Hainão é oásis em período de seca internacional - Plataforma Media

Hainão é oásis em período de seca internacional

Andrew Xu, responsável por dois mega resorts na ilha tropical de Hainão, no extremo sul da China, é um dos poucos gestores hoteleiros com motivos para sorrir este ano.

“Devido às restrições nas viagens internacionais, o mercado doméstico está realmente em alta”, revelou à Agência Lusa o diretor administrativo do Fosun Tourism Group, que detém o Atlantis Resort e o Club Med em Sanya, um dos raros destinos sol e mar da China, situado em Hainão.

O “mercado doméstico”, neste caso, são os cerca de 1,4 mil milhões de chineses que estão atualmente impedidos de viajar, devido à pandemia da covid-19.

Xu apontou para uma taxa de ocupação superior a 90 por cento em ambos os resorts geridos pelo grupo Fosun, durante o mês de agosto, uma tendência que contrasta com a realidade nos restantes destinos turísticos do sudeste da Ásia e em outras partes do mundo.

As Nações Unidas estimaram perdas na indústria do turismo, a nível global, de 320 mil milhões de dólares, nos primeiros cinco meses do ano, o que põe em risco 120 milhões de postos de trabalho.

Entre janeiro e maio, quando a China aplicou medidas restritivas de prevenção contra a covid-19, o número de turistas que visitaram Hainão caiu mais de 50 por cento, em termos homólogos, mas recuperou logo de seguida, à medida que o país asiático normalizou o fluxo interno de pessoas. 

Segundo dados do Ctrip, a maior plataforma de viagens da China, as reservas em hotéis em Sanya aumentaram 105 por cento, em julho passado, face ao mês anterior. Em agosto, a ilha recebeu 2,5 milhões de turistas, regressando aos números de 2019, de acordo com dados oficiais.

Situado no extremo sul da China, paralelo ao norte do Vietname, Hainão oferece um clima tropical, praias de areia branca e marisqueiras à beira-mar.

Na baía de Dadonghai, em Sanya, as praias enchem-se de turistas ao final da tarde. 

Alguns praticam desportos aquáticos, incluindo surf ou mergulho. Há quem opte por passeios de moto de água ou helicóptero. Mas a maioria vai pouco além da borda do mar, e sempre sob o olhar atento dos nadadores-salvadores.

“Há menos vida noturna em Sanya, mas, por outro lado, não se vê prostituição como na Tailândia”, comparou José Duque, um espanhol radicado em Xangai que viajou para Sanya com os filhos, a mulher e os sogros chineses.

“É um destino simpático para visitar com a família”, disse.

Mas persistem dúvidas sobre se Hainão vai conseguir manter o ímpeto, quando as fronteiras reabrirem, e alcançar o estatuto de destino internacional de referência em 2025 – um objetivo delineado pelo Governo central.

“Não acho que Hainão tenha chegado lá”, explicou Yana Wengel, professora de Turismo num programa conjunto entre a Universidade de Hainão e a Universidade do Estado de Arizona, nos Estados Unidos. “Enquanto destino internacional, Hainão continua a ser desconhecido”, apontou.

Segundo dados oficiais, em 2018, pouco mais de 1 por cento dos 76 milhões de turistas que visitaram Hainão eram estrangeiros, a esmagadora maioria provenientes da Rússia, devido a voos e pacotes turísticos subsidiados pelo Governo da província.

“Um dos principais problemas é que Hainão não tem uma verdadeira estratégia para se projetar enquanto marca, seja para o mercado nacional ou internacional”, justificou Wengel.

Outros obstáculos remetem para o ecossistema digital da China: o país asiático defende a soberania do ciberespaço, tendo criado motores de pesquisa e redes sociais próprios, enquanto bloqueia Google, Facebook ou Instagram. 

Para turistas oriundos do exterior torna-se assim impossível partilhar fotografias das férias nas redes sociais utilizadas fora da China, ou efetuar pagamentos via as carteiras digitais chinesas do Wechat ou Alipay, num país onde o dinheiro físico praticamente desapareceu, já que estas não permitem associar-se a contas bancárias no estrangeiro.

A ilha compete ainda diretamente com outros destinos bem estabelecidos do sudeste asiático.

“A Tailândia é mundialmente famosa como a Terra dos Sorrisos, o Vietname pela comida incrível e construções coloniais. E a China” questionou Wengel. “Tenho ouvido opiniões menos favoráveis de estrangeiros recentemente”, apontou.

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