Três guerras ativas na Guiné-Bissau - Plataforma Media

Três guerras ativas na Guiné-Bissau

Guiné-Bissau enfrenta atualmente três guerras que podem ter graves consequências para a população e levar o país para índices mais baixos de desenvolvimento: os políticos não se entendem, o sistema de saúde não tem capacidade de resposta à pandemia da Covid-19 e observadores alertam para o aumento exponencial da subnutrição nas camadas mais pobres.

Com uma crise política interminável, os guineenses não veem o fim de uma guerra entre políticos que está a hipotecar o desenvolvimento do país e a melhoria das condições de vida. A arrastar-se desde 2015, nem as eleições legislativas, nem as eleições presidenciais, envoltas em polémica, conseguiram colocar um ponto final a um desgastante conflito político.

Depois de mais uma vez não conseguirem chegar a consenso e falharem o prazo dado pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental de formarem um novo Governo, que respeite os resultados das legislativas de 2019, até 22 maio, os atores políticos do país tentam agora, liderados pelo presidente do parlamento, Cipriano Cassamá, encontrar uma solução até 18 de junho.

Mas à guerra política juntou-se a pandemia provocada pelo novo coronavírus, que mostrou mais do que nunca as fragilidades de um país, que não consegue a estabilidade. Detetados os primeiros casos em março, a Guiné-Bissau segue a caminho dos 1.500 infetados. Com menos de 10 vítimas mortais, as autoridades da saúde têm, contudo, reservas em fazer prognósticos.

“Com esta situação que estamos a ter nas regiões, vai ser muito difícil afirmar-se se já atingimos o pico no país. Se for só a nível de Bissau posso ousar afirmar que estamos quase a atingir, mas é muito difícil definir isso dado o comportamento da população”, afirmou o coordenador do Centro de Operações de Emergência de Saúde, Dionísio Cumba.

A grande parte das infeções por covid-19 está concentrada em Bissau, mas recentemente foram detetados casos em Gabu e Bafatá, outros centros urbanos, com menor capacidade de resposta e de meios. 

“É muito difícil definir o pico no país”, explicou o responsável, acrescentando que também é preciso esperar alguns dias para avaliar o resultado das festas, que ocorreram um pouco por todo o país, por ocasião do final do Ramadão.

O Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, já prolongou por quatro vezes o estado de emergência no país e impôs o recolher obrigatório, mas decidiu, recentemente, abrir fronteiras e iniciar o desconfinamento.

“É preciso o respeito das regras e as autoridades devem usar todos os mecanismos. Caso contrário, vamos ter o aumento de novas infeções por causa da aparente liberdade que as pessoas têm”, previu dionísio Cumba.

Para o analista político guineense Rui Jorge Semedo a decisão de avançar com o desconfinamento “não é pertinente”. Mas a necessidade de recursos humanos para a “campanha de caju pressionou o Governo a tomar esta medida”, afirmou.

Guerra contra a fome

Principal produto de exportação do país, a castanha de caju é o motor da economia guineense e 80 por cento da população depende direta ou indiretamente da sua comercialização. “A campanha de caju, que é um elemento muito forte da nossa economia, não só contribui para o Produto Interno Bruto, como também a maior parte da população tem apostado neste produto para financiar as atividades agrícolas, escola dos filhos, saúde e até da construção da casa”, explicou o também investigador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP) guineense.

Com início previsto para março, o arranque da campanha foi adiado e só abriu em maio, mas começou mal, não só devido ao baixo preço por quilograma de caju, mas também porque o fecho das fronteiras afastou os tradicionais compradores.

“Apesar de o Governo ter injetado dinheiro no mercado, os operadores dizem que o dinheiro não é suficiente para comprar a castanha de caju. É um produto estratégico e a esperança de vida das pessoas, que raramente conseguem ter alguma coisa”, sublinhou Rui Jorge Semedo.

Num relatório divulgado, no final de maio, sobre o impacto socioeconómico da covid-19 na Guiné-Bissau, o Programa da ONU para o Desenvolvimento advertiu que o fracasso da campanha de comercialização do caju pode provocar maior insegurança alimentar.

Com pouco dinheiro, os agricultores não vão conseguir investir na campanha agrícola e os alimentos vão escassear no país. Com cerca de 1,6 milhões de habitantes, a maior parte dos guineenses vive com menos de dois dólares por dia. 

Dados das Nações Unidas indicam que a Guiné-Bissau tem o segundo sistema de saúde mais frágil do mundo, depois da Somália, e na África Ocidental tem os valores mais altos de prevalência de sida e tuberculose.

Apesar de nos países do continente africano a pandemia do novo coronavírus não estar a ter até agora o impacto que teve em outros continentes a nível de contágios e mortalidade, Rui Jorge Semedo considerou que a “situação é imprevisível” na Guiné-Bissau. Até, porque segundo a ONU, o próprio sistema de saúde, pode colapsar. 

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