ser o primeiro, transmite a sensação, a quem consulta o texto, de ser esse o principal objetivo do documento, sendo os restantes itens menos importantes e detalhados. “Que tipo de cidadãos quer o Governo criar ao longo da próxima década? O que irão essas pessoas fazer? O texto não é detalhado. Vejo muitas palavras, mas não entendo como é que estas irão oferecer um sistema de educação justo”, atirou.

Outro dos objetivos mencionados no texto é aumentar a felicidade dos estudantes. Mas Liang sustentou que ao longo dos últimos anos, tanto pais como alunos parecem estar “cada vez mais cansados”.

“Não podem perder nada da matéria. É sempre estudar, estudar, estudar. Todos ficamos cansados e a sofrer uma pressão enorme. É preciso aumentar o interesse dos alunos para que possam estudar com mais gosto e sem que os pais sofram tanto. Hoje em dia, estamos todos muito atarefados e cheios de pressa. Os alunos têm cada vez mais matéria para estudar.
Por exemplo, o nível de inglês nos infantários atualmente é equivalente ao que nós aprendíamos então no segundo e terceiro anos”, lembrou.

A encarregada de educação deixou ainda uma pergunta e uma conclusão que resultou da consulta ao documento da DSEJ.

“Que medidas concretas poderiam ajudar no desenvolvimento destes estudantes? Neste momento o documento não oferece detalhes nesse sentido. Como encarregada de educação olho apenas para o documento como um pedaço de papel. Sem uma direção clara, acredito que a maioria dos pais vai, assim, continuar a preparar difrentes atividades de estudo extracurriculares para os filhos”. Assinalou ainda para uma diferença que notou entre o passado e o presente.

“Anteriormente era mencionado e valorizado o cultivo do sentido crítico dos estudantes durante a frequência do ensino não superior”, mas agora, confessou, “esse ´sentido crítico´ transformou-se em ´capacidade de criticar´”.

A secretária dos Assuntos Sociais e Cultura, Ao Ieong U, explicou, não há muito tempo, que a DSEJ considera esse “sentido crítico” um “pouco negativo”, e que os jovens devem manter, simultaneamente uma “atitude positiva, com críticas construtivas e sugestões”. Todavia, Liang receia que isso seja “um obstáculo para o desenvolvimento dos estudantes”.

“O que é que implica esta capacidade crítica e em que aspeto”, interrogou-se, dizendo acreditar que, “para promover o nível de competitividade dos alunos e uma visão internacional, primeiro é necessário desenvolver o respetivo sentido crítico”.

E concluiu: “Como mãe, fiquei desiludida com esta mudança. No passado já tinham sido promovidos estes ideais de espírito crítico e múltiplas inteligências, porém, agora, foi tomada uma nova direção”.

Já para o comentador Francis Choi Chi U, o planeamento educacional da próxima década deve incluir uma avaliação científica e racional da educação em Macau ao longo dos últimos 10 ou mais anos, considerando ao mesmo tempo fatores emergentes que poderão ser relevantes no futuro. Este planeamento requer objetivos e dados concretos. “Que dados estatísticos temos para apoiar os programas dos próximos 10 anos? Existe algum plano capaz de avaliar os alunos de ensino não superior ao longo da próxima década? Um programa de ensino não superior deve cultivar alunos, incluindo temas relacionados com a sociedade, economia, política e cultura, acompanhando o currículo tradicional científico e académico. Mas atualmente isso não existe e, no final, tudo o que resta são promessas”, disse.

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