A Fundação Palmares, entidade pública que visa promover a cultura afro-brasileira, anunciou hoje que retirou o nome de Marina Silva, ambientalista, antiga ministra do Ambiente e ex-candidata presidencial, da sua lista de personalidades negras.
“Marina Silva foi excluída da lista de personalidades negras da Fundação Cultural Palmares. Marina não tem contribuição relevante para a população negra do Brasil. Disputar eleições não é mérito. O ambientalismo dela vem sendo questionado e não é o foco das ações da instituição”, escreveu na rede social Twitter o polémico presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, militante da extrema-direita.
“Marina Silva autodeclara-se negra por conveniência política. Não é um caso isolado. (…) Posar de ‘vítima’ e de ‘oprimido’ rende dividendos eleitorais e, em alguns casos, financeiros”, acrescentou Camargo.
A ecologista Marina Silva, única candidata mulher à Presidência do Brasil nas eleições de 2018, tem uma longa carreira em defesa do meio ambiente no Brasil, assim como na política.
Nascida no estado amazónico do Acre, Marina Silva, que nasceu no seio de uma família muito pobre, aprendeu a ler e a escrever apenas aos 16 anos de idade, tendo-se depois formado em História pela Universidade Federal do Acre.
A brasileira, hoje com 62 anos, entrou na carreira política na década de 1980, tendo sido vereadora, deputada estadual e, posteriormente, senadora.
A sua passagem mais marcante na política foi no cargo de ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, no Governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Disputou a Presidência do Brasil em três eleições, em 2010, 2014 e 2018, não tendo passado à segunda volta em nenhuma das ocasiões.
Fundou um novo partido, Rede Sustentabilidade, pelo qual concorreu às presidências de 2018, das quais Jair Bolsonaro saiu vencedor.
Marina não é a primeira figura política brasileira a ter seu nome retirado da lista de personalidades negras por determinação de Camargo.
No início do mês, o presidente da Fundação Palmares informou que retirou o nome da deputada federal e candidata do Partido dos Trabalhadores (PT) à Prefeitura do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, primeira senadora negra do Brasil, antiga ministra no Governo Lula de Lula da Silva e ex-governadora do estado do Rio de Janeiro.
O Governo brasileiro, liderado por Bolsonaro, nomeou em 2019 para novo presidente da Fundação Cultural Palmares o jornalista Sérgio Camargo, numa decisão que causou polémica no país, tendo em conta as declarações públicas do visado, que é militante da extrema-direita.
Na sua rede social Facebook, Camargo protesta com frequência contra causas que envolvam o movimento negro, defendendo, por exemplo, o fim do feriado da Consciência Negra, considerando que “é uma vergonha e precisa de ser combatido incansavelmente até que perca a pouca relevância que tem”.
A Fundação Cultural Palmares, cujo estatuto foi aprovado em 1992, tem como missão “os preceitos constitucionais de reforços à cidadania, à identidade, à ação e à memória dos segmentos étnicos dos grupos formadores da sociedade brasileira, além de fomentar o direito de acesso à cultura e à ação do Estado na preservação das manifestações afro-brasileiras”.
Camargo demarca-se de qualquer raiz africana na sua formação e “rejeita a africanidade imposta pela esquerda”.
“Não tenho nada a ver com a África, os seus costumes e ‘religião’. Rejeito a africanidade imposta pela esquerda. Sou brasileiro”, escreveu Camargo no Facebook, acrescentando numa outra publicação: “Se você é africano e acha que o Brasil é racista, a porta da rua é a serventia da casa. Volte para a paradisíaca África”.