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Depois da pandemia, a arte a dar o seu melhor

A segunda edição de “Mulheres Artistas – Bienal Internacional de Macau” (ARTFEM) está agora a chegar ao fim. O impacto da pandemia dificultou alguns fatores da organização deste evento, como a sua data, transporte de obras e artistas convidados. Porém, Carlos Marreiros, curador da exposição, acredita que mesmo assim esta foi uma edição de sucesso que superou a anterior. O mesmo salienta que a rede de contactos da bienal cresceu. “Neste espaço de dois anos acredito que haverá mais artistas com interesse na ARTFEM. Mesmo sem as convidarmos, têm agora conhecimento do evento e interesse em participar”, afirmou.

Alice Kok, uma das curadoras da ARTFEM, afirma que o consenso geral é de que este é um evento de grande importância. “Acredito que todos sentem que para além de um evento de valor, é um evento internacional. Queremos atingir padrões internacionais, e estamos todos dedicados a tal objetivo.”

Exposição supera edição anterior

Organizada pelo Albergue SCM e financiada por várias instituições locais como a Fundação Macau, a “Mulheres Artistas – Bienal Internacional de Macau” é a única bienal desta dimensão dedicada a artistas femininas no mundo. Devido à pandemia, esta edição da bienal não teve início no dia 8 de março e foi adiada para entre os dias 30 de setembro e 13 de dezembro. Na sua segunda edição, a bienal contou com 5 curadores: Carlos Marreiros, Alice Kok, James Chu, Angela Li Zhenxiang e Leonor Veiga, representando Macau, Hong Kong, China continental e ainda artistas internacionais. Um total de 142 obras de 98 artistas de 22 regiões foram expostas em quatro espaços: Albergue SCM, Antigo Estábulo Municipal de Gado Bovino (encerrado), Fundação Oriente e Galeria Lisboa.

Com a exposição a chegar ao fim, Carlos Marreiros, chefe-curador, acredita que esta edição da ARTFEM fez vários avanços. Por exemplo, a primeira edição não conseguiu trazer esculturas e instalações de fora para Macau, porém este ano contaram com várias instalações de várias artistas estrangeiras. Embora o número de artistas este ano seja menor, as obras presentes na exposição são mais diversificadas e refletem melhor o estado atual da arte moderna. Outra diferença foi o uso de promoção nas redes sociais ao longo desta edição, que deu a conhecer a ARTFEM a um público mais alargado. O espaço utilizado para as exposições durante esta edição deixou de ser apenas o Museu de Arte de Macau, sendo constituído por quatro espaços espalhados pela cidade. “Existem vários tipos de obras de arte, tudo faz parte de um processo educacional”, afirmou o curador.

De acordo com dados da ARTFEM, a primeira edição do evento em 2018 atraiu cerca de 3000 visitantes entre os meses de março e maio no Albergue SCM e 8000 visitantes na exposição principal no Museu de Arte de Macau. Segundo os dados partilhados, esta edição da ARTFEM contou com cerca de 5000 visitantes no Albergue SCM entre outubro e novembro deste ano. Para Carlos Marreiros, este evento assistiu a um crescimento no seu número de visitantes e uma maior interação entre os residentes e as obras de arte em exposição. Todavia, visto que à data da entrevista a exposição continua aberta, não estão disponíveis os seus números finais. 

Enfrentar desafios

Alice Kok, uma das curadoras, concorda que o principal desafio para a organização deste evento foi a pandemia. A mesma salienta que várias grandes exposições a nível internacional tiveram de ser adiadas ou canceladas, mas a ARTFEM conseguiu concretizar-se. Devido ao grande número de obras na exposição, o seu transporte não foi fácil, especialmente tendo em conta que vários artistas vinham de fora e não existiam bilhetes de avião disponíveis. No entanto, no final tudo foi possível graças ao trabalho de equipa e apoio do Albergue SCM. Alice Kok recorda que entre as várias grandes instalações que estiveram em exposição no Antigo Estábulo Municipal de Gado Bovino, uma exigiu erguer uma enorme pedra, a qual após várias tentativas tinha mudado de posição e precisou de ser remontada. Outra instalação exigiu a construção de uma “mandala”. “É uma tradição tibetana construir uma mandala com barro”, explicou a curadora, acrescentando que se trata de uma obra centrada na proporção e simetria. Por acaso, na altura da sua instalação dois dos curadores da exposição, James Chu e Angela Li Zhenxiang, e dois artistas do continente tinham chegado a Macau e ajudaram a montar a instalação. 

“Todos os artistas ficaram comovidos. Foi um trabalho conjunto, incluindo tanto os curadores, como os artistas em exposição e a equipa do Albergue SCM. Foi um processo lento, como uma obra de arte. A artista ficou radiante e comovida com o facto de a equipa ter conseguido instalar a sua obra.”

Alice Kok afirmou ainda que entre as artistas participantes, 31 são artistas locais, mas os critérios para a sua escolha foi o mesmo das artistas internacionais, e por isso está extremamente orgulhosa da comunidade artística de Macau. “Isto prova que os artistas de Macau conseguem também estar ligados ao resto do mundo”, comentou Alice, para quem todo o processo de organização foi extremamente agradável. “Fiquei muito satisfeita com o resultado. Começamos do zero, e através de comunicação e colaboração, chegamos a este produto final. Os resultados foram claramente positivos, por isso fiquei contente.”

Já tiveram início as preparações para a próxima edição

A organização da próxima edição já começou? Carlos Marreiros afirma que até já foi definido o seu tema principal, mas ainda não foi anunciado. O mesmo partilhou que a próxima equipa de curadores será a mesma, e que as exposições também estarão divididas entre vários espaços. Porém, ainda não foi decidido se terá início no dia da mulher (8 de março) ou no Festival do Meio Outono. O curador revelou ainda que várias ideias ainda não foram postas em prática, como uma exibição de obras de artistas femininas de alta relevância histórica menos conhecidas, e que “poderia ser um dos principais focos internacionais”.

Esta é apenas a segunda edição da “Mulheres Artistas – Bienal Internacional de Macau”, sendo um evento ainda jovem. Carlos Marreiros salientou: “A Bienal de Veneza tem mais de 100 anos, nós vamos ainda na nossa segunda edição, temos de ter calma. A pequena dimensão de Macau, as várias dificuldades que enfrenta no que diz respeito ao desenvolvimento artístico, e o impacto da pandemia e das suas repercussões económicas futuras, oferecem uma perspetiva menos positiva ao futuro desta indústria, porém a arte continuará a desenvolver-se.” Tal como foi mencionado por Carlos Marreiros no discurso de abertura da ARTFEM no Albergue SCM: “Nenhum vírus conseguirá destruir a base de um pensamento, nenhum vírus consegue fazer uma ideia morrer. A vida sem arte é como um corpo sem alma, como um vampiro escondido à sombra. Esse é o maior medo de todos os artistas. Mas a humanidade não quer perder a sua alma. Longa vida a todos os artistas do mundo!”

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