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Economia é quem mais sofre

Isabel Marisa Serafim

A pandemia do novo coronavírus chegou a Bissau, capital da Guiné-Bissau, em março, com o registo dos dois primeiros casos, mas as previsões catastróficas não se confirmaram. Pelo menos, em termos sanitários já que, na economia, o impacto tem sido devastador, mesmo num país permanentemente em crise.

No total, e até momento, foram registadas 43 vítimas mortais e o número de casos positivos tem diminuído há várias semanas consecutivas. O total acumulado de casos positivos não chega a 2.500 e atualmente há apenas dois casos ativos no país.

Números otimistas, que não se estendem ao setor económico do país. Para a economia, as previsões são mais pessimistas e basta uma ronda pela capital guineense e falar com vários empresários, desde a área do turismo, passando pelo comércio, até à restauração, para perceber que o descontentamento está instalado.

No setor turístico, por exemplo, a falta de clientes provocou despedimentos e um acumular de dívidas e os operadores têm pedido ao Estado para os ajudar a ter empréstimos junto dos bancos com juros bonificados.

Na restauração, o cenário não é muito diferente. A saída do país de milhares de pessoas, que só agora começaram a regressar, e a falta de dinheiro dos que ficaram, tem estado a ter um impacto significativo.

Importadores de bens alimentares admitiram também que diminuíram as compras ao exterior e não estão otimistas em relação ao mês de dezembro, tradicionalmente bom para o negócio na Guiné-Bissau.

Com a Covid-19, as receitas internas do Estado caíram 28 por cento. O novo coronavírus também afetou a campanha de comercialização do caju, principal produto de exportação do país e do qual dependem diretamente e indiretamente 80 por cento da população guineense.

Segundo a Agência Nacional do Caju, este ano foram exportados 150.000 toneladas contra as 200.000 de 2019 e o preço do quilograma da castanha do caju também caiu no mercado internacional.

Com um salário mínimo de 50.000 francos cfa (cerca de 76 euros), a pandemia também teve um forte impacto na vida dos consumidores.

O estado de emergência, que começou em março e só foi levantado em setembro, limitou o acesso das pessoas a certos bens alimentares, com registo do aumento de alguns preços.

Para o secretário-geral da Associação de Defesa do Consumidor de Bens e Serviços da Guiné-Bissau, Bambo Sanha, o estado de emergência deveria ter sido acompanhado com algumas medidas compensatórias.

“Infelizmente as medidas foram uma gota de água no oceano, totalmente insuficientes, muitas pessoas passaram fome e o nosso estado é frágil e não conseguiu garantir as necessidades dos consumidores”, disse Bambo Sanha.

A associação fez apelos às autoridades para que alguns bens fossem subvencionados, como a água, a eletricidade e o arroz, base alimentar dos guineenses, mas os consumidores continuaram a pagar o mesmo.

Bambo Sanha disse também que foi detetada alguma especulação no preço aos consumidores de alguns bens alimentares e das caixas de água.

Para a Associação de Defesa do Consumidor de Bens e Serviços da Guiné-Bissau outra situação grave é o preço dos combustíveis.

“Houve uma queda no mercado internacional, mas na Guiné-Bissau não se refletiu ao nível dos consumidores. É extremamente grave”, lamentou Bambo Sanha, salientando que os preços dos combustíveis não são atualizados há um ano, embora o Estado continue “a cobrar os mesmos impostos, os mesmos preços”.

Para o analista guineense, Rui Jorge Semedo, a situação resume-se à informalidade que domina tudo o que se faz na Guiné-Bissau. “A Guiné-Bissau é uma economia informal, tudo funciona à base da informalidade e o próprio Estado não tem a noção exata daquilo que é o respetivo rendimento mensal”, salientou.

Segundo Rui Jorge Semedo, a situação da informalidade leva a que as pessoas dificilmente levem as coisas a sério. “É desta forma que o Governo, desde os primeiros momentos, está a lidar com a situação da pandemia, sobretudo do ponto de vista económico”, afirmou.

O analista guineense recordou também que o país tem uma dependência “quase crónica dos recursos dos parceiros”, mas esses também têm as economias afetadas pela pandemia do novo coronavírus.

Segundo Rui Jorge Semedo, por outro lado, a dependência crónica faz com que o Estado não assuma o papel de criador de condições efetivas para que a economia funcione.

“É exatamente isso que estamos a verificar e a situação vai piorar”, disse Rui Jorge Semedo. Piorar, porque, explicou o analista, isso vai criar as condições propícias para o país entrar num “ciclo de conflito institucional”.

O Estado não vai conseguir evitar a situação de crise económica, de “escassez de géneros, perda de poder de compra e reivindicações por parte da classe trabalhadora”, lembrando a realização de greves em alguns setores, designadamente saúde e transportes, apontou.

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