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Made in Casa

Ambiente e saúde. É o que leva cada vez mais gente a produzir o que consome. Em Macau, também há quem tente substituir os produtos industriais por caseiros. É o caso de Vera António, Raquel Bragança, Andreia Ramos, Tânia Pinho, Cintia Milk e Guilherme Ma. Ao Plataforma contam como começaram e os benefícios do “faça você mesmo”.

Foi há quase cinco anos que Raquel Bragança se estreou nas lides do que se convencionou chamar de DYI – sigla em inglês para do-it-yourself ou, em português, “faça você mesmo”. A gravidez levou-a a ler sobre gestação e a dar-se conta de que existe uma grande preocupação com o que as grávidas comem, mas pouca com tudo o resto que consomem e a que estão expostas. “Percebi que os produtos que compramos estão carregados de químicos sobre os quais não há grandes estudos e que muitos têm potencial cancerígeno, tóxico, efeitos na fertilidade”, alerta. 

Foi antes de o filho nascer e ainda enquanto grávida, que alterou hábitos. “Comecei a usar produtos o mais naturais possível, idealmente cem por cento e sem ingredientes criados em laboratório. Depois, percebi que podia fazer alguns e que tinha ainda menos impacto ao nível do ambiente.”

Também foi a gravidez que convenceu Tânia Pinho a optar pela produção própria, em 2015. “Queria que tudo o que o meu filho comesse fosse o mais caseiro e saudável possível, e evitar que tivesse contacto com químicos, tanto nos produtos que lhe aplicava como nos que usava em casa. Depois arrastou-se à restante família”, recorda.

Em casa de Vera António os produtos de limpeza também passaram a ser naturais desde abril último, depois de se aperceber dos problemas causados pelos sintéticos ao nível respiratório, de alergias e perturbações hormonais. “Acredito muito nesta prática e dá-me bastante gosto perceber que, pelo menos em casa, posso controlar a minha pegada ecológica”, realça.

O uso de produtos naturais em detrimento de químicos e fármacos atrai cada vez mais consumidores

Mudar de vida

A saúde sempre foi uma prioridade para Cintia Martins e Guilherme Martins. Tornou-se uma preocupação maior depois de o último ter tido um problema no estômago causado por uma bactéria. “Não me conformei com a ideia que teria de tomar um batalhão de medicamentos e comecei a pesquisar curas naturais através da alimentação”, conta Cintia Martins. A doença do marido fez com que mudasse de vida e carreira: tornou-se personal trainer, instrutora de pilates e consultora de nutrição, e resultou ainda em mais duas empresas. 

A Mighty Greens – que procura incentivar à horticultura, através de workshops sobre a prática e produção de vegetais; e a ManaVida – empresa social que promove hábitos de vida saudável através de aulas de exercício, e workshops de culinária e de aromaterapia. 

“Eu acabei mesmo por adotar uma alimentação vegetariana devido a problemas hormonais. Se quisesse continuar a comer produtos animais, teria de ser em quantidades mais pequenas, orgânicos e de confiança. Tendo em conta que em Macau tudo é congelado e caríssimo, optei por mudar. Com a ajuda do Guilherme, que tem estudos em matérias como o uso de extratos de plantas e os respetivos óleos essenciais, cortámos completamente com o uso de produtos tóxicos, como perfumes”, realça. 

Foram as suspeitas sobre as vantagens repetidas por tantos que levaram Andreia Ramos a entrar no mundo dos óleos essenciais, há cerca de um ano. “Senti efeitos quase imediatos.” 

A investigação que tinha em mãos sobre disruptores endócrinos ajudou e foi aí que começou a apostar na produção caseira, depois de formação. “O que a indústria faz é um género de mímica das hormonas, que acaba por resultar numa disrupção no nosso corpo porque não é a hormona que está a funcionar, é o químico. Estar consciente disto a juntar ao que fui aprendendo sobre os óleos essenciais fez com que tentasse produzir tudo o que podia”, esclarece.

Um ano depois, o novo estilo de vida deu origem à Mimocean, marca que está a lançar. “Fez sentido. Queria ter o português e daí o ´mimo´, e queria que estivesse relacionado com a ideia de sustentabilidade e o ambiente, daí o oceano. Ao mesmo tempo a palavra Mimocean soa a emotion, no fundo a ideia que quero transmitir é da necessidade de mimar o planeta”, resume.

Receita mágica

A poluição, a contaminação dos alimentos com pesticidas e a composição dos cosméticos e produtos de limpeza com ingredientes tóxicos e nocivos fizeram com que, nos últimos anos, a procura por alimentos biológicos, cosméticos orgânicos e medicinas alternativas crescesse significativamente, fazendo com que os óleos essenciais tivessem uma segunda vida na ciência e tecnologia.

Hoje voltaram a ser usados na limpeza da casa, para cozinhar e para a saúde, como acontece com Vera António que os usa em detrimento das lixívias e detergentes. “Antigamente não havia informação sobre o lado negativo dos nocivos. O mais importante é saber escolher os ingredientes que não contenham fragrâncias sintéticas ou nenhum tipo de nocivos”, avisa.

A família de Tânia Pinho segue a mesma receita: procura fazer todos os produtos de higiene e de limpeza, e os que não consegue são à base de óleos essenciais de uma marca na qual confia. Diz ter conseguido substituir quase tudo. O detergente da roupa, da louça, tira-nódoas, lava-tudo, gel-duche, sabonete das mãos são alguns dos que enumera. “Procuro também evitar fármacos, sempre que possível, e recorrer aos óleos essenciais para secar narizes, apaziguar tosses ou baixar febres dos pequenotes, para as minhas eventuais dores de cabeça, e para o bem-estar da família em geral. Quanto à alimentação também faço grande parte em casa: iogurtes, pão, sumos. Pena que o tempo não dê para mais”, lamenta.

Além dos óleos essenciais, o bicarbonato de sódio, o vinagre, os sabões de castela e azul costumam ser a base para os artigos de limpeza. Já para os de uso pessoal funcionam, entre outros, os óleos de coco e de amêndoas doces, as manteigas de carité ou cacau, e a cera de abelha, detalha Raquel Bragança. “É ir às raízes, ver o que os nossos avós e pais usavam, e evitar o que é industrial. São artigos que já se usavam antes da massificação da indústria cosmética”, sublinha a professora, que em 2017 criou o grupo Share The Love With Essential Oils, e que hoje conta com quase dez mil seguidores. 

Efeitos secundários

É consensual que os benefícios são inegáveis. Raquel Bragança diz que deixou de ter problemas respiratórios e que sente resultados ao nível do stress, que passou a ser menor. “Estamos a eliminar vários ingredientes tóxicos. A médio, longo prazo sente-se uma melhoria tanto ao nível físico como psicológico”, assegura.

Vera António acrescenta os “efeitos bastante visíveis” na pele, cabelo, redução de alergias e no equilíbrio hormonal. “O bónus de tudo isto não é só o do bem-estar e da saúde, mas também o prazer de poder contribuir para a redução do impacto no ambiente”, sublinha. “Não vejo uma única razão para não se optar pelo uso de produtos naturais”, diz.

Já Tânia Pinho conta pelos dedos de uma mão as vezes que ficou doente. “Quanto aos benefícios, vejo-os em mim, no meu bem-estar e saúde, no dos meus filhos, que são poupados diariamente a uma quantidade enorme de químicos desnecessários e que são prejudiciais à saúde, e vejo-os também no meio-ambiente, já que o desperdício é muito menor”, assinala.

“Faz-me logo sentir bem saber que não estou a comprar e a contribuir para o desperdício. Não vou dizer que a minha pele está melhor, mas não está pior, portanto resulta”, frisa Andreia Ramos. 

O caro sai barato

A bióloga assegura que compensa. Diz que os óleos são mais caros mas que a quantidade necessária é mínima, e que os restantes ingredientes, mais baratos, servem para fazer diversos produtos, que duram muito, e muita quantidade. “O investimento inicial pode ser maior, mas depois esbate-se.”

Tânia Pinho também afirma que não pesa na carteira. “Não considero que seja uma alternativa dispendiosa, e até acho que representam uma poupança”, ressalva.

O custo é só uma questão de perspetiva, corrobora Raquel Bragança. “Não sinto que gasto mais dinheiro também porque comecei a fazer compras mais ponderadas e menos por impulso, deixei de comprar cremes e detergentes caros. Compro um concentrado com menos de um litro que me dura quase para um ano. Acabo por poupar”, garante.

Vera António, que entretanto começou a promover wokshops, também prefere os resultados agora face ao tempo em que usava produtos comerciais. Nota, no entanto, que Macau dificulta o caminho alternativo. “Ainda não é bem aceite, pois a maioria de pessoas desconhece a ideia de limpeza sem nocivos. Mas acredito que a nova geração dará mais importância a este modo de vida”, prevê.

Cintia Martins lamenta que em Macau seja mais complicado: espaço, acesso a distribuidores, abertura ao mercado e da sociedade à mudança, acesso a informação – muitas vezes só em chinês -, mão-de-obra. “Muito embora Macau seja um local altamente avançado no que diz respeito à tecnologia e produtos de grandes marcas, ainda tem muito que desbravar no que respeita à sustentabilidade. É preciso meter mãos à obra, mas hoje”, defende. 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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